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Como funcionam stablecoins e por que importam

Stablecoins movimentam mais que a Visa e já são usadas como refúgio em países sob sanções. Entenda o que são, como funcionam e por que crescem.

Como funcionam stablecoins e por que importam
Foto: Alesia Kozik / Unsplash

Poucas inovações do universo cripto cruzaram a fronteira entre nicho e mainstream com tanta velocidade quanto as stablecoins. Esses tokens, projetados para manter paridade com moedas fiduciárias como o dólar americano, movimentaram mais de US$ 27 trilhões em transações nos últimos 12 meses. O volume já supera o processado pela Visa no mesmo período.

Mesmo assim, muitos investidores ainda não entendem exatamente o que são, como mantêm seu valor estável ou quais riscos envolvem. Este guia responde essas perguntas com dados atualizados e contexto prático.

O que são stablecoins e como mantêm a paridade

Uma stablecoin é um token digital cuja cotação é atrelada a um ativo de referência, quase sempre o dólar americano. A ideia resolve um problema fundamental do mercado cripto: a volatilidade. Enquanto o Bitcoin pode oscilar 10% em um dia, uma stablecoin bem estruturada varia centavos.

Existem três modelos principais de lastro. O mais comum é o colateralizado por moeda fiduciária, em que cada token emitido tem o equivalente em dólares depositados em contas bancárias ou títulos do Tesouro americano. É o caso do USDT (Tether) e do USDC (Circle), que juntos representam mais de 85% do mercado.

O segundo modelo usa criptoativos como garantia. Protocolos como o MakerDAO emitem a stablecoin DAI exigindo que o usuário deposite Ethereum ou outros tokens em contratos inteligentes, com uma margem de sobrecolateralização (geralmente 150% ou mais). O terceiro modelo, o algorítmico, tenta manter a paridade por meio de mecanismos automáticos de oferta e demanda. Após o colapso da UST/Luna em 2022, esse tipo perdeu credibilidade e participação de mercado.

USDT vs USDC: qual a diferença na prática

O USDT, emitido pela Tether, é a maior stablecoin do mundo, com capitalização superior a US$ 150 bilhões. Sua adoção é massiva em exchanges asiáticas e em mercados emergentes. A Tether publica relatórios trimestrais de reserva, mas nunca passou por uma auditoria completa realizada por uma das Big Four de contabilidade. Isso gera desconfiança recorrente entre investidores institucionais.

O USDC, da Circle, tem capitalização menor (cerca de US$ 60 bilhões), mas conta com auditorias mensais da Deloitte e é o token preferido de fundos regulados e empresas americanas. A Circle também possui licenças de transmissor de dinheiro em todos os estados dos EUA, o que facilita sua integração com o sistema bancário tradicional.

Na prática, a escolha entre USDT e USDC depende do uso. Para trading em exchanges globais, o USDT tem mais liquidez. Para operações institucionais, tesouraria corporativa e integração com finanças tradicionais, o USDC oferece mais transparência regulatória.

Stablecoins como ferramenta geopolítica

Um dos desenvolvimentos mais relevantes deste ano é o uso crescente de stablecoins em países sob sanções econômicas. A Venezuela, por exemplo, tornou-se um caso emblemático. Com o bolívar em colapso e o acesso ao sistema bancário internacional restrito, cidadãos e empresas passaram a usar USDT para pagamentos cotidianos, remessas e preservação de valor.

Segundo dados da Chainalysis, a Venezuela está entre os dez maiores mercados de criptomoedas por adoção per capita, e a maior parte da atividade envolve stablecoins, não Bitcoin ou Ethereum. O padrão se repete na Argentina, na Turquia e na Nigéria, países onde a moeda local perdeu poder de compra acelerado nos últimos anos.

Esse fenômeno transforma stablecoins em algo que vai além de uma ferramenta de trading. Elas funcionam como uma camada de dolarização digital, acessível a qualquer pessoa com um smartphone. Para os EUA, isso tem uma implicação estratégica: cada USDT ou USDC em circulação representa demanda por títulos do Tesouro americano, já que as reservas dos emissores são majoritariamente compostas por T-Bills.

Riscos que o investidor precisa conhecer

Stablecoins não são depósitos bancários. Elas não contam com seguro do FGC (no Brasil) nem do FDIC (nos EUA). Se a Tether ou a Circle enfrentarem problemas de solvência, não há garantia de resgate integral.

O risco de descolamento (depeg) também existe. Em março de 2023, o USDC chegou a cair para US$ 0,88 quando o Silicon Valley Bank, que custodiava parte das reservas da Circle, entrou em colapso. A paridade foi restaurada em poucos dias, mas o episódio mostrou que a estabilidade não é automática.

O ambiente regulatório está evoluindo rapidamente. No Brasil, o Banco Central incluiu stablecoins no escopo do marco regulatório de criptoativos. Nos EUA, o Congresso debate o GENIUS Act e o Clarity Act, projetos que estabeleceriam requisitos de reserva, auditoria e licenciamento para emissores. Como discutimos na cobertura sobre regulação cripto, a tendência é de maior supervisão sem proibição.

Para que servem stablecoins no dia a dia do investidor

O uso mais direto é como reserva de valor em dólar sem precisar abrir conta no exterior. Um investidor brasileiro pode converter reais em USDC via exchange local e manter exposição ao dólar com custos inferiores aos de um fundo cambial tradicional.

Em DeFi, stablecoins são o alicerce de praticamente toda operação: empréstimos, provisão de liquidez, yield farming. Protocolos como Aave e Compound permitem depositar USDC e receber rendimentos que variam entre 3% e 8% ao ano, dependendo das condições de mercado.

Para remessas internacionais, o custo de enviar USDT pela rede Tron ou USDC pela rede Base é de centavos, contra taxas de US$ 25 a US$ 50 cobradas por bancos tradicionais. É uma diferença que explica a adoção explosiva em mercados emergentes.

Stablecoins não são mais uma curiosidade de nicho. Elas são a ponte entre o sistema financeiro tradicional e a economia digital, e entender seu funcionamento é requisito básico para qualquer investidor que opere com ativos digitais.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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