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Clarity Act trava no Senado e ameaça rali do Bitcoin

Probabilidade de aprovação da lei cripto nos EUA caiu de 82% para 35% no Polymarket. Entenda por que o impasse político ameaça o próximo ciclo de alta.

Clarity Act trava no Senado e ameaça rali do Bitcoin
Foto: Jonathan Borba / Unsplash

O mercado cripto apostava que 2025 seria o ano da virada regulatória nos Estados Unidos. Até poucas semanas atrás, a aprovação do Digital Asset Market Clarity Act parecia questão de tempo. Agora, o cenário mudou de forma drástica.

Os senadores retiraram o projeto da pauta desta semana, deixando apenas uma janela estreita de dias úteis antes do recesso de verão, que começa em 8 de agosto. Se não houver acordo até lá, as chances de ver a legislação aprovada ainda neste ano se tornam residuais.

No Polymarket, plataforma de apostas descentralizada que virou termômetro político em Washington, a probabilidade de aprovação do Clarity Act despencou para 35%. Em fevereiro, esse número era de 82%. A queda de quase 50 pontos percentuais em cinco meses reflete um impasse que vai muito além de tecnicidades legislativas.

O que é o Clarity Act e por que ele importa tanto

O Digital Asset Market Clarity Act é, na prática, a primeira tentativa concreta de criar um marco regulatório abrangente para ativos digitais nos Estados Unidos. A legislação resolve uma questão que paralisa o setor há anos: saber se criptomoedas devem ser tratadas como commodities ou como valores mobiliários.

Pelo texto aprovado na Câmara no ano passado, moedas como Bitcoin e Ethereum ficariam sob jurisdição da Commodity Futures Trading Commission (CFTC). Já veículos de investimento atrelados a criptoativos permaneceriam sob supervisão da SEC. Essa divisão clara de competências é exatamente o que o mercado institucional espera para ampliar sua exposição ao setor.

Sem essa definição, bancos, gestoras e fundos de pensão seguem com as mãos atadas. O risco regulatório continua sendo o principal argumento de compliance para evitar posições relevantes em criptoativos. É por isso que analistas projetam que a aprovação do Clarity Act poderia catalisar um movimento de alta expressivo, com estimativas que colocam o Bitcoin na faixa dos US$ 200 mil.

A cláusula Trump que travou tudo

O ponto central do impasse tem nome e sobrenome. Uma cláusula inserida no projeto busca barrar conflitos de interesse envolvendo políticos e autoridades federais com criptoativos. O dispositivo proíbe o presidente, o vice-presidente e membros do Congresso, além de seus cônjuges, de emitir ou promover criptomoedas.

A família Trump é o alvo evidente. Na versão com aval da Casa Branca e apoio de boa parte dos republicanos, o presidente teria prazo de um ano para se desfazer de seus criptoativos ou transferi-los para um blind trust, estrutura que isola o político das decisões sobre seus investimentos.

Os democratas consideram o prazo insuficiente e contestam outro ponto: a proposta prevê que a restrição perca validade para presidentes e autoridades após deixarem o cargo. Na prática, isso impediria ações futuras contra eventuais irregularidades cometidas durante o mandato. É um impasse político clássico, onde a questão regulatória do mercado se tornou refém de uma disputa de poder entre partidos.

Como já discutimos na cobertura sobre regulação financeira, esse tipo de travamento legislativo tem efeito cascata sobre a confiança dos investidores.

O impacto imediato no preço do Bitcoin

A reação do mercado foi rápida. O Bitcoin devolveu parte da recuperação construída ao longo do último mês, recuando dos US$ 66 mil da semana passada para menos de US$ 64 mil. No acumulado do ano, a desvalorização chega a 27%, um contraste brutal com a máxima histórica de US$ 122 mil registrada em outubro do ano passado.

É importante contextualizar esse recuo. O mercado cripto já havia precificado, ao menos parcialmente, a aprovação do Clarity Act como evento provável. Quando essa expectativa se desfaz, o ajuste de posições é natural. Fundos que montaram posições compradas com base no cenário regulatório favorável agora precisam recalibrar.

O segundo semestre tende a ser ainda mais desafiador para a tramitação. As eleições de meio de mandato em novembro vão consumir a energia política do Congresso, reduzindo a janela legislativa a praticamente nada. Mesmo que o Senado vote o projeto antes do recesso, ainda seria necessária uma nova votação na Câmara para conciliar as versões, o que torna a aprovação em 2025 cada vez mais improvável.

O que esperar a partir daqui

Para o investidor que acompanha o setor, o cenário exige paciência e uma dose extra de realismo. A regulação cripto nos EUA continua sendo o maior catalisador de longo prazo para o mercado, mas o timing político não obedece à lógica dos ciclos de mercado.

Três fatores merecem atenção nas próximas semanas. O primeiro é se haverá alguma tentativa de negociação bipartidária antes do recesso. O segundo é o comportamento dos fluxos institucionais nos ETFs de Bitcoin à vista, que funcionam como proxy da confiança do mercado tradicional. O terceiro é a possibilidade de a SEC adotar posições regulatórias por conta própria, via enforcement, enquanto o Congresso permanece travado.

O Clarity Act não morreu, mas entrou em hibernação política. E no mercado cripto, incerteza regulatória é sinônimo de volatilidade. Para quem opera com horizonte curto, o cenário sugere cautela. Para quem olha o longo prazo, a tese de que os EUA eventualmente vão regular o setor de forma construtiva segue intacta. A questão é quando, e a resposta ficou consideravelmente mais distante.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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