CFTC propõe primeira regulação para mercados de previsão nos EUA e mira contratos de eventos
Criptomoedas

CFTC quer regular mercados de previsão nos EUA

Agência americana apresenta proposta inédita para supervisionar plataformas como Polymarket e Kalshi, que já movimentam bilhões em apostas sobre eventos reais.

CFTC quer regular mercados de previsão nos EUA
Foto: Arturo Añez. / Unsplash

A Commodity Futures Trading Commission (CFTC), principal regulador de derivativos dos Estados Unidos, apresentou nesta semana a primeira proposta formal de regras para mercados de previsão baseados em eventos. O movimento era esperado desde que plataformas como Polymarket e Kalshi explodiram em volume durante as eleições americanas de 2024, e agora ganha contornos concretos.

A proposta não proíbe esses mercados. Pelo contrário: reconhece sua existência e tenta enquadrá-los dentro de uma estrutura regulatória que já existe para contratos futuros e opções. A questão central é definir quais tipos de contratos podem ser listados legalmente e quais cruzam a linha para o que a agência chama de “apostas em atividades ilegais ou contrárias ao interesse público”.

O que a CFTC propõe para os prediction markets

O texto divulgado pela agência cria um processo de revisão para contratos baseados em eventos. Exchanges registradas, como a Kalshi, teriam que submeter novos contratos à análise da CFTC antes de listá-los. A agência avaliaria se o contrato envolve “atividade econômica verificável” ou se é simplesmente uma aposta binária sobre um acontecimento.

Na prática, contratos sobre dados econômicos, como inflação ou payroll, tendem a ser aprovados com mais facilidade. Já contratos sobre resultados eleitorais, eventos esportivos ou catástrofes naturais entram numa zona cinzenta que a proposta tenta delimitar. A CFTC abriu um período de comentários públicos de 75 dias antes de qualquer decisão final.

O timing não é acidental. Segundo dados da própria CFTC, o volume negociado em mercados de previsão regulados nos EUA cresceu mais de 300% entre 2023 e 2025. A Polymarket, que opera fora dos EUA mas atrai usuários americanos por meio de VPNs, processou mais de US$ 3 bilhões em volume apenas durante o ciclo eleitoral de 2024, como acompanhamos na cobertura de criptomoedas.

Kalshi e Polymarket: dois modelos, uma mesma disputa

A diferença entre as duas maiores plataformas do setor ilustra bem o desafio regulatório. A Kalshi é registrada na CFTC como uma exchange de contratos de eventos e opera dentro do arcabouço legal americano. A empresa travou uma batalha judicial com a própria agência em 2023 pelo direito de listar contratos eleitorais, vencendo em segunda instância.

A Polymarket, por sua vez, opera sobre blockchain, usando stablecoins como USDC para liquidação. Não é registrada nos EUA e, em 2022, pagou uma multa de US$ 1,4 milhão à CFTC por operar sem autorização. Mesmo assim, cresceu exponencialmente ao oferecer uma experiência mais ágil e sem as restrições de limites de posição impostos a plataformas reguladas.

A proposta da CFTC parece tentar criar um caminho do meio. Ao estabelecer regras claras, a agência pode atrair plataformas cripto-nativas para dentro do sistema, em vez de empurrá-las para jurisdições offshore. Essa abordagem está alinhada com a postura mais conciliatória que o ambiente regulatório americano tem adotado desde a mudança de governo.

Por que isso importa para o investidor brasileiro

Mercados de previsão não são apenas curiosidade especulativa. Eles funcionam como termômetros em tempo real de expectativas coletivas. Gestores de fundos já usam dados da Polymarket para calibrar modelos de risco político. A Bloomberg integrou cotações de mercados de previsão em seus terminais. O Federal Reserve de Nova York publicou estudos reconhecendo a precisão desses mercados como indicadores antecedentes.

Para o ecossistema cripto especificamente, uma regulação favorável nos EUA legitimaria um dos casos de uso mais bem-sucedidos de contratos inteligentes e stablecoins. Plataformas descentralizadas de previsão, como a Azuro e a própria Polymarket, demonstram que blockchains públicas podem processar bilhões em valor de forma eficiente, sem intermediários tradicionais.

No Brasil, a CVM ainda não se pronunciou formalmente sobre mercados de previsão. Mas o avanço regulatório americano tende a criar precedentes. O Marco Legal das Criptomoedas, sancionado em 2022, delegou ao Banco Central a supervisão de ativos virtuais, mas não tratou explicitamente de contratos de eventos tokenizados. Esse é um vácuo que, cedo ou tarde, precisará ser preenchido, como já discutimos ao abordar os desdobramentos da regulação cripto no país.

O que esperar dos próximos meses

O período de comentários públicos deve atrair lobby pesado de ambos os lados. Casas de apostas esportivas tradicionais, como DraftKings e FanDuel, veem mercados de previsão como concorrência direta e tendem a pressionar por restrições. Já empresas de tecnologia financeira e o setor cripto devem defender regras mais abertas.

A Securitize, que está prestes a listar suas ações na NYSE, é outro nome que acompanha de perto esse movimento. A tokenização de ativos reais e contratos de eventos compartilham infraestrutura regulatória similar. Analistas do Benchmark estimam que a empresa está “posicionada para ser um outlier positivo” nesse novo ambiente, com preço-alvo de US$ 16 por ação.

O resultado final vai depender de quanto a CFTC está disposta a inovar sem abrir mão de proteção ao consumidor. Mas o sinal é claro: mercados de previsão vieram para ficar, e os EUA preferem regulá-los a ignorá-los.

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Renato Moura

Sobre o autor

Renato Moura

Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.

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