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Cerebras quase faliu queimando US$ 8 mi por mês e agora vale US$ 60 bi

A fabricante de chips de IA Cerebras quase morreu nos primeiros anos, queimando US$ 8 milhões mensais. Hoje vale US$ 60 bi e pressiona a Nvidia.

Cerebras quase faliu queimando US$ 8 mi por mês e agora vale US$ 60 bi
Foto: Tima Miroshnichenko / Unsplash

Existe uma linha tênue entre ambição e suicídio financeiro no mundo das startups. A Cerebras Systems, fabricante de chips voltados para inteligência artificial, caminhou sobre essa linha durante anos. Nos seus primeiros tempos de operação, a empresa queimava cerca de US$ 8 milhões por mês sem receita relevante, apostando em uma tecnologia que o mercado ainda não sabia se precisava.

Hoje, a Cerebras é avaliada em aproximadamente US$ 60 bilhões. A trajetória, revelada em detalhes pelo TechCrunch esta semana, é um estudo de caso sobre como o timing pode transformar uma empresa à beira da morte em uma das mais valiosas do setor de semicondutores do planeta.

Como a Cerebras sobreviveu à própria ambição

A proposta da Cerebras sempre foi radical: construir o maior chip do mundo. Enquanto a Nvidia, a AMD e outros players tradicionais trabalham com GPUs compostas por bilhões de transistores em pastilhas relativamente compactas, a Cerebras decidiu usar um wafer inteiro de silício como um único processador. O resultado é o WSE (Wafer Scale Engine), um chip do tamanho de um prato de jantar.

O problema é que fabricar algo assim custa caro. Muito caro. Nos primeiros anos, a empresa dependia exclusivamente de capital de risco para se manter viva, sem contratos de peso e com uma tecnologia que muitos engenheiros de semicondutores consideravam impraticável. A queima de caixa de US$ 8 milhões mensais colocava a startup em risco constante de insolvência.

O que mudou o jogo foi a explosão da demanda por infraestrutura de IA a partir de 2023. Com o lançamento do ChatGPT e a corrida global por capacidade computacional, clientes que antes hesitavam passaram a bater na porta da Cerebras. De repente, a ideia de um chip gigante capaz de treinar modelos de linguagem com eficiência energética superior deixou de ser excêntrica e virou estratégica.

O mercado de chips de IA além da Nvidia

A dominância da Nvidia no mercado de chips para IA é incontestável. A empresa de Jensen Huang controla algo entre 80% e 90% do mercado de GPUs para data centers, segundo estimativas da consultoria TechInsights. Seus chips H100 e Blackwell se tornaram o padrão da indústria, e a capitalização de mercado da companhia já ultrapassou US$ 3 trilhões.

Mas essa concentração também gerou desconforto. Empresas como Google, Microsoft e Amazon desenvolvem chips proprietários justamente para reduzir a dependência. E startups como a Cerebras, a Groq e a SambaNova se posicionam como alternativas especializadas, cada uma com uma abordagem arquitetural diferente. Como já analisamos em nossa cobertura sobre o setor de tecnologia, a diversificação da cadeia de chips é uma das tendências mais relevantes da década.

A Cerebras se diferencia pela eficiência no treinamento de modelos grandes. Segundo a própria empresa, o WSE-3, sua terceira geração, entrega performance comparável a clusters de centenas de GPUs Nvidia com consumo energético significativamente menor. Para clientes que enfrentam restrições de energia em data centers, o argumento é poderoso.

US$ 60 bilhões é muito ou pouco?

A avaliação de US$ 60 bilhões coloca a Cerebras entre as startups mais valiosas do mundo, ao lado de nomes como SpaceX e Stripe. É um número que levanta sobrancelhas, especialmente considerando que a receita anual estimada da empresa ainda é uma fração do que gera a Nvidia, que faturou mais de US$ 130 bilhões nos últimos 12 meses.

O valuation reflete menos o presente e mais a aposta no futuro. O mercado global de chips para IA deve crescer de US$ 53 bilhões em 2023 para mais de US$ 300 bilhões até 2030, segundo projeções da Precedence Research. Se a Cerebras conseguir capturar mesmo uma fatia de 5% desse mercado, a conta fecha. Se não conseguir, o prêmio será lembrado como mais um caso de euforia do ciclo de IA.

Para investidores brasileiros que acompanham o setor de tecnologia, o caso Cerebras ilustra uma dinâmica importante: o mercado de capitais global está disposto a financiar infraestrutura de IA com valuations que desafiam métricas tradicionais. O fundador da empresa, Andrew Feldman, já captou mais de US$ 4 bilhões em rodadas sucessivas, incluindo investidores soberanos do Oriente Médio.

O que a trajetória da Cerebras ensina sobre o ciclo de IA

A história da Cerebras é um microcosmo do ciclo de IA como um todo. Empresas que apostaram cedo em infraestrutura para modelos de linguagem quase morreram antes que o mercado estivesse pronto. As que sobreviveram agora colhem retornos desproporcionais.

Isso vale para chips, mas vale também para data centers, redes de fibra óptica, soluções de refrigeração e até para o mercado de energia. A corrida por capacidade computacional está remodelando cadeias produtivas inteiras. E a lição da Cerebras é clara: no setor de infraestrutura de IA, quem tinha capital para sobreviver à travessia do deserto se tornou um dos vencedores.

A questão agora é saber se a empresa consegue converter avaliação em receita sustentável. O IPO, cogitado desde 2024 mas adiado por condições de mercado, seria o próximo teste real. Até lá, a Cerebras permanece como um dos exemplos mais extremos de como a inteligência artificial redistribui valor no ecossistema de tecnologia.

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Lucas Ferreira

Sobre o autor

Lucas Ferreira

Jornalista especializado em tecnologia e inteligencia artificial. Cobre big techs, startups, IA generativa, ciberseguranca e transformacao digital para o portal BlockTrends.

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