Bybit processa Coreia do Norte pelo hack de US$ 1,4 bi
Apenas 5% dos fundos foram recuperados e 90% ja perderam o rastro. Acao civil busca preservar ativos enquanto investigacoes criminais avancam.
A Bybit, uma das maiores exchanges de criptomoedas do mundo, entrou com um processo civil nos Estados Unidos contra a Coreia do Norte e o Lazarus Group. O objetivo é tentar recuperar os fundos roubados no ataque ocorrido em fevereiro de 2025, avaliado em US$ 1,4 bilhão, o maior da história do mercado cripto.
O problema é que recuperar esse dinheiro parece cada vez mais improvável. Segundo dados divulgados pela própria corretora, apenas 5,29% dos ativos foram recuperados até agora. O dado mais alarmante: 90,2% dos fundos já perderam completamente o rastro. Em termos absolutos, cerca de US$ 1,3 bilhão simplesmente desapareceu da blockchain pública, e somente US$ 64 milhões seguem rastreáveis.
A ação civil, portanto, funciona menos como instrumento de recuperação imediata e mais como uma estratégia de pressão institucional. E o que ela revela sobre o estado da segurança no mercado cripto é tão relevante quanto o processo em si.
O que a ação judicial da Bybit busca de fato
A corretora afirmou que a ordem judicial busca preservar os ativos digitais roubados que já foram identificados enquanto o processo continua tramitando. É uma medida preventiva: caso investigadores consigam localizar carteiras vinculadas ao Lazarus Group, a decisão judicial pode acelerar o congelamento desses fundos em jurisdições que cooperam com tribunais americanos.
A Bybit reconhece que investigações criminais continuam sendo responsabilidade das autoridades governamentais. Mas argumenta que o processo civil abre uma via complementar para preservar ativos e proteger os interesses das partes afetadas, incluindo os próprios usuários da plataforma.
Ben Zhou, cofundador e CEO da Bybit, enquadrou o ataque como um problema coletivo. “Não foi somente contra a Bybit, mas contra a confiança de toda a indústria”, disse. “Trabalhamos em estreita colaboração com investigadores, corretoras, reguladores, autoridades policiais e agora com os tribunais.”
A declaração carrega peso simbólico. Processar um Estado soberano é, na prática, um gesto político tanto quanto jurídico. A Coreia do Norte, como já documentamos em análises anteriores sobre crimes cibernéticos no setor cripto, opera o Lazarus Group como braço de financiamento estatal. As chances de o regime de Pyongyang responder a um tribunal americano são próximas de zero.
Por que 90% dos fundos são irrecuperáveis
O número de 90,2% de fundos irrastreáveis não surpreende quem acompanha a sofisticação do Lazarus Group. O grupo norte-coreano é responsável por alguns dos maiores ataques cibernéticos da última década, e desenvolveu uma infraestrutura robusta de lavagem de criptomoedas.
O método envolve fragmentar os ativos roubados em milhares de carteiras intermediárias, convertê-los entre diferentes blockchains por meio de bridges descentralizadas e, eventualmente, transformá-los em moedas com maior privacidade. O processo é rápido. Em questão de dias após o ataque, a maior parte dos fundos já havia passado por dezenas de saltos entre carteiras.
A Bybit criou uma página pública destinada a rastrear os fundos roubados e ofereceu uma recompensa de 10% para quem ajudasse na recuperação. Apesar do incentivo financeiro, os resultados foram modestos. Isso ilustra uma realidade incômoda: a infraestrutura descentralizada que torna as criptomoedas atraentes para investidores também é a mesma que dificulta a recuperação de ativos em casos de roubo.
A questão da segurança em exchanges centralizadas voltou ao centro do debate. Embora a Bybit tenha publicado relatórios detalhando toda a engenharia por trás do ataque, o episódio reforça que mesmo plataformas de grande porte permanecem vulneráveis a ataques sofisticados patrocinados por Estados.
A resposta da Bybit no pós-crise
Um ponto que merece destaque é a forma como a Bybit lidou com as consequências imediatas. Nas 24 horas seguintes ao ataque, a corretora processou cerca de R$ 31 bilhões em retiradas. Em vez de suspender operações ou impor limites, a exchange manteve as portas abertas e arcou com as perdas.
Essa decisão foi estratégica. Em um mercado onde a memória da FTX ainda é recente, qualquer sinal de restrição a saques poderia desencadear uma corrida bancária digital. A Bybit optou por absorver o impacto financeiro para preservar a confiança dos usuários.
Zhou afirmou que “o verdadeiro teste vem depois da crise” e que a confiança dos usuários precisa ser conquistada todos os dias por meio de ações concretas. O processo judicial é parte dessa narrativa de responsabilidade.
O que isso significa para o mercado cripto
O caso da Bybit levanta questões que vão além de uma exchange específica. Primeiro, sobre a eficácia real dos mecanismos de rastreamento on-chain. Apesar dos avanços em ferramentas de análise forense de blockchain, como as oferecidas por Chainalysis e Elliptic, o Lazarus Group demonstrou que é possível tornar a maioria dos fundos irrastreáveis em questão de semanas.
Segundo, sobre o papel dos tribunais ocidentais em crimes cibernéticos internacionais. A ação da Bybit nos EUA cria precedente, mas esbarra em limitações práticas. A Coreia do Norte não mantém relações diplomáticas com os Estados Unidos e ignora consistentemente decisões de tribunais estrangeiros.
Terceiro, e talvez mais relevante para investidores, sobre como avaliar o risco de custódia. O hack de US$ 1,4 bilhão foi executado contra uma exchange que figurava entre as cinco maiores do mundo em volume de negociação. Se uma plataforma desse porte é vulnerável, a pergunta sobre onde e como custodiar criptomoedas com segurança se torna ainda mais urgente.
O cenário regulatório global caminha na direção de exigir padrões de segurança mais rígidos para exchanges. A União Europeia, com o MiCA, e jurisdições como Singapura e Japão já impõem requisitos de segregação de fundos e auditorias periódicas. O episódio da Bybit reforça que esses frameworks não são apenas burocracia, mas necessidade.
Enquanto o processo tramita nos tribunais americanos, a realidade é que US$ 1,3 bilhão provavelmente já financiaram programas estatais norte-coreanos. O hack da Bybit não é apenas um caso de segurança cibernética. É um caso de geopolítica digital, e o mercado cripto está no centro dele.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
