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Bitcoin sobe mesmo com alta de juros nos EUA: o que explica

Fed elevou juros em 0,25 p.p., mas projeções do dot plot indicam ciclo curto de aperto. Cripto e bolsas reagiram com alívio. Entenda o cenário.

Bitcoin sobe mesmo com alta de juros nos EUA: o que explica
Foto: Engin Akyurt / Unsplash

O Federal Reserve elevou a taxa de juros em 0,25 ponto percentual nesta semana, levando o intervalo para 3,75% a 4%. Foi o primeiro aumento desde 2023. O presidente do Fed, Kevin Warsh, afirmou que a inflação permaneceu “alta demais por tempo demais” e que os dados recentes não mostraram melhora estrutural nos preços.

A reação dos mercados, porém, foi o oposto do que se esperaria diante de um aperto monetário. O Bitcoin avançou 0,88% em 24 horas para a região dos US$ 76.600. Ether subiu 1,1%, Solana ganhou 2%, e 94 dos 100 principais criptoativos registraram alta no período. O que explica o otimismo em meio a juros mais altos?

O dot plot acalmou o mercado mais do que o comunicado assustou

A resposta está nas projeções dos próprios membros do Fed, conhecidas como dot plot. A mediana indica uma taxa de 4,1% ao final de 2025 e também ao final de 2026. Na prática, isso sugere que o comitê prevê no máximo mais um aumento de 0,25 ponto percentual, sem um ciclo prolongado de aperto.

Esse sinal foi suficiente para reverter o humor. Em sessões anteriores, o mercado já vinha precificando um cenário mais agressivo, com o rendimento do Treasury de dois anos tocando o maior nível desde 2024. Ao ver que o Fed não pretende sustentar uma escalada de juros, investidores reduziram posições defensivas.

O índice do dólar (DXY) recuou 0,17%. Futuros do Nasdaq 100 subiram 1,04%, os do S&P 500 avançaram 0,81%, ouro ganhou 1,02% e prata, 1,52%. O Treasury de dois anos cedeu 2 pontos-base para 4,71%. O movimento foi coordenado: ativos de risco em alta, dólar e juros longos em queda.

Cripto seguiu o rali, mas não liderou

Um detalhe relevante para quem acompanha o mercado cripto é que, desta vez, o setor acompanhou a tendência dos mercados tradicionais em vez de se descolar. Nos dias anteriores, criptoativos haviam se movido de forma independente das bolsas. A alta pós-Fed, no entanto, veio de um realinhamento com o apetite a risco global.

A recuperação foi mais intensa na ponta especulativa. O índice que agrupa os 80 menores ativos entre os 100 principais do mercado subiu 4,7%, enquanto o índice concentrado em Bitcoin e grandes criptos avançou apenas 1,2%. Isso indica que o capital está migrando para tokens de menor capitalização, um comportamento típico de fases em que o mercado percebe redução de risco sistêmico.

Esse padrão merece atenção. Em ciclos anteriores, a liderança das altcoins sobre o Bitcoin frequentemente sinalizou momentos de euforia de curto prazo, nem sempre sustentáveis.

ETFs de Bitcoin seguem com saídas bilionárias

Se o preço subiu, os fluxos institucionais contam outra história. Os ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos registraram saídas de US$ 295,98 milhões na quarta-feira, após perdas de US$ 450,33 milhões no dia anterior. São sete sessões consecutivas de resgates, acumulando mais de US$ 1 bilhão em saídas líquidas desde o início do mês.

Os ativos líquidos totais dos ETFs de Bitcoin spot caíram para US$ 95,19 bilhões. O dado importa porque esses fundos se tornaram o principal termômetro de demanda institucional pelo ativo. Enquanto o preço reage a sinais macro e expectativas de juros, o dinheiro institucional segue saindo.

O Bitcoin ainda opera 6,9% abaixo da máxima mensal de US$ 82.284, registrada no início do mês. A divergência entre preço e fluxo sugere que o rali atual é sustentado mais por posicionamento de traders do que por alocação de longo prazo. Para quem analisa fluxos de ETFs como indicador, esse é um sinal de cautela.

O que o cenário de juros significa para cripto daqui em diante

O ponto central é que o mercado não reagiu ao aumento de juros em si, mas ao horizonte que o Fed sinalizou. Um ciclo de aperto curto, com possível estabilização da taxa em torno de 4,1%, é radicalmente diferente de um cenário em que o banco central americano precisaria subir juros repetidamente para conter a inflação.

Para criptoativos, juros estáveis em patamar elevado são um ambiente misto. Não oferecem o vento de cauda de cortes agressivos, que historicamente impulsionaram ralis expressivos em Bitcoin e altcoins. Mas também não representam o aperto progressivo que esmagou o mercado em 2022 e 2023.

O cenário mais provável, segundo as próprias projeções do Fed, é um período de taxas relativamente paradas. Nesse ambiente, o que tende a diferenciar ativos vencedores de perdedores é o fundamento específico de cada projeto ou setor, não o impulso macro generalizado.

Para o investidor, o recado é direto: a alta de juros em si não mudou a tese. O que muda é que o mercado precisa encontrar outros catalisadores além da política monetária para sustentar uma valorização consistente. E, por enquanto, os dados de fluxo institucional não confirmam essa sustentação.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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