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Bitcoin recua a US$ 63 mil com selloff de techs: o que mudou

A queda do Bitcoin para US$ 62,8 mil não veio do mercado cripto. Veio da rotação em ações de tecnologia e IA que liderava os mercados em 2025.

Bitcoin recua a US$ 63 mil com selloff de techs: o que mudou
Foto: DS stories / Unsplash

O Bitcoin caiu abaixo dos US$ 63 mil na terça-feira, negociado em torno de US$ 62.840, uma retração de 1,1% em 24 horas e 3,5% na semana. Mas o dado mais relevante não está no gráfico do BTC. Está no Kospi da Coreia do Sul, que despencou mais de 6%, e nos futuros do Nasdaq 100, que recuaram 1,3%.

A pressão não nasceu dentro do ecossistema cripto. Nasceu de uma rotação agressiva para fora das ações de tecnologia e semicondutores que lideraram os mercados ao longo de todo o ano. É uma mudança de regime importante para quem opera cripto olhando apenas indicadores on-chain.

A rotação em techs que arrastou todo o mercado de risco

Por semanas, o Bitcoin reagiu a cada capítulo da crise geopolítica envolvendo o Irã. Com um roteiro de paz encaminhado e o petróleo Brent recuando para abaixo de US$ 78 o barril, essa narrativa perdeu força. O que assumiu o protagonismo foi a mesma operação de IA que levou as bolsas globais a recordes históricos.

E quando essa operação balançou, o cripto veio junto. Um indicador de ações asiáticas caiu mais de 2% logo após renovar máxima histórica. Os futuros do S&P 500 cederam 0,8%. O ouro também recuou. O movimento foi generalizado: investidores tiraram o pé de ativos de risco.

Para quem acompanha a dinâmica entre cripto e mercado tradicional, esse tipo de correlação não é novidade. Mas a intensidade da rotação sugere algo além de uma realização pontual. Existe um questionamento real sobre se os gastos com IA conseguem sustentar as valuations que o mercado precificou.

Os três gatilhos macro das próximas semanas

O próximo teste imediato são os resultados da fabricante de chips de memória Micron, cujas ações subiram mais de 300% no ano. Se os números decepcionarem, a narrativa de que IA justifica qualquer múltiplo vai rachar, e ativos correlacionados como Bitcoin tendem a sofrer junto.

Mas o calendário macro é denso. A firma de serviços financeiros digitais Bitfire Group, listada em Hong Kong, mapeou três catalisadores relevantes nas próximas quatro semanas:

  • O relatório de emprego dos EUA em 2 de julho, que mede diretamente a saúde do mercado de trabalho americano.
  • O índice de preços ao consumidor (CPI) em 14 de julho, o principal termômetro de inflação e peça-chave para as decisões do Federal Reserve.
  • O início da temporada de balanços do segundo trimestre, a partir da segunda metade de julho, começando pelos bancos e avançando até as grandes empresas de IA, cujas projeções futuras vão definir o apetite global por risco.

Esses eventos são determinantes porque, como temos analisado na cobertura de finanças, o ciclo do Bitcoin em 2025 está muito mais atrelado à política monetária e ao fluxo institucional do que a narrativas internas do mercado cripto.

Dois sinais de alerta específicos do cripto

Além do cenário macro, dois indicadores internos merecem atenção. O primeiro é o chamado Coinbase Premium, que mede a diferença entre o preço do Bitcoin na Coinbase (proxy da demanda institucional americana) e em outras exchanges. Esse spread se ampliou para o lado negativo, sugerindo que a compra institucional nos EUA segue morna.

O segundo sinal envolve as ações preferenciais STRC da Strategy (antiga MicroStrategy), que recuaram para abaixo de US$ 84, um novo piso. Embora não haja risco iminente de liquidação, o fantasma do “e se eles precisarem vender?” é real e funciona como uma âncora no sentimento do mercado. A exposição massiva da empresa ao Bitcoin transforma qualquer fraqueza de seus papéis em ruído negativo para o ativo.

É um ponto que merece monitoramento. A trajetória da Strategy como tesouraria corporativa de Bitcoin sempre foi uma faca de dois gumes: amplifica a alta, mas também amplifica o medo na baixa.

Volumes em queda e o suporte que importa

Os dados de maio reforçam a leitura de um mercado sem convicção. O volume combinado das exchanges caiu 3,45%, para US$ 4,41 trilhões, o menor patamar desde setembro de 2024. Na contramão, os volumes de futuros perpétuos de ativos do mundo real (RWA) subiram 10,4%, atingindo nova máxima histórica. É um sinal de que o capital está migrando para nichos com tese de uso concreto, não para alavancagem direcional em Bitcoin.

As altcoins acompanharam a queda. Ether recuou 0,9% para US$ 1.719, acumulando perda de 3,3% na semana. XRP caiu 1,6%, com desvalorização semanal de 9%. Solana perdeu 3,4% e Dogecoin recuou 6,6% em sete dias. A exceção foi Tron, que subiu 1,3% no dia e 4,6% na semana.

Para o Bitcoin, o nível técnico mais relevante continua sendo o mesmo que definiu todo o mês de junho. O ativo voltou para a parte inferior do seu intervalo recente, e uma quebra limpa da faixa entre US$ 59 mil e US$ 60 mil sinalizaria que a correção entrou em uma nova fase.

O que muda na prática para quem investe

A principal mudança de leitura é entender que, neste momento, o Bitcoin não está reagindo a regulação, adoção institucional ou halvings. Está reagindo ao mesmo fator que move o Nasdaq: a confiança na sustentabilidade dos gastos com inteligência artificial.

Isso tem implicações diretas. Quem opera cripto precisa olhar para os balanços da Micron, da Nvidia e das big techs tanto quanto olha para fluxos de ETFs de Bitcoin. O mercado de 2025 é um mercado integrado. O cripto não se descorrelacionou das ações de tecnologia. Se correlacionou mais.

A semana que vem, com payroll e CPI no horizonte, vai testar se o mercado de trabalho americano ainda sustenta a tese de pouso suave. Um dado forte demais joga contra o corte de juros. Um dado fraco demais levanta o medo de recessão. E qualquer um dos dois cenários extremos é negativo para ativos de risco no curto prazo.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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