Criptomoedas

Bitcoin perde US$ 59 mil e gera US$ 1 bi em liquidações: o que explica a queda

Bitcoin tocou US$ 59,1 mil, menor nível desde junho, com US$ 1 bi em liquidações. Resultados da Micron frearam a queda, mas riscos de fim de trimestre seguem no radar.

Bitcoin perde US$ 59 mil e gera US$ 1 bi em liquidações: o que explica a queda
Foto: DS stories / Unsplash

O Bitcoin tocou US$ 59.175 durante a sessão noturna, seu menor patamar desde o início de junho, antes de recuperar parte das perdas e voltar a negociar em torno de US$ 61.500. O movimento detonou quase US$ 1 bilhão em liquidações de posições alavancadas em futuros de criptomoedas, atingindo não apenas o BTC, mas também ether, solana e até versões tokenizadas de ações como Micron e SanDisk.

Só em futuros atrelados ao Bitcoin, foram US$ 430 milhões em liquidações de posições compradas, ou seja, apostas de alta que foram automaticamente encerradas conforme o preço despencava. A queda acumulada desde a máxima de segunda-feira, próxima de US$ 65.500, já chegava a 10%.

Não houve um catalisador único. O que se viu foi a confluência de pressões que já dominavam a semana: um Federal Reserve com discurso mais duro, seis semanas consecutivas de saídas em ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos, liquidez cada vez mais rarefeita pelo período de verão no hemisfério norte e o vencimento de opções de fim de trimestre previsto para o dia 30.

ETFs de Bitcoin acumulam quase US$ 500 milhões em saídas em um dia

Os ETFs de Bitcoin à vista nos EUA registraram US$ 469 milhões em resgates líquidos em um único dia, a 30ª maior retirada desde que esses produtos foram lançados em janeiro de 2024. Com meses de saídas consistentes, o acumulado de entradas líquidas recuou para US$ 52,8 bilhões, nível visto pela última vez em meados de julho, cerca de US$ 2,3 bilhões abaixo do pico alcançado poucos dias depois.

Esse dado importa porque mostra que o fluxo institucional, que foi o grande motor da alta do Bitcoin no primeiro semestre, está em modo de espera. Como já analisamos na cobertura de criptomoedas do portal, a dinâmica dos ETFs se tornou um termômetro fundamental para entender os ciclos de curto prazo do BTC.

A formadora de mercado Wintermute já havia sinalizado, em nota publicada na terça-feira, que US$ 59 mil era o piso a ser observado num cenário de baixa. O nível segurou por pouco. Segundo dados da CoinGlass, há US$ 1,6 bilhão em posições alavancadas compradas concentradas abaixo de US$ 58 mil. Uma quebra desse suporte aceleraria a pressão vendedora de forma significativa.

Resultados da Micron e o trade de IA seguraram a sangria

A recuperação parcial do Bitcoin veio de fora do universo cripto. A Micron Technology divulgou resultados trimestrais que superaram amplamente as estimativas de analistas, impulsionando suas ações e arrastando todo o setor de chips de memória para cima. A SK Hynix revelou planos para uma listagem de ações nos Estados Unidos buscando captar cerca de US$ 29 bilhões, uma das maiores ofertas já registradas. Samsung e Kioxia também subiram na sessão asiática.

É um ciclo curioso. O mesmo trade de inteligência artificial que derrubou o Kospi em 10% na segunda-feira, quando surgiram temores de que o ciclo de investimentos em IA estaria desacelerando, agora foi o que estabilizou o mercado cripto. Os números da Micron foram lidos como confirmação de que a demanda por memória voltada à IA é estrutural, não especulativa.

Para quem acompanha a intersecção entre tecnologia e mercados financeiros, essa correlação crescente entre o sentimento no setor de semicondutores e o apetite por risco em criptomoedas é uma tendência que vale monitorar de perto.

Petróleo em queda pode ser vento favorável, mas com defasagem

O Brent caiu abaixo de US$ 72,48 o barril, eliminando todos os ganhos acumulados desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã, à medida que petroleiros retomaram passagem aberta pelo Estreito de Hormuz e a oferta inundou o mercado. O WTI negociava perto de US$ 69.

Petróleo mais barato alivia a pressão inflacionária que empurrou o Fed para uma postura mais restritiva. Uma queda sustentada poderia, eventualmente, alterar as expectativas de juros que vêm pesando sobre o Bitcoin durante todo o mês. A cadeia lógica é direta: petróleo cai, inflação desacelera, Fed fica menos hawkish, ativos de risco ganham espaço para respirar.

Mas essa sequência opera com defasagem de meses, não de dias. O movimento no petróleo é um vento favorável em formação, não um que já chegou. O dado de inflação PCE, indicador preferido do Fed, era o próximo ponto de dados capaz de mover o mercado em qualquer direção.

Aave dispara 15% com meta de US$ 3.500 do Standard Chartered

Em meio à turbulência, o token AAVE registrou alta de 15% em 24 horas, negociando em torno de US$ 80 após o Standard Chartered iniciar cobertura com um preço-alvo de US$ 3.500 para o fim de 2030. Isso representaria uma valorização de cerca de 50 vezes em relação ao preço no momento da publicação do relatório.

A tese, elaborada por Geoff Kendrick, chefe global de pesquisa em ativos digitais do banco, projeta que o protocolo Aave recuperará sua posição dominante em empréstimos descentralizados conforme o mercado DeFi se expanda. Kendrick estima que os ativos no setor cresçam cerca de 37 vezes até 2030, com o AAVE atingindo US$ 180 até o fim deste ano e escalando para US$ 600, US$ 1.200 e US$ 2.200 nos três anos seguintes.

Mas a tese exige ceticismo. O máximo histórico do AAVE é US$ 661, atingido em 2021. A meta de 2030 exigiria que o token supere esse nível em cinco vezes. A Aave sofreu um golpe recente quando um exploit de US$ 291 milhões na plataforma KelpDAO transbordou para o protocolo, provocando uma crise de liquidez que reduziu os depósitos de US$ 44 bilhões para cerca de US$ 23 bilhões e derrubou a participação da Aave no mercado de empréstimos DeFi de 59% para 38%. Como discutimos na editoria de finanças, projeções de longo prazo em DeFi dependem de variáveis que ainda não se materializaram.

O que está em jogo até o fim da semana

O yield do Treasury de dois anos está prestes a romper uma linha de tendência descendente que limita sua trajetória desde o pico de 5,26% em outubro de 2023. Esse título é altamente sensível às expectativas de juros de curto prazo. Um rompimento para cima sinalizaria condições financeiras mais apertadas, fortaleceria o dólar e pressionaria ativos de risco como Bitcoin e ações.

O vencimento de opções de fim de trimestre em 30 de junho continua sendo o principal risco da semana. O suporte de US$ 59 mil segurou, mas a concentração de posições alavancadas logo abaixo de US$ 58 mil torna esse nível uma zona de perigo real. Enquanto isso, os volumes combinados nas exchanges caíram 3,45% em maio, para US$ 4,41 trilhões, o menor patamar desde setembro de 2024. Na contramão, futuros perpétuos de ativos do mundo real (RWA) subiram 10,4%, batendo nova máxima histórica.

Para o investidor, o cenário exige cautela. O Bitcoin está preso entre forças macro desfavoráveis no curto prazo e sinais estruturais positivos, como a narrativa de IA e a queda do petróleo, que operam em horizontes mais longos. A resposta sobre qual prevalece pode vir já nos próximos dias.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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