Criptomoedas

Bitcoin acima de US$ 63 mil: o que sustenta a reversão do rali

Bitcoin recuperou todas as perdas de junho em cinco sessões. Dados macro, squeeze de vendidos e posicionamento extremo em altcoins explicam o movimento.

Bitcoin acima de US$ 63 mil: o que sustenta a reversão do rali
Foto: DS stories / Unsplash

O Bitcoin ultrapassou os US$ 63 mil no fim de semana, acumulando alta de 3,6% na semana e atingindo o maior patamar em duas semanas. O movimento representa uma reversão completa das perdas registradas no fechamento de junho, quando o ativo havia recuado para mínimas de 21 meses ao iniciar o terceiro trimestre.

Mais do que o número em si, o que chama atenção é a velocidade da recuperação. Em apenas cinco sessões, o Bitcoin saiu de abaixo dos US$ 60 mil para acima dos US$ 63 mil. E o contexto por trás dessa movimentação envolve uma combinação de fatores macroeconômicos, técnicos e de posicionamento que vale destrinchar.

O que mudou no cenário macro para o Bitcoin

A semana foi marcada por sinais mais favoráveis vindos dos Estados Unidos. O presidente do Fed, Kevin Warsh, declarou que os riscos inflacionários diminuíram, um tipo de sinalização que o mercado interpreta como abertura para uma postura monetária menos restritiva adiante. Somou-se a isso um relatório de empregos de junho abaixo do esperado, reforçando a leitura de desaceleração econômica controlada.

Essa combinação é combustível clássico para ativos de risco. Com a percepção de que o Fed pode ter menos motivos para manter os juros elevados por mais tempo, o apetite por criptomoedas e outros ativos especulativos voltou. Como já analisamos em matérias sobre o impacto da política monetária no mercado cripto, movimentos do Fed costumam ter efeito amplificado sobre o Bitcoin.

Vale lembrar que o dado de inflação dos EUA, esperado para os próximos dias, será o próximo teste real para essa narrativa. Se o índice de preços ao consumidor vier acima do esperado, o otimismo pode se dissipar com a mesma velocidade com que surgiu.

Squeeze de vendidos acelerou a alta do Bitcoin

Parte relevante da alta veio de um mecanismo técnico: o squeeze de posições vendidas. Quando o preço do Bitcoin começou a subir, traders que apostavam na queda foram forçados a recomprar suas posições, alimentando ainda mais a pressão compradora. Esse efeito cascata ajuda a explicar por que o ativo percorreu mais de US$ 3 mil em tão poucas sessões.

O fenômeno é recorrente em momentos de transição de sentimento. Após semanas de pessimismo, o posicionamento do mercado estava carregado para o lado vendido, o que criou as condições perfeitas para um short squeeze. É o tipo de dinâmica que investidores experientes em derivativos monitoram de perto.

Outro ponto: a negociação no fim de semana aconteceu com liquidez reduzida, já que os mercados americanos estavam fechados pelo feriado de 4 de julho. Esse tipo de ambiente tende a exagerar movimentos em ambas as direções, algo que exige cautela na interpretação da magnitude da alta.

XRP lidera altas entre as principais criptos

Entre as altcoins, o destaque ficou por conta do XRP, que subiu 5,3% no dia e quase 10% na semana, alcançando US$ 1,18. Com isso, o token ultrapassou a stablecoin USDC e assumiu a quinta posição por valor de mercado, com cerca de US$ 73 bilhões em capitalização.

O dado mais curioso, porém, é que essa alta aconteceu em meio a dados on-chain mostrando que os detentores de XRP estão no maior prejuízo médio já registrado. É um cenário de “posicionamento lavado”, como dizem traders. Quando praticamente todos os que poderiam vender já venderam, o ativo fica vulnerável a altas rápidas, porque a pressão vendedora se esgotou.

Esse tipo de leitura contrária não garante continuidade da alta, mas sinaliza que o pior do ciclo de venda pode ter ficado para trás. É uma dinâmica semelhante à que já documentamos em análises anteriores sobre ciclos de capitulação em criptoativos.

Ethereum e Solana também surfaram a onda

O Ethereum subiu 3,2% no dia, alcançando cerca de US$ 1.793, com ganho semanal de 11,5%. Já a Solana manteve-se próxima dos US$ 82,50, acumulando impressionantes 13,2% de alta em sete dias. O Dogecoin avançou 2,6%.

A amplitude da alta, que abrangeu tanto ativos de grande capitalização quanto tokens menores, sugere que o movimento foi impulsionado por fluxo generalizado de capital para o setor, e não por fatores específicos de um único projeto. Quando o Bitcoin sobe em contexto macro favorável, tende a arrastar todo o mercado, e as altcoins costumam amplificar o movimento em termos percentuais.

O que observar nos próximos dias

Dois fatores vão determinar se esse rali tem fôlego ou se foi apenas um repique técnico amplificado pela baixa liquidez do feriado americano.

O primeiro é o dado de inflação dos EUA, que sai nos próximos dias. Um número acima do esperado recolocaria o Fed em modo hawkish e poderia reverter rapidamente o otimismo. O segundo é o comportamento do fluxo comprador quando as mesas de operação americanas voltarem ao normal após o feriado. Se o volume confirmar a direção, o movimento ganha credibilidade. Se não, foi apenas ruído de liquidez fina.

O Bitcoin saiu do terceiro trimestre em mínimas de 21 meses e recuperou tudo em uma semana. Velocidade assim é animadora para quem está comprado, mas também é um lembrete de que, neste mercado, a volatilidade funciona nas duas direções. O investidor atento separa o sinal do ruído, e neste momento, o sinal está no dado de inflação que vem por aí.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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