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Baterias já são mais baratas que turbinas a gás de data centers

Relatório da Wood Mackenzie mostra que baterias de 4 horas custam menos que turbinas a gás em todos os 43 mercados analisados. A tendência deve se acelerar.

Baterias já são mais baratas que turbinas a gás de data centers
Foto: Hilary Halliwell / Unsplash

Existe um consenso quase universal de que a inteligência artificial vai consumir quantidades absurdas de energia nos próximos anos. O debate, até agora, girava em torno de qual fonte supriria essa demanda. Um novo relatório da consultoria Wood Mackenzie traz uma resposta que pode surpreender: baterias de armazenamento já são mais baratas que as turbinas a gás usadas por boa parte dos data centers no mundo.

A conclusão vale para todos os continentes e cada um dos 43 mercados analisados pela consultoria. Baterias com duração de quatro horas custam menos que turbinas de ciclo aberto a gás natural. E a tendência é de divergência crescente: o custo da eletricidade armazenada em baterias deve continuar caindo, enquanto o da geração a gás tende a encarecer nas próximas décadas.

Por que as turbinas a gás ficaram tão caras

A explicação passa diretamente pela corrida da IA. Desenvolvedores de data centers voltados para inteligência artificial têm comprado qualquer modelo de turbina disponível no mercado, pressionando preços para cima. O efeito é mais agudo nas turbinas de ciclo aberto, que são mais simples de fabricar, porém menos eficientes e mais caras de operar.

Essas turbinas costumam ser usadas por concessionárias como plantas de pico, acionadas em momentos de alta demanda. Quando o preço desses equipamentos sobe, o custo repassa para toda a cadeia elétrica. Mesmo sendo mais simples, turbinas de ciclo aberto agora levam de dois a quatro anos para serem entregues. As de ciclo fechado, mais eficientes, têm filas que se estendem até o início da década de 2030.

O resultado: os preços de novas usinas a gás natural dispararam em praticamente todas as categorias. Como mostramos em nossa cobertura sobre infraestrutura tecnológica, a demanda por energia dos data centers já pressiona tarifas elétricas nos Estados Unidos e em outros mercados.

Solar é a energia nova mais barata do mundo

O relatório da Wood Mackenzie traz outro dado relevante: a energia solar já é a forma mais barata de nova geração em todos os mercados analisados. Inclusive na América do Norte, apesar das tarifas de importação e restrições comerciais que pressionam o setor.

Nos Estados Unidos, projetos solares em escala de concessionária (utility-scale) estão relativamente protegidos no curto prazo. Cerca de 168 gigawatts em capacidade se beneficiam de cláusulas de proteção (safe-harbor provisions) que mantêm créditos fiscais para projetos já iniciados ou concluídos antes do fim de 2027.

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Na prática, isso significa que boa parte da expansão solar americana já contratada não será afetada pelas oscilações regulatórias atuais. Quem acompanha o impacto de políticas energéticas nos mercados financeiros sabe que essa previsibilidade regulatória é decisiva para a alocação de capital em infraestrutura.

O mapa global da transição energética em data centers

Os números regionais reforçam a tese de que a transição é estrutural, não conjuntural. No Oriente Médio e na África, baterias de quatro horas devem ser 33% mais baratas que turbinas de pico a gás até 2035, deslocando a geração a gás por questões puramente econômicas em cada mercado da região.

Na China, os custos de armazenamento de energia são 55% inferiores aos dos países vizinhos. Isso dá à indústria chinesa uma vantagem competitiva significativa na corrida pela infraestrutura de IA, um ponto que frequentemente escapa ao debate focado apenas em chips e modelos de linguagem.

“Essa mudança econômica é decisiva e está se ampliando”, afirmou Ahmed Jameel Abdullah, analista principal da Wood Mackenzie, no comunicado que acompanha o relatório.

O que isso significa para a infraestrutura de IA

A consequência prática é profunda. Até agora, grande parte dos projetos de data centers para IA vinham sendo planejados com geração a gás como pilar energético. Empresas como Microsoft, Google e Amazon fecharam contratos bilionários envolvendo usinas nucleares e a gás para garantir fornecimento estável.

Com baterias mais baratas e tempos de entrega menores que os das turbinas, a equação muda. Baterias de quatro horas não substituem geração de base, é verdade. Elas são ideais para cobrir picos de demanda, exatamente o papel que as turbinas de ciclo aberto desempenham. Nessa função específica, a competição já está decidida em termos de custo.

Para investidores que acompanham o setor de tecnologia e infraestrutura digital, o sinal é claro: os próximos data centers provavelmente terão mais baterias e painéis solares do que turbinas a gás. Isso altera a dinâmica de investimento em toda a cadeia, dos fabricantes de células de lítio às concessionárias de energia.

O gás natural perde espaço, mas não desaparece

É importante contextualizar. O relatório da Wood Mackenzie não decreta o fim do gás natural na geração elétrica. Turbinas de ciclo fechado, mais eficientes e capazes de operar como geração de base, seguem relevantes. O que muda é a lógica das plantas de pico: onde antes se instalava uma turbina simples para cobrir momentos de alta demanda, agora faz mais sentido econômico instalar baterias.

No mercado americano, a demanda por gás natural deve se estreitar na próxima década, segundo a consultoria. Não por regulação ambiental, mas por economia pura. Quando a alternativa limpa é também a mais barata, a transição deixa de depender de subsídios ou vontade política.

O dado mais revelador do relatório talvez seja esse: a virada não é projetada para o futuro. Ela já aconteceu. Em todos os 43 mercados analisados, sem exceção, armazenar energia em baterias custa menos que gerar com turbinas a gás de ciclo aberto. A pergunta agora é a velocidade com que o mercado de data centers vai absorver essa realidade.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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