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BASF prepara IPO bilionário da divisão agrícola em 2027

A gigante química alemã BASF avança com plano de listar sua divisão de Soluções Agrícolas na Bolsa de Frankfurt, com quatro bancos globais coordenando a operação.

BASF prepara IPO bilionário da divisão agrícola em 2027
Foto: Gustavo Fring / Unsplash

Por que a BASF quer separar o agro do resto da empresa

A BASF, maior empresa química do mundo por receita, acaba de dar o passo mais concreto rumo ao desmembramento de sua divisão de Soluções Agrícolas. A companhia alemã contratou Citi, Deutsche Bank, Goldman Sachs e JP Morgan como coordenadores globais de um IPO previsto para meados de 2027, na Bolsa de Frankfurt.

A lógica por trás da decisão é conhecida no mercado de capitais: conglomerados com divisões muito distintas costumam negociar com desconto. Investidores têm dificuldade para precificar negócios que vão da petroquímica à agricultura digital dentro de um mesmo balanço. A separação permite que cada unidade seja avaliada de forma independente, atraindo bases de investidores diferentes e, em tese, destravando valor.

A divisão agrícola da BASF opera com defensivos, sementes, tecnologias digitais para o campo e produtos de manejo de lavouras. É um negócio que, por si só, compete com players como Bayer (que adquiriu a Monsanto), Corteva e Syngenta. Listar essa operação separadamente coloca mais um nome de peso no radar dos investidores que buscam exposição ao agronegócio global.

A operação já está 80% separada

Um dado relevante: cerca de 80% das operações globais da divisão agrícola já foram transferidas para entidades jurídicas independentes. Essas unidades já operam com sistema de gestão empresarial (ERP) próprio, o que indica que a separação não é apenas um plano no PowerPoint. A infraestrutura operacional e jurídica está sendo construída de fato.

A nova empresa será listada como Sociedade Europeia (SE), um formato jurídico supranacional que facilita operações em múltiplos países do bloco. Livio Tedeschi foi designado como presidente da futura companhia, com Sascha Bibert como diretor financeiro.

A BASF planeja apresentar mais detalhes sobre a estratégia da unidade durante seu Dia do Mercado de Capitais, marcado para 24 de novembro de 2026. Será a primeira oportunidade do mercado de analisar projeções financeiras e métricas operacionais da divisão como entidade autônoma. Ainda assim, a empresa deixou claro que o cronograma definitivo depende das condições de mercado, uma ressalva padrão que, neste caso, faz sentido dado o horizonte de mais de um ano até a listagem.

O que isso sinaliza para o mercado global de IPOs

O movimento da BASF não acontece no vazio. O mercado global de IPOs passou por uma seca severa entre 2022 e o início de 2024, com juros altos e volatilidade afastando emissores das bolsas. A retomada tem sido gradual, e operações de grande porte como essa funcionam como termômetro de confiança.

Contratar quatro dos maiores bancos de investimento do mundo para coordenar a oferta indica ambição. Não se trata de um IPO tímido. A divisão agrícola da BASF gerou receitas na casa dos 10 bilhões de euros em anos recentes, o que coloca uma eventual avaliação na faixa de dezenas de bilhões, dependendo dos múltiplos aplicados. Para efeito de comparação, a Corteva, que opera no mesmo segmento, tem valor de mercado próximo de 40 bilhões de dólares.

Como analisamos em matérias recentes sobre tendências no mercado financeiro global, o pipeline de IPOs para 2026 e 2027 vem ganhando corpo, especialmente na Europa, onde empresas buscam alternativas à concentração de liquidez nas bolsas americanas.

O agro como tese de investimento estrutural

O agronegócio tem se consolidado como uma das teses de investimento mais resilientes da última década. A demanda por alimentos cresce com a população mundial, enquanto a área cultivável expande pouco. Isso cria uma equação que favorece empresas de insumos e tecnologia agrícola, que vendem as “picaretas” dessa corrida do ouro.

A BASF atua justamente nessa camada. Sua divisão agrícola fornece desde sementes geneticamente otimizadas até plataformas digitais de monitoramento de lavouras. É um modelo de negócio que combina escala industrial com margens de tecnologia, algo que investidores costumam premiar.

No Brasil, o tema é especialmente relevante. O país é o maior mercado de defensivos agrícolas do mundo e um dos principais destinos de vendas da própria BASF. Uma listagem independente dessa divisão pode, inclusive, abrir caminho para uma eventual listagem secundária em São Paulo no futuro, embora nada tenha sido anunciado nesse sentido.

Quem acompanha o mercado de capitais brasileiro sabe que o agro também tem protagonismo local. Empresas como SLC Agrícola, 3tentos e Boa Safra abriram capital nos últimos anos, e a fila de IPOs no Brasil pode ganhar novo impulso com a sinalização de juros menores no horizonte.

O que observar até 2027

Três fatores vão determinar o sucesso dessa operação. Primeiro, as condições macroeconômicas globais: se os juros nos Estados Unidos e na Europa continuarem em trajetória de queda, o apetite por risco em renda variável tende a aumentar, favorecendo IPOs de grande porte.

Segundo, os resultados operacionais da própria divisão. O Dia do Mercado de Capitais em novembro de 2026 será crucial para estabelecer a narrativa financeira da nova empresa. Margens, crescimento de receita e projeções de fluxo de caixa vão definir a faixa de preço da oferta.

Terceiro, o cenário competitivo. A Bayer, principal rival no segmento, segue lidando com os passivos bilionários herdados da aquisição da Monsanto. Se a BASF conseguir posicionar sua divisão como uma alternativa “limpa” de riscos legais, pode capturar um prêmio de valuation relevante.

Para o investidor brasileiro que busca diversificação internacional, este é um IPO que vale acompanhar. Não como recomendação de compra, mas como indicador da direção que o capital global está tomando: mais agro, mais tecnologia aplicada ao campo e mais desmembramentos de conglomerados em busca de eficiência de valuation.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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