Bancos cortam crédito para baixa renda: o que muda para o consumidor
Itaú, Bradesco, Santander e BB migram para crédito com garantia e clientes de alta renda. Comprometimento recorde de 50% da renda familiar acende alerta.
Os quatro maiores bancos privados e públicos do Brasil emitiram, quase em coro, o mesmo recado ao mercado durante a temporada de balanços do segundo trimestre: a torneira do crédito fácil está fechando para quem ganha menos. A migração acelerada para operações com garantia e clientes de renda mais alta revela que as instituições financeiras já precificam uma desaceleração que os indicadores macroeconômicos ainda não confirmaram por completo.
O movimento é significativo porque atinge a espinha dorsal da força de trabalho brasileira. Cerca de 70% dos ocupados no país recebem até dois salários mínimos, exatamente a faixa que os grandes bancos passaram a evitar. Quem depende de cartão de crédito e empréstimo pessoal sem garantia vai sentir o aperto primeiro.
Por que os bancos estão recuando agora
O pano de fundo é um dado que deveria incomodar mais do que incomoda: o comprometimento de renda das famílias brasileiras ronda a marca de 50% da renda disponível. Isso significa que, de cada dois reais que entram no bolso do trabalhador, um já está comprometido com pagamento de dívidas. Esse patamar é historicamente elevado e se aproxima dos recordes da série.
O que torna esse ciclo particularmente preocupante é o contexto em que ele ocorre. A deterioração financeira das famílias avançou mesmo com desemprego em níveis baixos e renda real em alta. Em ciclos anteriores, como o observado entre 2011 e 2015, o aumento do endividamento coincidiu com fragilidades mais evidentes no mercado de trabalho. Desta vez, a alavancagem subiu antes que o emprego desse sinais claros de fraqueza, como já analisamos em outras coberturas sobre o cenário macroeconômico brasileiro.
Katherine Hennings, analista da consultoria BRCG, atribui o fenômeno a uma combinação de fatores. Do lado estrutural, a expansão das fintechs, mudanças regulatórias e a digitalização dos meios de pagamento incluíram milhões de consumidores antes desbancarizados no sistema de crédito. Do lado conjuntural, políticas públicas voltadas a estimular consumo e crédito elevaram a alavancagem, muitas vezes por meio de modalidades caras e sem garantia.
O que cada banco disse sobre a estratégia
Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú, foi direto: o volume de crédito distribuído no mercado ultrapassou a capacidade de absorção dos tomadores. Segundo ele, o cenário piorou na margem, o que levou o banco a priorizar operações garantidas. É uma fala relevante vindo do maior banco privado da América Latina, que costuma calibrar o tom com precisão cirúrgica.
O Bradesco seguiu na mesma direção. Marcelo Noronha, presidente da instituição, reconheceu que o apetite para clientes de menor renda é “muito menor do que já foi no passado”. A carteira do banco, segundo ele, está hoje significativamente mais respaldada por garantias. Para quem acompanha a trajetória recente do setor bancário brasileiro, a mudança de postura do Bradesco é emblemática: o banco historicamente competiu agressivamente no varejo de massa.
O Santander Brasil foi ainda mais específico. O diretor financeiro Carlos Muñiz traçou uma linha clara em R$ 4 mil de renda mensal, o equivalente a cerca de 2,5 vezes o salário mínimo. Abaixo desse patamar, o banco simplesmente não pretende competir. Acima, só com algum tipo de garantia. A declaração é um retrato fiel do momento: os bancos não querem mais emprestar a quem mais precisa.
No Banco do Brasil, a estratégia de crescimento foi redirecionada para o consignado público e privado, modalidades que oferecem desconto em folha e, portanto, menor risco de inadimplência. A presidente Tarciana Medeiros estabeleceu como meta aumentar em 25% o número de clientes de “alto valor” até 2030.
O alerta da inadimplência no Nubank
O Nubank, cuja carteira é concentrada justamente nas modalidades que os bancões estão abandonando, oferece uma janela para observar o que acontece quando o crédito sem garantia encontra um consumidor sobrecarregado. Os empréstimos com atraso superior a 90 dias subiram para 6,9% no segundo trimestre, ante 6,5% no trimestre anterior e no mesmo período do ano passado.
A administração do banco digital sustentou que não enxerga deterioração disseminada e apresentou lucro acima das expectativas, impulsionado por maiores receitas e melhora da margem ajustada ao risco. Mas a tendência de alta na inadimplência é um sinal que merece atenção, especialmente se a economia desacelerar como projetam os executivos do Banco do Brasil, que estimam crescimento de apenas 1% do PIB em 2027, abaixo da mediana de 1,5% do boletim Focus do Banco Central.
O que isso significa para o consumidor e para o mercado
Para o consumidor de baixa renda, o efeito prático é uma redução na oferta de crédito bancário tradicional, justamente quando o endividamento já está elevado. As alternativas que restam tendem a ser mais caras: fintechs menores, cooperativas ou o mercado informal. Isso pode criar um ciclo vicioso em que a falta de opções baratas agrava o comprometimento de renda.
Para o mercado financeiro, a cautela dos bancos é, paradoxalmente, uma boa notícia no curto prazo. Menos crédito arriscado na carteira significa provisões mais controladas e resultados mais previsíveis. Mas há um efeito colateral macroeconômico: se os bancos cortam crédito ao consumo, a desaceleração econômica tende a se aprofundar, validando exatamente o cenário pessimista que motivou a cautela.
Historicamente, períodos de forte expansão do crédito seguidos por aperto nas concessões resultaram em desacelerações mais profundas do consumo no Brasil. O ciclo 2011-2015 é o exemplo mais recente e mais doloroso. A diferença agora é que o ponto de partida é pior: o comprometimento de renda já está no limite antes mesmo de a economia frear de fato.
O recado dos bancos é claro. Quem depende de crédito sem garantia vai encontrar portas fechadas nos grandes bancos. E quem investe no setor financeiro precisa entender que essa cautela, embora proteja os balanços no curto prazo, pode antecipar um ciclo de consumo mais fraco do que o mercado precifica hoje.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
