Tecnologia

Apple corta centenas de vagas em Siri e Vision Pro

Apple demitiu mais de 200 funcionários das equipes de Siri, Vision Pro e integração de IA. Movimento revela uma reorganização profunda nas apostas da empresa.

Apple corta centenas de vagas em Siri e Vision Pro
Foto: Zetong Li / Unsplash

A Apple eliminou mais de 200 posições em três frentes que, até pouco tempo, eram consideradas pilares da sua estratégia de inovação: o headset Vision Pro, a assistente virtual Siri e o time de Intelligent Systems Experience, responsável pela integração de inteligência artificial nos dispositivos da marca. O movimento não é cosmético. É uma confissão corporativa de que as prioridades mudaram.

A empresa confirmou os cortes, afirmando que busca “evoluir o negócio para entregar as melhores experiências aos usuários”. Na mesma declaração, sinalizou que novas posições serão criadas como parte da mudança. A frase é protocolar, mas o subtexto é claro: recursos estão sendo redistribuídos para iniciativas de IA mais recentes, e os projetos que não entregaram resultados à altura das expectativas perderam fôlego interno.

O Vision Pro perdeu o brilho antes de decolar

Cerca de 100 das demissões atingiram diretamente a equipe do Vision Pro, o headset de realidade mista lançado com enorme alarde no início de 2024. O dispositivo de US$ 3.499 nunca encontrou seu público. As vendas ficaram muito abaixo das projeções internas, e desenvolvedores externos mostraram pouco entusiasmo em criar aplicativos exclusivos para a plataforma.

O corte de metade das vagas eliminadas vindo de um único time é um sinal difícil de ignorar. Não significa necessariamente que a Apple abandonará o segmento de realidade mista. Mas indica que a escala do investimento será drasticamente reduzida. A aposta, que já era considerada de longo prazo, agora parece ainda mais distante de gerar retorno.

Para quem acompanha o setor de hardware, o caso do Vision Pro reforça uma tendência que discutimos ao analisar os desafios das big techs em novos dispositivos: lançar hardware caro em categorias não consolidadas é uma jogada de altíssimo risco, mesmo para a empresa mais valiosa do mundo.

Siri ficou para trás na corrida da IA generativa

As outras cem demissões se dividiram entre a equipe da Siri e o grupo de Intelligent Systems Experience. A Siri, lançada em 2011, foi pioneira entre assistentes virtuais, mas perdeu relevância frente ao avanço do ChatGPT, do Google Gemini e do Claude. A percepção entre usuários e analistas é que a assistente da Apple estagnou enquanto o mercado acelerou.

A Apple tentou reagir integrando recursos de IA generativa ao ecossistema sob a marca “Apple Intelligence”. Os resultados iniciais, porém, foram considerados tímidos. Funcionalidades como resumo de notificações e reescrita de texto não geraram o mesmo impacto que as ferramentas de concorrentes. A empresa, inclusive, mantém uma disputa judicial aberta contra a OpenAI, acusando a criadora do ChatGPT de roubo de segredos comerciais.

A reestruturação sugere que a Apple quer recomeçar parte do trabalho de IA com times novos e mandatos diferentes. É uma admissão implícita de que a estrutura anterior não estava entregando na velocidade exigida pelo mercado. Como exploramos na nossa cobertura sobre inteligência artificial, empresas que chegam atrasadas à corrida da IA generativa enfrentam um desafio duplo: precisam inovar rápido sem canibalizar produtos existentes.

Custos em alta pressionam a reorganização

O contexto financeiro também pesa. A Apple enfrenta um período de transição marcado pela alta nos custos de produção. A escassez global de memória, agravada pela demanda explosiva de chips para treinamento de modelos de IA, encareceu componentes essenciais para Macs, iPads e iPhones.

A resposta da empresa veio em duas frentes. Primeiro, aumentou os preços de Macs e iPads neste ano. Depois, lançou um programa de leasing para todos os seus principais produtos de hardware, tentando ampliar a base de clientes que não consegue arcar com o custo integral dos dispositivos. É uma estratégia incomum para uma empresa que sempre priorizou margens altas sobre volume.

Esse cenário de pressão de custos torna ainda mais urgente a decisão de onde alocar capital humano. Manter centenas de engenheiros em projetos sem retorno claro é um luxo que nem a Apple quer se dar neste momento. A lógica é simples: cada dólar investido no Vision Pro ou na Siri legada é um dólar que não vai para os novos projetos de IA que o mercado está cobrando.

O que isso significa para o ecossistema Apple

Para usuários e investidores, o recado é que a Apple está disposta a sacrificar projetos emblemáticos para proteger sua competitividade em IA. O Vision Pro pode continuar existindo como produto de nicho, mas dificilmente receberá o mesmo nível de investimento dos últimos anos. A Siri, por sua vez, provavelmente será reformulada sob uma nova arquitetura, possivelmente incorporando modelos de linguagem mais avançados.

Para o mercado de trabalho em tecnologia, os cortes na Apple se somam a uma onda mais ampla de reestruturações nas big techs. Empresas como Google, Meta e Microsoft também reorganizaram times nos últimos meses para concentrar recursos em IA. O padrão é consistente: projetos de hardware experimental e assistentes legados perdem espaço para equipes focadas em modelos generativos e infraestrutura de IA.

Vale lembrar que a Apple ainda detém vantagens competitivas importantes. Seu ecossistema integrado de hardware, software e serviços continua sendo o mais coeso do mercado. A questão é se a empresa conseguirá traduzir essa vantagem em produtos de IA que rivalizem com os da concorrência. Como analisamos em matérias anteriores sobre o setor de tecnologia, a execução importa mais do que a estratégia quando o mercado se move nessa velocidade.

Os próximos trimestres dirão se a reorganização foi cirúrgica o suficiente para reposicionar a Apple na corrida da IA, ou se chegou tarde demais para recuperar o terreno perdido.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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