AMD contra Nvidia: a briga pelos chips de IA esquenta
AMD apresenta racks Helios e fecha contrato de US$ 5 bi com a Anthropic. A ofensiva mira o mercado de inferência, onde a Nvidia ainda domina com folga.
AMD parte para o ataque no mercado de chips para IA
A Advanced Micro Devices decidiu que não vai mais assistir a Nvidia dominar sozinha o mercado de chips para inteligência artificial. Em um evento realizado em São Francisco, a companhia apresentou sua primeira geração de racks de servidores para data centers, batizados de Helios, além de formalizar o lançamento da CPU Venice, voltada para infraestrutura de centros de dados.
O movimento não é simbólico. É uma declaração de guerra em um mercado que movimenta centenas de bilhões de dólares por ano e cresce a taxas que poucos setores da economia global conseguem acompanhar. A Nvidia controla cerca de 80% do mercado de GPUs para data centers, segundo estimativas de analistas de Wall Street. Para a AMD, cada ponto percentual conquistado representa receita bilionária.
O foco da ofensiva está na chamada computação de inferência, o processamento que acontece toda vez que um usuário faz uma pergunta ao ChatGPT, ao Claude ou a qualquer outro modelo de linguagem. Diferente do treinamento, que exige poder bruto de processamento em larga escala, a inferência demanda eficiência energética e capacidade de processar milhões de consultas simultâneas com baixa latência. É nesse terreno que a AMD enxerga espaço para crescer.
Acordo com a Anthropic muda o patamar da disputa
Além do hardware, a AMD anunciou um acordo que redefine sua posição no ecossistema de IA. A empresa planeja vender até dois gigawatts de seus chips Instinct MI450 para a Anthropic, desenvolvedora do assistente Claude, a partir do primeiro semestre de 2027. O contrato inclui um investimento de até US$ 5 bilhões na startup de IA.
O valor impressiona, mas não é inédito nessa corrida. Em outubro do ano passado, a AMD fechou um acordo plurianual com a OpenAI que previa dezenas de bilhões de dólares em receita anual. Naquele contrato, a criadora do ChatGPT garantiu a opção de adquirir até cerca de 10% da fabricante de chips. Dois acordos dessa magnitude com as duas maiores empresas de IA generativa do mundo sinalizam que a AMD deixou de ser apenas uma alternativa barata à Nvidia. Como explicamos em nossa cobertura sobre o setor de tecnologia, a corrida por chips está remodelando toda a cadeia global de valor.
Para a Anthropic, diversificar fornecedores de hardware faz sentido estratégico. Depender exclusivamente da Nvidia cria um gargalo de negociação e de supply chain. A mesma lógica motivou a OpenAI a buscar a AMD. Quando o fornecedor é monopolista, o cliente paga o preço que ele quiser.
Nvidia não está parada: CPU Vera e GPU Rubin elevam a régua
Seria ingênuo imaginar que a Nvidia assistiria à ofensiva sem reagir. Na mesma semana, a empresa de Jensen Huang divulgou detalhes técnicos da CPU Vera, projetada para trabalhar em conjunto com a GPU de próxima geração Rubin. O argumento central é eficiência: a combinação Vera + Rubin seria a mais eficiente do mercado em maximizar a quantidade de trabalho que agentes de IA conseguem realizar por watt de eletricidade consumido.
Esse ponto é crucial. O custo energético dos data centers se tornou um dos maiores desafios da expansão da IA. Segundo a Agência Internacional de Energia, os data centers devem consumir mais que o dobro de eletricidade até 2030 em comparação com os níveis atuais. Quem entregar mais desempenho por watt ganha a preferência dos operadores de nuvem, que pagam contas de luz na casa das centenas de milhões de dólares por ano. Essa pressão por eficiência energética é um tema que acompanhamos de perto nas análises sobre infraestrutura de IA.
A Nvidia também prepara a segunda geração de seus racks de servidores, o que coloca os Helios da AMD já em desvantagem geracional antes mesmo de ganhar escala. A pergunta que os investidores fazem é se a AMD conseguirá conquistar volume suficiente antes que a Nvidia atualize seu portfólio.
O que está em jogo para o investidor
A disputa entre AMD e Nvidia transcende a rivalidade entre duas empresas. Ela define quem captura a maior fatia de um mercado que bancos como Goldman Sachs e Morgan Stanley projetam em mais de US$ 1 trilhão em investimentos acumulados até o final da década. Como analisamos no contexto das grandes movimentações do mercado financeiro, o setor de semicondutores virou o novo petróleo da economia global.
Para a AMD, os números ainda são modestos frente à Nvidia. No último trimestre reportado, a divisão de data centers da AMD gerou cerca de US$ 2,6 bilhões em receita. A Nvidia, no mesmo período, superou US$ 26 bilhões apenas nessa vertical. A diferença é de dez vezes.
Mas a estratégia da AMD não é vencer a Nvidia em participação total. É conquistar o segundo lugar com margem suficiente para justificar valuations elevados e atrair os clientes que querem diversificar fornecedores. No mercado de chips para IA, ser o segundo player relevante já é um negócio de dezenas de bilhões de dólares por ano.
Os acordos com Anthropic e OpenAI sugerem que a AMD está no caminho certo. O ecossistema de software ainda é um desafio, já que o CUDA da Nvidia é praticamente um padrão da indústria. Mas a pressão dos grandes compradores por alternativas pode acelerar a adoção do ROCm, a plataforma de software aberto da AMD.
A corrida está longe de ter um vencedor definido. Mas uma coisa é certa: o mercado de chips para IA deixou de ser um monopólio para se tornar um duopólio em formação. E duopólios, historicamente, são bons para quem compra.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.