Advent capta US$ 27 bi e mira até US$ 6 bi em emergentes
Gestora americana fechou seu maior fundo da história e criou veículo de US$ 3 bi para middle market. Brasil segue no radar com pipeline robusto.
A Advent International acaba de encerrar a captação do maior fundo de sua história: US$ 27 bilhões destinados a investimentos globais em private equity. Ao mesmo tempo, a gestora americana levantou outros US$ 3 bilhões para uma estratégia inédita focada no middle market. São US$ 30 bilhões em capital novo entrando numa das maiores máquinas de buyout do mundo, num momento em que o mercado de private equity global enfrenta um de seus ciclos mais desafiadores.
O número impressiona não apenas pelo tamanho absoluto, mas pelo contexto. Gestoras do mundo inteiro têm encontrado dificuldade para captar recursos nos últimos dois anos, com investidores institucionais mais cautelosos diante de juros elevados nos Estados Unidos e na Europa. A Advent, com cerca de US$ 109 bilhões em ativos sob gestão, parece ter navegado essa maré contrária melhor do que a maioria.
O que a captação recorde da Advent diz sobre o private equity global
O fundo anterior da Advent, captado em 2022, havia levantado US$ 25 bilhões. O salto de 8% no tamanho do novo veículo pode parecer modesto em termos percentuais, mas é significativo quando se considera o ambiente macroeconômico. As taxas de juros nos Estados Unidos permanecem em patamares restritivos, e os valuations de empresas em diversos setores seguem esticados, o que dificulta tanto a entrada em novos negócios quanto a saída de posições existentes.
Ainda assim, a Advent conseguiu fechar o fundo com demanda sólida de investidores institucionais. Isso reflete uma tendência que tem se consolidado no mercado: a concentração de capital nas mãos de gestoras maiores e com histórico comprovado. Como temos acompanhado na cobertura de finanças do portal, fundos menores e gestoras de primeira viagem enfrentam um cenário de captação significativamente mais difícil, enquanto os grandes players continuam atraindo cheques bilionários.
Os mercados prioritários do novo fundo são Estados Unidos e Europa, mas há uma cláusula relevante para quem acompanha mercados emergentes: até US$ 6 bilhões podem ser direcionados para economias em desenvolvimento, co-investindo ao lado dos fundos locais da gestora.
Por que o Brasil permanece no radar do private equity internacional
A América Latina, e o Brasil em particular, segue como território de interesse para a Advent. Juan Pablo Zucchini, responsável pela operação de private equity da gestora na região, descreveu o pipeline brasileiro como “robusto apesar do macro”, uma frase que resume bem a relação ambígua que investidores internacionais mantêm com o país.
A tese da Advent no Brasil se apoia em um argumento estrutural: o país possui um ecossistema vasto de empresas, muitas delas familiares, que precisam de capital e melhorias operacionais para alcançar seu potencial. Os setores de consumo, financeiro, industrial, saúde e tecnologia são os focos prioritários, os mesmos que a gestora prioriza globalmente.
Os números confirmam o compromisso de longo prazo. Desde 1997, a Advent investiu cerca de US$ 6,6 bilhões no Brasil. Entre os movimentos mais recentes estão a aquisição de 8% do capital da Natura neste ano e a participação na rodada série C da SkyOne, empresa de tecnologia, em 2025. A estratégia de private equity da gestora no país combina aportes em companhias listadas e não listadas, sempre com foco em geração de valor operacional.
O novo fundo de middle market e a busca por retornos diferenciados
Além do veículo principal, a criação de um fundo dedicado ao middle market marca uma expansão estratégica relevante. Com US$ 3 bilhões, esse veículo fará aportes entre US$ 100 milhões e US$ 350 milhões em empresas avaliadas em até US$ 1,25 bilhão, concentrados nos Estados Unidos e na Europa.
A lógica é simples: o segmento de empresas médias historicamente oferece múltiplos de entrada mais atrativos e maior potencial de crescimento operacional do que os mega-deals que dominam os maiores fundos de buyout. Com juros mais altos encarecendo a alavancagem, a capacidade de gerar retorno via melhorias operacionais, e não apenas via engenharia financeira, se torna ainda mais importante.
Essa diversificação por tamanho de transação também funciona como hedge. O ambiente de juros elevados tem impactado de formas diferentes os diversos segmentos de private equity, e ter veículos complementares permite à gestora capturar oportunidades em múltiplas faixas do mercado.
US$ 13 bilhões em saídas sinalizam maturação do portfólio
Um dado que passou relativamente despercebido, mas que merece atenção, é o volume de desinvestimentos da Advent neste ano: cerca de US$ 13 bilhões. É um dos maiores períodos de realização de saídas da história da gestora, superando os US$ 10 bilhões investidos no mesmo período em novas empresas e aportes adicionais em companhias já no portfólio.
Esse saldo positivo entre saídas e novos investimentos tem dupla leitura. Por um lado, indica que a Advent encontrou janelas de liquidez para monetizar posições maduras, algo que muitas gestoras têm lutado para fazer no ambiente atual. Por outro, sugere uma postura disciplinada na ponta compradora, evitando pagar caro demais em um mercado onde os valuations não corrigiram tanto quanto se esperava.
Para investidores institucionais brasileiros que alocam em fundos de private equity internacionais, o recado é claro. As maiores gestoras globais continuam captando com facilidade, mas estão sendo seletivas na hora de investir. A capacidade de gerar retorno em um ciclo de juros altos vai separar, cada vez mais, as gestoras que dependem de alavancagem daquelas que realmente transformam operações.
A Advent, com quase três décadas de atuação no Brasil e agora armada com US$ 30 bilhões em capital novo, se posiciona para ser protagonista nesse ambiente. A questão que fica é se o cenário macroeconômico brasileiro vai colaborar o suficiente para que esse capital encontre destino à altura.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
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