Revolut atinge US$ 115 bi e prepara banco nos EUA
Fintech britânica teve salto de 53% na avaliação em um ano, lucra 38% sobre receita de US$ 6 bi e mira expansão bancária nos EUA, Brasil e México.
A Revolut acaba de cravar um novo marco. Uma venda secundária de ações, concluída por investidores como Coatue, T. Rowe Price e Baillie Gifford, avaliou a fintech britânica em US$ 115 bilhões. O número representa um salto de 53% em relação à avaliação obtida em operação semelhante há cerca de um ano.
Nenhum capital novo entrou no caixa da empresa. A transação envolveu apenas troca de participações entre investidores existentes e novos entrantes. A companhia não revelou o volume de ações negociadas. Ainda assim, o patamar de valuation coloca a Revolut acima de instituições financeiras centenárias e consolida sua posição como a fintech privada mais valiosa do mundo.
De app de câmbio a plataforma bancária global
Fundada em 2015 por Nik Storonsky e Vlad Yatsenko, a Revolut nasceu como um aplicativo de transferência de dinheiro. Uma década depois, opera como plataforma completa de serviços financeiros com mais de 80 milhões de clientes em mais de 40 países.
Só neste ano, a empresa lançou operações bancárias no Reino Unido, México, Austrália e Nova Zelândia. Também obteve licenças bancárias na França, Colômbia e Argentina, além de começar a oferecer serviços financeiros na Índia. A velocidade de expansão regulatória é notável para uma empresa que, até pouco tempo atrás, operava majoritariamente com licenças de pagamento, não bancárias.
O próximo alvo é os Estados Unidos. A Revolut recebeu aprovação condicional do Office of the Comptroller of the Currency (OCC) para estabelecer um banco nacional. O plano é inaugurar a operação no primeiro semestre de 2027, sujeito à aprovação regulatória final. É uma aposta ambiciosa. O mercado bancário americano é o mais competitivo do planeta e já conta com neobanks consolidados como Chime e SoFi.
Receita de US$ 6 bi e margem de 38%: os números que sustentam a tese
O que diferencia a Revolut de outras fintechs que queimaram caixa por anos sem encontrar lucratividade é justamente o resultado financeiro. Em 2025, a empresa reportou receita de US$ 6 bilhões com margem de lucro de 38%. São números que muitos bancos tradicionais invejariam.
Parte significativa desse resultado vem de uma vertical que ganhou tração silenciosamente. A divisão de banking para empresas, lançada em 2017, já responde por cerca de 20% do lucro bruto da Revolut. São mais de 800 mil empresas atendidas, com a meta de atingir um milhão até 2027.
Os números da operação corporativa impressionam por si só. A divisão processa mais de US$ 48,6 bilhões em transações por mês, detém US$ 24,3 bilhões em depósitos de clientes e gera receita anualizada superior a US$ 1,28 bilhão. Nos Estados Unidos, o volume mensal de transações corporativas já ultrapassa US$ 1,35 bilhão, e quase metade dos novos clientes empresariais no país são empresas recém-constituídas.
Isso revela algo importante sobre a estratégia. A Revolut não está apenas competindo pelo consumidor final. Está construindo infraestrutura financeira para negócios, algo que gera receita recorrente e relações comerciais mais duradouras. Como analisamos em nossa cobertura sobre o setor financeiro, essa é a mesma estratégia que transformou empresas como Stripe e Adyen em gigantes.
Brasil está no radar da Revolut
Para o mercado brasileiro, há um dado relevante. James Gibson, líder da divisão de negócios da Revolut, confirmou que a empresa planeja levar seus serviços de banking empresarial para Brasil, México e Índia. Não há data definida, mas a menção direta ao país sinaliza que a expansão está em fase de planejamento ativo.
O Brasil já conta com um ecossistema de fintechs maduro. Nubank, Inter e C6 Bank disputam agressivamente o varejo. Mas a entrada da Revolut pelo flanco corporativo pode ser uma jogada inteligente. O mercado de banking para pequenas e médias empresas no Brasil ainda apresenta lacunas significativas, especialmente em câmbio e pagamentos internacionais, áreas onde a fintech britânica tem vantagem competitiva clara.
A questão regulatória, porém, é complexa. Obter licenças bancárias no Brasil exige aprovação do Banco Central, processo que historicamente demanda tempo e capital regulatório. A estratégia mais provável seria iniciar com licença de pagamento e migrar gradualmente para operação bancária completa.
IPO pode vir em 2028 com valuation de US$ 200 bilhões
Com a avaliação em US$ 115 bilhões, o próximo passo natural seria a abertura de capital. Storonsky já sinalizou preferência por uma listagem primária nos Estados Unidos, possivelmente com listagem dual em Nova York e Londres. O IPO, segundo estimativas de mercado, poderia avaliar a Revolut em até US$ 200 bilhões, mas não deve acontecer antes de 2028.
A decisão de esperar faz sentido estratégico. Com o banco americano previsto para o primeiro semestre de 2027, a Revolut quer chegar ao mercado público já com a operação nos EUA rodando e gerando receita. Um IPO nessas condições teria uma narrativa de crescimento muito mais convincente para investidores institucionais.
O cenário lembra o que aconteceu com o Nubank, que abriu capital em Nova York em 2021 com valuation de US$ 41 bilhões. A Revolut, com receita quase quatro vezes maior e presença em mais de 40 países, chegaria ao mercado público em outro patamar.
O que isso significa para o mercado
A trajetória da Revolut ilustra uma tendência que se consolidou nos últimos anos: as fintechs que sobreviveram ao ciclo de aperto monetário e provaram capacidade de gerar lucro estão sendo recompensadas com avaliações recordes. Enquanto muitas startups de tecnologia financeira encolheram ou desapareceram, as que acertaram o modelo de negócio se tornaram candidatas a substituir bancos tradicionais.
Para investidores e empreendedores brasileiros, o caso Revolut serve como termômetro. O apetite global por fintechs lucrativas está de volta, e o Brasil continua sendo um dos mercados mais cobiçados por players internacionais. A chegada de mais um competidor de peso pode pressionar margens dos incumbentes e, ao mesmo tempo, elevar o padrão de serviço para empresas brasileiras que fazem negócios internacionais.
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