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Tecnologia

Veículos autônomos vivem nova onda maior que a de 2016

Fundo de venture capital recebeu pitches de 81 startups de veículos autônomos só em 2026, dois terços a mais que no ano anterior. Modelos de IA explicam o boom.

Veículos autônomos vivem nova onda maior que a de 2016
Foto: Stephen Leonardi / Unsplash

O setor de veículos autônomos passou por um ciclo intenso de expectativa e decepção na última década. Entre 2016 e 2017, dezenas de startups captaram bilhões de dólares com a promessa de colocar carros sem motorista nas ruas. Muitas quebraram, outras foram absorvidas, e o ceticismo tomou conta do mercado. Agora, dados de 2026 mostram que uma segunda onda está em curso, e ela é ainda maior que a primeira.

Um fundo de venture capital especializado em mobilidade e estágio inicial revelou que recebeu pitches de 81 novas startups de veículos autônomos só neste ano. O número representa dois terços a mais do que em 2025 e supera qualquer registro dos anos de euforia da década passada.

O que mudou na tecnologia por trás dos veículos autônomos

A diferença fundamental entre a onda de 2016 e a de 2026 está na arquitetura técnica. Na primeira fase, empresas tentavam construir sistemas de direção autônoma com abordagens modulares: percepção, planejamento e controle funcionavam como blocos separados, cada um exigindo engenharia pesada e dados específicos.

Agora, os chamados modelos fundacionais de inteligência artificial permitem uma arquitetura ponta a ponta. Em vez de programar cada cenário possível, os sistemas aprendem a generalizar a partir de grandes volumes de dados. Isso significa que um veículo treinado em São Francisco consegue, com ajustes mínimos, operar em Austin ou Miami.

A chegada de modelos de código aberto potentes, como o Alpamayo da Nvidia e os modelos de visão-linguagem-ação da Qwen, reduziu drasticamente a barreira de entrada. Startups conseguem colocar protótipos na rua em poucos meses e com menos de 1 milhão de dólares captados. Para efeito de comparação, a primeira geração de empresas do setor precisava de dezenas de milhões antes de rodar o primeiro quilômetro de teste.

Como abordamos na nossa cobertura de tecnologia, a evolução dos modelos de IA generativa não impacta apenas chatbots e geração de texto. A aplicação em robótica e mobilidade é uma das fronteiras mais concretas dessa revolução.

Robotáxis voltaram ao centro das atenções

Um dado que surpreendeu até os próprios investidores: entre as 81 startups que fizeram pitch, uma parcela crescente está focada em robotáxis. Não em nichos como mineração, agricultura ou armazéns, que tradicionalmente absorvem tecnologia autônoma, mas em serviços de transporte urbano de passageiros.

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Mais do que isso, várias dessas empresas se posicionam como concorrentes diretas da Waymo, subsidiária da Alphabet que hoje opera o maior serviço comercial de robotáxi do mundo. A tese é que os novos modelos de IA permitem competir em escala regional sem precisar do investimento bilionário que a Waymo acumulou ao longo de 15 anos.

A lógica econômica faz sentido em teoria. Se uma startup consegue operar com eficiência em uma cidade de médio porte ou em rotas específicas dentro de uma metrópole, ela não precisa competir globalmente. Basta capturar demanda local com custos de operação menores. É o mesmo raciocínio que permitiu que empresas menores de IA encontrassem nichos lucrativos ao lado de gigantes como OpenAI e Google.

O dinheiro está acompanhando o otimismo

Os números de captação confirmam que não se trata apenas de pitch decks ambiciosos. A Bedrock Robotics levantou 600 milhões de dólares em uma rodada Série C que avaliou a empresa em 4,1 bilhões de dólares. Entre os investidores estão CapitalG (braço de growth do Google), Bessemer Venture Partners, Temasek e Nvidia.

A Re:Build, aceleradora de manufatura que deu origem à Slate Auto, captou 2,1 bilhões de dólares para expandir sua capacidade de fabricação de produtos de tecnologia avançada. A rodada foi liderada pela General Catalyst e pelo braço de investimentos estratégicos do JPMorgan Chase. A empresa, cofundada por um ex-executivo sênior da Amazon, se posiciona como a “resposta americana a Shenzhen”.

No setor de logística autônoma, a Kodiak AI fechou seu primeiro contrato comercial vinculante: 75 caminhões autônomos serão entregues à transportadora DTL Transport a partir de 2028 para operação em rodovias públicas. É um marco porque transforma demonstração tecnológica em compromisso de receita.

Como discutimos em nossa análise sobre o impacto da IA nos investimentos, o capital de risco tem migrado de forma acelerada para empresas que combinam software de inteligência artificial com aplicações no mundo físico.

Os riscos que permanecem

Apesar do otimismo renovado, vale lembrar que a primeira onda deixou um rastro de destruição de capital. A Cruise, subsidiária da GM, queimou bilhões antes de ser reestruturada após incidentes de segurança. A Argo AI, apoiada por Ford e Volkswagen, simplesmente fechou as portas em 2022. A Aurora e a TuSimple passaram por crises existenciais.

A própria GM ilustra a volatilidade do setor. A montadora americana, que apostou pesado em veículos elétricos e autônomos, agora abraça híbridos e acaba de aceitar pagar 220 milhões de dólares em acordo com 36 estados americanos por venda ilegal de dados de motoristas a corretores de informação.

A barreira de entrada mais baixa é uma faca de dois gumes. Se startups conseguem operar com menos de 1 milhão de dólares, isso significa mais experimentação, mas também mais empresas frágeis que podem desaparecer rapidamente quando o capital ficar mais caro ou quando um acidente gerar escrutínio regulatório.

O consenso entre investidores do setor é que o ritmo não deve desacelerar em 2027. Mas a história recente ensina que, em veículos autônomos, a distância entre demonstração tecnológica e operação comercial lucrativa costuma ser medida em anos e bilhões de dólares.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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