Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.
Criptomoedas

Apple não quer IA pela IA: o que isso sinaliza ao mercado

John Ternus, novo CEO da Apple, diz que a empresa não quer lançar IA por lançar. A estratégia revela uma aposta arriscada num mercado obcecado pela corrida de modelos.

Apple não quer IA pela IA: o que isso sinaliza ao mercado
Foto: Zetong Li / Unsplash

Enquanto Google, Microsoft e Meta disputam quem lança o modelo de linguagem mais poderoso a cada trimestre, a Apple parece caminhar na direção oposta. John Ternus, que assumiu o cargo de CEO no início de setembro, deu uma declaração que resume a filosofia da empresa para os próximos anos: “Não queremos embarcar IA por embarcar.”

A frase parece simples, mas carrega implicações profundas para o mercado de tecnologia e para quem acompanha os movimentos das big techs como termômetro de investimento. Num momento em que Wall Street precifica qualquer menção a “inteligência artificial” nos balanços trimestrais, a Apple escolhe a contenção.

O que Ternus realmente está dizendo sobre a estratégia da Apple

O novo CEO, um veterano de longa data na companhia, reconheceu que “todo mundo tem uma opinião” sobre o posicionamento da Apple em IA. A empresa foi repetidamente descrita como atrasada na corrida, especialmente após atrasar o lançamento de uma versão mais robusta da Siri, que só chegou ao mercado neste verão americano.

Mas Ternus não demonstrou incômodo com a percepção externa. “Eu realmente gosto de onde estamos”, afirmou. E completou com a frase que define a abordagem: “Quando fizermos direito, as pessoas não vão precisar pensar se foi a IA que fez aquilo acontecer ou se foi software tradicional. O que importa é se construímos algo que elas realmente amam.”

Essa declaração é relevante porque contrasta diretamente com a estratégia de empresas como Google e Microsoft, que fazem questão de rotular cada funcionalidade com o selo “powered by AI”. Para a Apple, a IA deve ser invisível. Uma ferramenta, não um argumento de marketing.

A Apple está atrasada ou está jogando outro jogo?

A narrativa de que a Apple ficou para trás em inteligência artificial se consolidou entre analistas e investidores ao longo dos últimos dois anos. Enquanto a OpenAI lançava o ChatGPT e o Google respondia com o Gemini, a Apple parecia ocupada demais com iterações incrementais do iPhone.

Mas há outra leitura possível. A Apple controla o hardware de mais de 2 bilhões de dispositivos ativos no mundo. Isso significa que, diferentemente de empresas que dependem de nuvem e APIs, a companhia pode implementar IA diretamente no chip, com processamento local e privacidade embarcada. Esse é um diferencial competitivo estrutural que não aparece em benchmarks de modelos de linguagem.

Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.

Como já discutimos em análises sobre o impacto da IA nas big techs, a corrida por modelos maiores e mais caros enfrenta um problema de sustentabilidade econômica. O custo de treinamento e inferência cresce exponencialmente, enquanto a monetização ainda não acompanha. A Apple, ao integrar IA de forma silenciosa em seus produtos, pode evitar essa armadilha.

Agentes de IA e o futuro dos aplicativos

Quando questionado sobre a possibilidade de agentes de IA tornarem aplicativos desnecessários, algo que transformaria radicalmente a App Store, Ternus deu uma resposta reveladora: “Isso poderia facilitar muito a vida, suponho, mas a criação de produtos é algo profundamente humano e pessoal, algo que amamos fazer.”

A resposta não é apenas filosófica. A App Store gerou receita estimada de mais de 24 bilhões de dólares em 2024, segundo dados da Sensor Tower. Se agentes autônomos realmente substituíssem a navegação por apps, a Apple perderia uma de suas maiores fontes de receita recorrente. Defender a “criação humana de produtos” é também defender um modelo de negócios.

Esse cenário conecta diretamente com a discussão mais ampla sobre como empresas de tecnologia protegem seus moats diante de mudanças estruturais. A transição para agentes de IA é uma ameaça existencial para ecossistemas fechados como o da Apple, e a resposta de Ternus sugere que a empresa pretende cooptar a tecnologia, não resistir a ela.

O que isso significa para quem acompanha tecnologia e mercados

A postura da Apple cria um contraponto importante à euforia de IA que domina os mercados. Desde o início de 2023, ações de empresas com exposição a inteligência artificial acumularam valorização desproporcional. A Nvidia, fornecedora de chips para treinamento de modelos, viu seu valor de mercado ultrapassar 3 trilhões de dólares. A própria Microsoft investiu mais de 13 bilhões de dólares na OpenAI.

A Apple, com capitalização de mercado acima de 3,4 trilhões de dólares, sinaliza que não pretende entrar na guerra de gastos com IA generativa. Prefere esperar, integrar e entregar quando o produto fizer sentido para o consumidor final. É a mesma lógica que a empresa aplicou ao smartphone, ao smartwatch e aos fones sem fio: não foi a primeira em nenhum deles, mas dominou todos.

Para investidores, a questão central é se o mercado vai continuar recompensando a velocidade de lançamento ou se, em algum momento, passará a valorizar a execução integrada. Como exploramos em nossa cobertura sobre a bolha de IA, há sinais crescentes de que a fase de “promessas” está se esgotando e o mercado começa a cobrar resultados concretos.

Contenção como estratégia ou como risco

A abordagem de Ternus tem mérito histórico, mas não é isenta de risco. Se a IA generativa evoluir rápido o suficiente para criar novos paradigmas de interação, a Apple pode perder a janela de adoção. A Siri, mesmo após a atualização, ainda é amplamente considerada inferior ao ChatGPT e ao Google Assistant em termos de capacidade conversacional.

O equilíbrio entre “não lançar por lançar” e “não ficar irrelevante” é delicado. A Apple tem capital, base de usuários e controle de hardware para executar essa estratégia. Mas o mercado de IA se move em meses, não em anos. E os consumidores já estão se acostumando com assistentes que funcionam bem em outras plataformas.

A declaração de Ternus, no fundo, é uma aposta de que a integração profunda entre hardware e software vai valer mais do que velocidade de lançamento. Se a aposta estiver certa, a Apple vai fazer o que sempre fez: chegar depois e dominar. Se estiver errada, a empresa pode descobrir que, pela primeira vez, a paciência custou caro demais.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.
Compartilhar
Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
Continue scrollando para a próxima matéria…