Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.
Criptomoedas

Gerdau e o boom de data centers: por que o aço surfou a onda da IA

Expansão de data centers de IA nos EUA eleva demanda por aço longo e coloca a Gerdau em posição privilegiada. Analistas revisam projeções para cima.

Gerdau e o boom de data centers: por que o aço surfou a onda da IA
Foto: Laura Cleffmann / Unsplash

Quando se fala em inteligência artificial, o primeiro reflexo do mercado é pensar em chips, servidores e ações de tecnologia. Poucos investidores param para considerar o que sustenta fisicamente essa revolução: estruturas de aço, concreto e cabos que formam os data centers onde a IA de fato opera. É nesse elo menos óbvio da cadeia que a Gerdau aparece como uma das grandes beneficiárias.

Analistas de um grande banco elevaram o preço-alvo das ações da siderúrgica de R$ 31 para R$ 35, reiterando recomendação de compra. O papel é apontado como a principal escolha no setor siderúrgico brasileiro. A tese se apoia em um argumento simples, mas poderoso: o mercado pode estar subestimando a capacidade de geração de caixa da Gerdau nos Estados Unidos.

Data centers de IA impulsionam demanda por aço longo nos EUA

O segmento de vigas e barras comerciais da Gerdau na América do Norte vive um momento atípico. O consumo aparente desses dois produtos cresceu cerca de 6,5% no acumulado do ano, mesmo com uma queda de aproximadamente 1% nos gastos totais com construção não residencial nos Estados Unidos.

Essa divergência tem nome: data centers. Os gastos com construção desse tipo de instalação nos EUA avançaram 75% na comparação anual, segundo dados recentes. Embora representem apenas cerca de 5% do total gasto com construção não residencial, os data centers são intensivos em aço longo, exatamente o tipo de produto que a Gerdau fabrica e vende no mercado americano.

Para quem acompanha o mercado financeiro, o dado relevante é a exposição desproporcional: os produtos da companhia têm maior penetração justamente nos segmentos de construção pesada que mais crescem.

Hyperscalers devem acelerar investimentos até 2027

O ciclo de investimentos dos grandes provedores de serviços em nuvem, os chamados hyperscalers, está longe de desacelerar. As projeções apontam que o início de novas construções de data centers deve avançar cerca de 200% até 2027. Para a Gerdau, isso se traduz em demanda sustentada por anos.

O ponto que o mercado parece ignorar, segundo os analistas, é que o crescimento da demanda deve superar qualquer pressão pelo lado da oferta. Existe, sim, preocupação com aumento de capacidade instalada e importações de aço nos EUA. Mas a aceleração do consumo, puxada pela construção de infraestrutura de IA, tende a absorver essa nova oferta sem comprimir margens.

Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.

Essa dinâmica lembra, em escala diferente, o que aconteceu com o setor de infraestrutura tecnológica nos últimos anos, quando a corrida pela digitalização criou gargalos inesperados em setores tradicionais da economia real.

Projeções financeiras revisadas para cima

As novas estimativas são significativas. O EBITDA projetado para este ano foi elevado para R$ 13,9 bilhões, alta de 3% em relação à projeção anterior. Para 2027, a expectativa subiu 8%, chegando a R$ 15,2 bilhões.

A margem EBITDA esperada para a operação na América do Norte em 2027 passou de 24% para 26,4%. É uma revisão relevante que reflete diretamente a leitura mais otimista sobre a demanda estrutural por aço longo no mercado americano.

Outro fator que contribui para a revisão é o câmbio. Após a reeleição de Lula, a premissa cambial foi ajustada para um dólar a R$ 5,40, o que beneficia os resultados consolidados da Gerdau, já que boa parte da receita vem de operações dolarizadas.

Nos múltiplos atuais, a Gerdau negocia a 3,5 vezes o EBITDA estimado para 2027, com um free cash flow yield de 14%. Para efeito de comparação, siderúrgicas globais costumam negociar a múltiplos entre 4 e 6 vezes, o que sugere espaço para reavaliação.

O que os números recentes mostram na B3

A companhia vale R$ 47,8 bilhões na B3. Nos últimos doze meses, a ação acumula alta de 33%, um desempenho expressivo para um papel do setor de commodities em um ambiente de Ibovespa sob pressão. Em um dia recente de queda do índice, o papel chegou a subir 6,5%, sinalizando que o mercado começa a precificar a tese de demanda estrutural.

Para o investidor que analisa ações na bolsa brasileira, o caso da Gerdau ilustra um padrão importante: grandes tendências tecnológicas criam oportunidades em setores que parecem distantes do epicentro da inovação. A revolução da IA não beneficia apenas quem fabrica chips. Beneficia quem fornece a estrutura física para que essa tecnologia exista.

O elo esquecido entre IA e economia real

A narrativa de investimento em inteligência artificial concentrou, nos últimos anos, a atenção do mercado em empresas de semicondutores, software e computação em nuvem. Mas toda infraestrutura digital precisa de infraestrutura física. Cada novo data center demanda milhares de toneladas de aço estrutural, e a escala dos projetos dos hyperscalers é sem precedentes.

A Gerdau, com operações consolidadas nos EUA e foco em aço longo para construção pesada, está posicionada de forma quase acidental nesse cruzamento entre velha economia e nova tecnologia. Não foi uma aposta deliberada da gestão em IA. Foi a combinação certa de produto, geografia e timing de mercado.

O risco, como sempre, existe. Uma desaceleração nos planos de investimento dos hyperscalers, mudanças na política comercial americana ou uma recessão nos EUA poderiam comprometer a tese. Mas, por enquanto, os dados apontam na direção oposta: a demanda cresce mais rápido do que a oferta consegue acompanhar.

Para quem busca exposição à tese de IA fora das big techs, o aço pode ser a aposta mais contraintuitiva e, ao mesmo tempo, mais fundamentada do mercado.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Estratégia Internacional, o curso da VEJA Negócios e da BlockTrends: 4 módulos para investir fora do Brasil. Inscrições abertas.
Compartilhar
Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
Continue scrollando para a próxima matéria…