Chips e IA puxam Wall Street: o que explica o rali
Financiamento de US$ 63 bilhões da Anthropic para comprar tecnologia da Broadcom reacendeu o rali de chips e levou o Nasdaq a subir 1,18%.
O pregão desta terça-feira, 27, em Nova York deixou um recado claro: o mercado ainda está disposto a pagar caro por qualquer sinal de que a corrida pela inteligência artificial vai se intensificar. O Nasdaq fechou em alta de 1,18%, aos 26.477 pontos, puxado por fabricantes de semicondutores que voltaram a protagonizar o pregão.
O gatilho foi um negócio bilionário. Uma coalizão de bancos, junto com a Blackstone, anunciou um financiamento de US$ 63 bilhões para que a Anthropic adquira tecnologia da Broadcom. O papel da Broadcom subiu 4% e arrastou consigo todo o setor: a Advanced Micro Devices (AMD) avançou 5,4% e a Micron ganhou mais de 2%.
O S&P 500 subiu 0,6%, a 7.722 pontos, enquanto o Dow Jones ficou praticamente estável, com alta de apenas 0,03%, aos 52.377 pontos. A diferença entre os índices diz muito sobre o momento do mercado.
Por que o setor de chips voltou a liderar os ganhos
O rali dos semicondutores não é exatamente novidade. Desde que a corrida pela IA generativa ganhou escala, em 2023, fabricantes de chips se tornaram os grandes vencedores do mercado acionário americano. Mas o movimento desta semana tem uma particularidade: ele é impulsionado não por uma big tech tradicional, mas por uma empresa de IA que está comprando infraestrutura física em escala inédita.
O financiamento de US$ 63 bilhões para a Anthropic é o maior já registrado no setor de IA para aquisição de hardware. Para efeito de comparação, a Nvidia teve receita de cerca de US$ 61 bilhões no ano fiscal encerrado em janeiro de 2025. Estamos falando de um cheque que supera a receita anual da maior fabricante de chips do mundo.
Segundo Mobeen Tahir, analista da WisdomTree, o alívio que faltava aos investidores de tecnologia pode vir justamente da temporada de balanços em curso. “Se o restante da temporada de resultados for tão bom quanto começou, provavelmente veremos uma forte recuperação no setor”, afirmou. É uma tese que ganha tração: os resultados concretos estão começando a justificar as valuations esticadas, como temos analisado na cobertura de mercados.
Boeing despenca 10% e puxa o Dow Jones para baixo
Enquanto o Nasdaq celebrava, o Dow Jones mal se moveu. O principal vilão foi a Boeing, que despencou 10% após reportar um prejuízo maior do que o previsto no balanço do último trimestre. As projeções dos gestores da companhia também não agradaram o mercado.
A queda da Boeing é emblemática. Enquanto empresas ligadas à IA recebem cheques bilionários e veem suas ações disparar, setores industriais tradicionais enfrentam dificuldades operacionais persistentes. A Boeing acumula problemas de produção e segurança há trimestres, e o mercado parece ter perdido a paciência.
Na contramão da Boeing, a JetBlue saltou 19%. O motivo não foi o presente, já que a companhia aérea também reportou perdas acima do esperado no terceiro trimestre. O que animou os investidores foi a projeção de expansão maior das margens no quarto trimestre. É o tipo de assimetria que mostra como o mercado americano está operando: premiando promessas futuras e punindo decepções presentes. Para quem acompanha a dinâmica das bolsas americanas, o padrão é cada vez mais evidente.
O papel do petróleo e a decisão do Fed no horizonte
Outro fator que sustentou o apetite por risco foi a queda do petróleo. Informações de que o líder supremo do Irã e o principal responsável pela segurança nacional do país discutiram condições para encerrar o conflito no Oriente Médio trouxeram alívio às cotações da commodity. Petróleo mais barato reduz pressão inflacionária e, por consequência, dá mais espaço para o Federal Reserve flexibilizar a política monetária.
E é justamente o Fed que ocupa o centro das atenções agora. A decisão de política monetária está prevista para amanhã. O mercado precifica amplamente uma manutenção dos juros, mas o comunicado e a coletiva de Jerome Powell serão dissecados em busca de sinais sobre o ritmo de eventuais cortes futuros.
O contexto é relevante para investidores brasileiros. Juros mais baixos nos Estados Unidos tendem a enfraquecer o dólar e beneficiar ativos de risco globalmente, incluindo a bolsa brasileira e o mercado de criptoativos. Por outro lado, se o Fed adotar um tom mais hawkish do que o esperado, o fluxo de capital pode se inverter rapidamente.
O que o investidor deve observar daqui em diante
O rali dos semicondutores nesta semana reforça uma tese que vem se consolidando: a cadeia de valor da inteligência artificial não se resume a quem desenvolve os modelos. Fabricantes de chips, provedores de infraestrutura e empresas de energia que alimentam data centers estão capturando parcelas significativas do valor gerado pela IA.
A GM, que subiu 5,57% no pregão, também ilustra uma tendência interessante. A montadora anunciou que vai transferir a listagem de suas ações da NYSE para a Nasdaq. O movimento simbólico reforça a gravitação do mercado em torno do índice que concentra as empresas de tecnologia.
Para o investidor que olha além do ruído diário, o recado é: a temporada de balanços nos Estados Unidos está apenas começando e os resultados do setor de tecnologia serão determinantes para definir se o rali de IA tem fôlego para o segundo semestre ou se as valuations já estão esticadas demais. Com o Fed decidindo juros amanhã, a combinação de resultados corporativos e política monetária promete definir a direção dos mercados nas próximas semanas.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


