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Meta capta US$ 35 bi em ações para bancar corrida da IA

A Meta prepara a maior captação de sua história para financiar data centers e IA. O movimento revela o tamanho da aposta e os riscos envolvidos.

Meta capta US$ 35 bi em ações para bancar corrida da IA
Foto: panumas nikhomkhai / Unsplash

A Meta Platforms abriu nesta segunda-feira uma oferta pública de aproximadamente US$ 35 bilhões em ações ordinárias e ações preferenciais conversíveis. O objetivo é direto: levantar capital fresco para bancar a expansão acelerada da companhia em inteligência artificial, em uma corrida que já consome centenas de bilhões de dólares do setor de tecnologia.

O movimento não para por aí. A empresa também anunciou que pretende lançar um programa separado de venda de ações at-the-market (ATM) de até US$ 60 bilhões, vinculado à criação de uma nova classe de papéis sem direito a voto (Classe C), cuja negociação está prevista para o primeiro trimestre de 2027. Somadas, as duas iniciativas podem injetar quase US$ 100 bilhões no caixa da controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp.

Por que a Meta precisa de tanto dinheiro agora

A resposta curta: data centers. A resposta longa envolve uma reconfiguração completa da infraestrutura da empresa para suportar modelos de IA cada vez mais sofisticados. A Meta se comprometeu a gastar cerca de US$ 825 bilhões no futuro, um número que reflete principalmente investimentos em centros de dados, infraestrutura de computação em nuvem e capacidade de processamento voltada para IA.

No fim de setembro, a companhia possuía US$ 82,45 bilhões em caixa, equivalentes de caixa e títulos negociáveis. O número parece robusto até ser colocado ao lado da dívida de longo prazo de US$ 80,92 bilhões. Na prática, a posição líquida de caixa da Meta era de apenas US$ 1,5 bilhão, praticamente zero para uma empresa que planeja gastar centenas de bilhões nos próximos anos.

A captação via ações evita que a empresa aumente ainda mais seu endividamento e preserva a flexibilidade financeira necessária para um ciclo de investimento que deve durar pelo menos meia década. Como discutimos em análises anteriores sobre big techs e IA, o setor entrou em uma fase onde o gasto de capital define quem permanece competitivo.

A corrida contra OpenAI e Anthropic custa caro

A Meta não está sozinha nessa aposta. A empresa compete diretamente com OpenAI, Anthropic e Google na construção de modelos de linguagem de grande porte e sistemas de IA generativa. A diferença é que, enquanto a OpenAI levantou capital com rodadas privadas bilionárias, a Meta recorre ao mercado público de ações.

Essa escolha tem consequências. A emissão de novas ações dilui a participação dos atuais acionistas. As ações preferenciais conversíveis adicionam uma camada de complexidade: se convertidas no futuro, aumentam ainda mais o número de papéis em circulação. E a criação de uma classe de ações sem direito a voto (Classe C) reforça o controle de Mark Zuckerberg sobre a companhia, algo que investidores institucionais costumam ver com ressalva.

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O mercado, no entanto, parece disposto a aceitar esses termos. A lógica é simples: ficar de fora da corrida da IA é mais arriscado do que diluir acionistas agora. Como mostramos em nossa cobertura de mercado financeiro, os investidores têm premiado empresas que demonstram capacidade de execução em IA, mesmo quando isso pressiona margens no curto prazo.

US$ 825 bilhões em compromissos: o que está em jogo

O número mais revelador do comunicado da Meta não é a oferta de US$ 35 bilhões. É o compromisso de US$ 825 bilhões em gastos futuros. Para colocar em perspectiva, esse valor supera o PIB de países como a Suíça e equivale a cerca de quatro vezes a receita anual da empresa.

Parte desse investimento alimenta o modelo Llama, a aposta open-source da Meta em IA generativa. Diferente dos concorrentes que mantêm seus modelos fechados, a Meta optou por disponibilizar versões abertas do Llama, criando um ecossistema de desenvolvedores e fortalecendo sua posição como plataforma. A estratégia exige, porém, uma infraestrutura computacional massiva para treinar e rodar versões cada vez maiores desses modelos.

Outro destino dos recursos são os óculos de realidade mista e o projeto de metaverso, que, apesar de ter saído dos holofotes, continua consumindo bilhões por trimestre na divisão Reality Labs. O risco é que a empresa esteja espalhando capital em múltiplas frentes ao mesmo tempo, sem garantia de retorno em nenhuma delas no curto prazo.

O que isso significa para o mercado de tecnologia

A oferta da Meta é um termômetro da intensidade com que as big techs estão competindo em IA. Microsoft, Google e Amazon também anunciaram investimentos bilionários em data centers e infraestrutura ao longo dos últimos trimestres. A diferença é que a Meta é a primeira a recorrer ao mercado de ações em escala tão grande especificamente para financiar essa expansão.

Essa decisão levanta uma questão central para investidores: quando o retorno sobre o investimento em IA vai aparecer nos resultados? A receita publicitária da Meta já se beneficia de algoritmos de IA que melhoram a segmentação de anúncios. Mas os gastos em infraestrutura estão crescendo mais rápido do que as receitas incrementais geradas pela tecnologia.

Para quem acompanha o setor de tecnologia, a mensagem é clara. A fase de experimentação acabou. A IA generativa entrou na fase industrial, onde vencem as empresas com mais capital, mais GPUs e mais capacidade de escalar. A Meta está apostando que US$ 35 bilhões agora e até US$ 60 bilhões depois são o preço de entrada para permanecer nesse jogo. Como abordamos em nossa análise sobre a corrida das big techs por IA, o custo de ficar de fora pode ser ainda maior.

Resta saber se os acionistas terão paciência suficiente para esperar os frutos de uma aposta que, por enquanto, é mais promessa do que resultado.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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