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Meta e Tesla decepcionam: o que os balanços revelam sobre IA

Resultados trimestrais de Meta e Tesla superaram receita esperada, mas lucros e perspectivas decepcionaram. Wall Street caiu e o mercado questiona a tese de IA.

Meta e Tesla decepcionam: o que os balanços revelam sobre IA
Foto: Jeremy de Blok / Unsplash

Os balanços trimestrais de Meta e Tesla chegaram ao mercado com números de receita acima do consenso. Mesmo assim, Wall Street reagiu com vendas generalizadas, especialmente no setor de tecnologia e inteligência artificial. O movimento levanta uma pergunta incômoda para quem está posicionado em ações de crescimento: os múltiplos dessas empresas já precificaram um futuro que pode não se materializar na velocidade esperada?

O que os números de Meta e Tesla realmente mostram

A Meta reportou receita de US$ 64,60 bilhões no trimestre, uma alta de 26% na comparação anual. O número superou as estimativas dos analistas. Até aí, motivo para comemorar. Mas o lucro por ação ficou em US$ 3,83, bem abaixo dos US$ 5,75 que o mercado esperava. A diferença é brutal: uma queda de 33% em relação à projeção.

A empresa de Mark Zuckerberg ainda projetou receita entre US$ 73 bilhões e US$ 76 bilhões para o quarto trimestre. Analistas da LSEG esperavam US$ 73,73 bilhões, o que coloca o guidance dentro do intervalo, mas sem folga para empolgar. O problema não está no topo da linha. Está no custo crescente da aposta em IA, que comprime margens e joga o lucro para baixo.

No caso da Tesla, a receita de US$ 28,05 bilhões ficou ligeiramente acima da estimativa de US$ 27,9 bilhões. O lucro por ação de US$ 0,48 também superou a projeção de US$ 0,43. Números saudáveis à primeira vista. Mas o dado que chamou atenção foi outro: a receita do segmento automotivo, que é o coração da operação, caiu 3% em relação ao ano anterior.

Para uma empresa que negocia com múltiplos de crescimento agressivo, uma contração na principal linha de negócio é um sinal amarelo. Como já analisamos em nossa cobertura de mercados financeiros, o mercado costuma punir com severidade empresas que entregam crescimento abaixo da narrativa embutida no preço.

Por que Wall Street vendeu mesmo com receita acima do esperado

A reação negativa de Wall Street não é irracional. Ela reflete uma mudança de foco por parte dos investidores. Durante os últimos trimestres, o mercado premiou qualquer empresa que mencionasse inteligência artificial no balanço. Agora, a exigência subiu de patamar: não basta falar em IA. É preciso mostrar retorno concreto.

A Meta está investindo dezenas de bilhões de dólares em infraestrutura de IA, data centers e modelos de linguagem. Esses investimentos pressionam o lucro no curto prazo. E quando o lucro por ação fica 33% abaixo do esperado, o mercado entende que a conta da IA está chegando antes da receita.

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O mesmo raciocínio se aplica à Tesla, que tenta se reposicionar como uma empresa de IA e robotaxi, mas cuja principal fonte de caixa, a venda de carros, está encolhendo. A narrativa de Elon Musk sobre condução autônoma e robôs humanoides é ambiciosa. A receita automotiva em queda é concreta.

Essa desconexão entre narrativa e resultado explica por que os índices de Nova York operaram em baixa mesmo diante de números aparentemente positivos. Como discutimos em nossa cobertura de tecnologia, o ciclo de hype da IA pode estar entrando numa fase de ajuste de expectativas.

O mercado de trabalho dos EUA complica o cenário

Para além dos balanços corporativos, os dados macroeconômicos adicionaram uma camada de complexidade. Os pedidos iniciais de auxílio-desemprego nos Estados Unidos caíram para 194 mil na semana encerrada em 17 de outubro, abaixo dos 200 mil previstos por economistas consultados pela Reuters. O número está próximo do menor nível desde 1969, quando foram registrados 189 mil pedidos em meados de julho.

Um mercado de trabalho tão aquecido normalmente seria uma boa notícia. Mas no contexto atual, significa que o Federal Reserve tem pouco incentivo para cortar juros. A ferramenta FedWatch do CME Group apontava 89,5% de probabilidade de manutenção dos juros na faixa de 3,75% a 4,00% na reunião da próxima semana. Para dezembro, a aposta majoritária, com 82,7% de probabilidade, é de elevação de pelo menos 25 pontos-base.

Juros altos por mais tempo são especialmente prejudiciais para ações de crescimento como Meta e Tesla, cujas avaliações dependem de fluxos de caixa futuros descontados a valor presente. Quanto maior a taxa de desconto, menor o valor presente dessas empresas. É matemática financeira básica, mas que o mercado parece redescobrir a cada ciclo.

O que isso significa para quem investe

O quadro geral é de um mercado que começa a cobrar resultados tangíveis da revolução da IA. O entusiasmo com a tecnologia não acabou, mas a tolerância com lucros comprimidos e promessas de longo prazo está diminuindo. Essa mudança de humor tende a ser mais pronunciada em empresas que negociam com valuations esticados.

A queda do petróleo e a volatilidade nos preços de commodities adicionaram pressão extra sobre os índices, ampliando o nervosismo. Para investidores expostos a big techs americanas, seja diretamente ou via ETFs e BDRs, o momento pede atenção redobrada à qualidade dos lucros e não apenas ao crescimento da receita.

Como destacamos em análises anteriores sobre o cenário macro, a combinação de juros elevados, lucros sob pressão e valuations esticados historicamente precede correções setoriais. Isso não significa que Meta ou Tesla sejam maus negócios no longo prazo. Significa que o preço que o mercado está disposto a pagar por essas teses está sendo recalibrado em tempo real.

O trimestre mostrou que receita forte sem lucro correspondente já não é suficiente. E que o mercado de trabalho americano, ao se recusar a enfraquecer, tira do Fed qualquer urgência em aliviar a política monetária. Para quem acompanha esses movimentos, a mensagem é clara: a era do dinheiro fácil nas big techs de IA está dando lugar a uma fase de seletividade.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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