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Dólar sobe a R$ 5,05: o que a eleição muda no câmbio

Moeda americana avança 0,44% pressionada por cenário externo e incerteza eleitoral. Entenda o que determina o câmbio nos próximos dias.

Dólar sobe a R$ 5,05: o que a eleição muda no câmbio
Foto: Pratikxox / Unsplash

O dólar à vista operava em alta de 0,44% na manhã desta quinta-feira (22), cotado a R$ 5,050. O dólar futuro para novembro, contrato mais líquido na B3, avançava 0,53%, a R$ 5,060. Na véspera, a moeda americana já havia fechado em leve alta de 0,18%, a R$ 5,0272.

Os dois vetores de pressão são conhecidos: lá fora, o índice DXY (que mede o dólar contra uma cesta de moedas fortes) ganha tração em um dia de maior aversão a ativos de risco. Aqui dentro, o mercado opera no modo de espera antes da publicação de nova pesquisa Datafolha sobre intenções de voto para presidente, prevista para as 19h.

O pano de fundo eleitoral é o fator que transforma um movimento ordinário de câmbio em algo mais relevante para quem investe. Entender essa dinâmica ajuda a separar ruído de sinal.

Por que a eleição pressiona o câmbio agora

A quatro dias do segundo turno presidencial, marcado para domingo, a disputa permanece em empate técnico. Pesquisa Quaest divulgada na véspera mostrou Flávio com 45% contra 44% de Lula, diferença dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.

Quando o resultado de uma eleição é previsível, o mercado antecipa o cenário e precifica com antecedência. Quando não é, como agora, o câmbio tende a embutir um prêmio de risco adicional. Cada nova pesquisa funciona como um micro-evento: gera oscilação imediata e recalibra as apostas dos investidores.

Esse mecanismo não é novidade. Em 2022, a volatilidade implícita do dólar contra o real disparou nos dias que antecederam o segundo turno. Em 2018, aconteceu o mesmo, embora naquela eleição o cenário tenha se definido mais cedo. A diferença em 2026 é que a margem entre os candidatos segue apertada até o último momento, o que mantém o prêmio de incerteza elevado.

Para quem acompanha o mercado de câmbio de perto, vale observar que a dinâmica entre câmbio e política fiscal costuma se intensificar justamente nesse tipo de cenário polarizado.

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O fator externo: aversão a risco global

Não é apenas a eleição brasileira que empurra o dólar para cima. O movimento desta quinta-feira acompanha uma tendência global de fortalecimento da moeda americana. Investidores internacionais reduziram exposição a ativos de risco em mercados emergentes, favorecendo a busca por proteção em dólar e títulos do Tesouro americano.

O DXY tem mostrado resiliência nas últimas semanas, sustentado por dados econômicos mistos nos Estados Unidos que mantêm a incerteza sobre os próximos passos do Federal Reserve. Quando o cenário macro global fica turvo, moedas de países emergentes como o real tendem a sofrer mais, porque o diferencial de risco se amplia.

A combinação de incerteza doméstica (eleição) com aversão a risco externa cria o que operadores de câmbio chamam de “tempestade dupla”: dois vetores negativos alinhados que se reforçam mutuamente. Não significa que o dólar vai disparar, mas explica por que a moeda tem dificuldade em ceder abaixo dos R$ 5,00 nos últimos pregões.

Esse cenário se conecta diretamente com o que temos observado sobre o impacto dos juros americanos nos investimentos brasileiros.

O que o Banco Central faz neste cenário

Às 11h30 desta quinta, o Banco Central realiza seu leilão regular de rolagem de swap cambial, com oferta de 75 mil contratos para 3 de novembro. É uma operação rotineira, mas que ganha atenção redobrada em momentos de estresse.

Os swaps cambiais funcionam como uma proteção oferecida pelo BC ao mercado. Na prática, o banco assume a variação do dólar e entrega ao comprador a variação da taxa de juros doméstica. Quando a autoridade monetária oferta esses contratos, está sinalizando que há liquidez disponível para quem precisa de hedge cambial.

O ponto importante: o BC não está tentando segurar o dólar em um patamar específico. A rolagem de swaps é parte da gestão ordinária de reservas e da suavização de volatilidade excessiva. Se o resultado eleitoral de domingo gerar um movimento mais brusco, a expectativa é que o BC possa ampliar as intervenções, como fez em ciclos eleitorais anteriores.

O que muda para quem investe

A pergunta prática é: o que o investidor deve fazer com o câmbio a R$ 5,05 às vésperas de uma eleição indefinida?

Primeiro, é preciso separar volatilidade eleitoral de tendência estrutural. O dólar oscilou entre R$ 4,80 e R$ 5,20 nos últimos meses, uma faixa relativamente conhecida. Movimentos dentro dessa banda refletem ajustes de posição, não uma mudança de fundamento. A definição eleitoral de domingo deve comprimir essa faixa: para cima ou para baixo, dependendo do resultado e, principalmente, dos sinais de política econômica do governo eleito.

Segundo, quem tem exposição internacional (investimentos em dólar, ETFs de mercados globais, criptomoedas cotadas em dólar) já está naturalmente protegido contra a desvalorização do real. Como analisamos em matéria recente sobre a relação entre câmbio e ativos digitais, variações do dólar afetam diretamente o preço em reais de criptoativos.

Terceiro, a volatilidade de curto prazo costuma ser ruim para operações alavancadas e boa para quem tem caixa e horizonte de médio prazo. Picos de incerteza frequentemente criam pontos de entrada em ativos que são penalizados de forma indiscriminada.

O que observar nos próximos dias

O calendário até o segundo turno é curto, mas denso. A pesquisa Datafolha desta noite será o último grande dado de intenção de voto com metodologia presencial antes da eleição. Se confirmar o empate técnico, o mercado tende a manter o prêmio de risco. Se mostrar abertura de vantagem para algum candidato, o câmbio deve reagir imediatamente na sexta-feira (23).

Na segunda-feira (26), o mercado abre já com o resultado das urnas. Historicamente, a sessão pós-eleição é uma das mais voláteis do ano para o real. Em 2022, o dólar oscilou mais de 2% no pregão seguinte ao segundo turno. Em 2018, a moeda caiu quase 3% na semana após a definição.

O que importa mais do que o nome do vencedor é a sinalização de política econômica. Nomes para o Ministério da Fazenda, compromisso com equilíbrio fiscal, postura em relação à autonomia do Banco Central: esses são os fatores que o mercado precifica com mais peso no câmbio de médio prazo.

O dólar a R$ 5,05 é um retrato do momento: incerteza eleitoral somada a um ambiente global menos favorável a emergentes. A foto pode mudar rápido. O fundamento, nem tanto.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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