Ações tokenizadas enfrentam resistência de gigantes como Microsoft e Google
Já são 16 empresas contra a listagem de versões tokenizadas de suas ações. A resistência expõe os limites do novo framework da SEC para tokenização de ativos.
A promessa de tokenizar ações de empresas listadas em bolsa acaba de encontrar um obstáculo considerável. Microsoft, Alphabet (controladora do Google) e Goldman Sachs entraram para a lista de companhias que se opõem formalmente à negociação de versões tokenizadas de suas ações na OKXICE, a joint venture entre a exchange de criptomoedas OKX e a Intercontinental Exchange (ICE), controladora da Bolsa de Nova York.
Além das três, Qualcomm, Caterpillar, McDonald’s e Western Digital também registraram objeções em um aviso público atualizado, datado de 19 de outubro. Com isso, o número de empresas contrárias subiu de nove para 16, em pouco mais de uma semana.
O movimento levanta questões importantes sobre a viabilidade prática do novo framework regulatório da SEC para negociação de ações tokenizadas, anunciado no mês passado. A ideia parecia simples no papel. A execução, como se vê, é outra história.
O que é a OKXICE e como funciona o framework da SEC
A OKXICE foi anunciada no início de outubro com uma proposta ambiciosa: operar sob a chamada “Innovation Exemption” da SEC, uma isenção experimental com validade de cinco anos. O framework permite que plataformas qualificadas negociem ações americanas tokenizadas por meio de formadores de mercado automatizados (AMMs) e pools de liquidez, mecanismos típicos das finanças descentralizadas.
Na prática, a plataforma listaria representações digitais de ações reais em infraestrutura blockchain, potencialmente oferecendo negociação 24 horas, liquidação quase instantânea e acesso mais amplo a investidores globais. O aviso original da OKXICE incluía 63 tickers de 62 empresas, já que a Alphabet aparece com duas classes de ações (GOOG e GOOGL).
O detalhe crucial é que o framework dá aos emissores o direito de se opor. E é exatamente isso que está acontecendo, em escala crescente. Das 62 empresas originalmente listadas, 15 já registraram objeção. Somando-se a Cerebras Systems, que estava fora da lista original, são 16 no total. Restam 47 sem objeção pública declarada, o que não significa necessariamente concordância.
Como analisamos em nossa cobertura sobre o mercado cripto, a tokenização de ativos do mundo real (RWA) é uma das narrativas mais fortes do ciclo atual, mas a adesão institucional continua sendo o principal gargalo.
Por que Microsoft, Google e Goldman Sachs se opõem
O aviso público não detalha as razões específicas de cada empresa. Mas o perfil das companhias que se opõem oferece pistas relevantes.
Microsoft e Alphabet são duas das empresas mais valiosas do mundo, com governança corporativa sofisticada e equipes jurídicas robustas. Goldman Sachs, por sua vez, é um dos maiores bancos de investimento do planeta, com operações próprias em ativos digitais, o que torna sua objeção particularmente significativa.
A preocupação central, segundo analistas do setor, gira em torno de três eixos: controle sobre a representação das ações, riscos regulatórios de ter ativos negociados em plataformas experimentais e potenciais conflitos com as regras existentes de listagem nas bolsas tradicionais.
Há também a questão reputacional. Empresas como McDonald’s e Caterpillar, que também se opuseram, são marcas de consumo com exposição pública massiva. Associar seus tickers a uma plataforma cripto, por mais regulada que seja, ainda carrega um peso institucional que essas companhias preferem evitar.
Vale lembrar que, antes desta rodada, Broadcom, Verizon, UnitedHealth, CoreWeave, AppLovin, Applied Digital, Rocket Lab e Applied Optoelectronics já haviam se posicionado contra. A diversidade de setores entre as oponentes, de semicondutores a telecomunicações, de saúde a fast food, sugere que a resistência não é pontual. É estrutural.
O que isso significa para a tokenização de ativos reais
O mercado de RWA (Real World Assets) tokenizados vem crescendo de forma consistente. Stablecoins lastreadas em ativos reais diversificados já sustentam rendimentos na faixa de 5% a 7% ao ano, enquanto o funding rate no mercado cripto comprimiu para cerca de 4%. A aprovação do GENIUS Act, que regulamenta stablecoins nos Estados Unidos, deve impulsionar o mercado endereçável total (TAM) para cerca de US$ 4 bilhões nos próximos três anos.
Mas a tokenização de ações é um jogo completamente diferente de tokenizar títulos do Tesouro ou crédito privado. Ações carregam direitos de voto, dividendos, desdobramentos e uma série de eventos corporativos que precisam ser refletidos na versão tokenizada com precisão absoluta.
Para quem investe no setor cripto, o sinal é claro: a tokenização de RWA continuará avançando, mas por caminhos de menor resistência. Títulos de renda fixa, crédito estruturado e commodities tendem a ser tokenizados antes de ações de grandes empresas. O motivo é simples: esses ativos não têm um emissor com poder de veto e interesse ativo em bloquear o processo.
O framework da SEC vai sobreviver?
A “Innovation Exemption” de cinco anos é, por definição, experimental. A SEC projetou o framework com uma válvula de escape para emissores, e as empresas estão usando exatamente esse mecanismo. Isso não invalida o modelo, mas reduz significativamente o universo de ativos disponíveis para negociação.
Se as objeções continuarem no ritmo atual, a OKXICE pode acabar operando com menos da metade dos tickers originalmente propostos. Uma plataforma de ações tokenizadas que não consegue listar Apple, Microsoft, Google ou Goldman Sachs tem um problema de atratividade evidente.
Como discutimos em nossa análise sobre regulação cripto, o desafio não é apenas tecnológico. É político e institucional. A infraestrutura blockchain está pronta para tokenizar praticamente qualquer ativo. O que falta é convencer os donos desses ativos de que o processo é seguro, vantajoso e não cria riscos desnecessários.
Para investidores atentos ao universo cripto, o episódio serve como um lembrete importante: a narrativa de tokenização é poderosa, mas a velocidade de adoção depende menos da tecnologia e mais da disposição dos incumbentes em participar. E, por enquanto, os maiores nomes do mercado americano estão dizendo “não, obrigado”.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


