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Ações tokenizadas enfrentam resistência de big techs e Wall Street

Já são 16 empresas contra a listagem de versões tokenizadas de suas ações. A resistência corporativa expõe os limites do novo framework da SEC para tokenização.

Ações tokenizadas enfrentam resistência de big techs e Wall Street
Foto: Pixabay / Unsplash

O plano de criar uma plataforma de negociação de ações tokenizadas nos Estados Unidos está enfrentando um obstáculo que poucos previram: a resistência das próprias empresas cujas ações seriam tokenizadas. Microsoft, Alphabet e Goldman Sachs se juntaram formalmente à lista de companhias que se opõem à listagem de versões tokenizadas de seus papéis na OKXICE, joint venture entre a exchange cripto OKX e a Intercontinental Exchange, controladora da Bolsa de Nova York.

Além das três gigantes, Qualcomm, Caterpillar, McDonald’s e Western Digital também registraram objeções. Com essas adições, o número total de empresas contrárias à iniciativa saltou de nove para 16 em apenas uma semana. O ritmo de adesão sugere que o desconforto corporativo está longe de se estabilizar.

O que é a OKXICE e como funciona o framework da SEC

A OKXICE anunciou seus planos no início de outubro, buscando operar sob a chamada “Innovation Exemption”, uma autorização experimental da SEC com validade de cinco anos. O framework, apresentado no mês passado, permite que plataformas qualificadas negociem ações americanas tokenizadas por meio de formadores de mercado automatizados e pools de liquidez, mecanismos nativos do universo de finanças descentralizadas.

Na proposta original, a plataforma listou 63 tickers representando 62 empresas. A Alphabet aparecia duas vezes por conta de suas duas classes de ações (GOOG e GOOGL). Das 62 companhias, 15 já se opuseram formalmente. Apenas a Cerebras Systems, que também registrou objeção, estava fora da lista inicial de negociação. Restam 47 empresas sem posicionamento público divulgado.

O detalhe relevante é que o framework da SEC prevê esse direito de objeção. As empresas emissoras podem se manifestar contra a tokenização de suas ações, embora o documento público não detalhe as razões específicas de cada companhia nem a data exata em que cada objeção foi submetida. Essa falta de transparência adiciona incerteza ao processo.

Por que as empresas estão resistindo à tokenização

Embora os motivos formais não tenham sido divulgados, o cenário permite inferências. Para uma empresa como a Microsoft, avaliada em mais de US$ 3 trilhões, a criação de uma versão tokenizada de suas ações levanta questões sobre governança, fragmentação de liquidez e riscos regulatórios. Quem detém um token representando uma ação da Microsoft tem os mesmos direitos de voto que um acionista tradicional? Como se processa a distribuição de dividendos? Qual jurisdição arbitraria disputas?

O Goldman Sachs, por sua vez, ocupa uma posição peculiar nesse debate. O banco tem investido pesado em infraestrutura de ativos digitais e tokenização, mas num modelo controlado e institucional. Ter suas ações negociadas numa plataforma cripto que opera com pools de liquidez descentralizados é uma proposta muito diferente de emitir títulos tokenizados em blockchain privada.

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A presença de nomes como Caterpillar e McDonald’s na lista de objeções mostra que a resistência não se limita ao setor de tecnologia. Empresas industriais e de consumo, cujos acionistas tendem a ser mais conservadores, parecem ainda menos inclinadas a aceitar a tokenização sem garantias robustas.

A lista de opositores e o que ela revela

Antes da atualização mais recente, já haviam se manifestado contra a iniciativa nomes como Broadcom, Verizon, UnitedHealth, CoreWeave, AppLovin, Applied Digital, Rocket Lab e Applied Optoelectronics. O perfil é diverso: big techs, telecomunicações, saúde, infraestrutura de IA e semicondutores.

Essa diversidade setorial é significativa. Como analisamos ao abordar o impacto da regulação nos mercados financeiros, quando empresas de setores completamente diferentes convergem numa mesma posição regulatória, isso costuma indicar preocupações estruturais, e não idiossincrasias de um segmento específico.

O fato de 16 das 62 empresas (cerca de 26%) terem se oposto em menos de duas semanas coloca um ponto de interrogação sobre a viabilidade da plataforma. Se a taxa de objeção continuar nesse ritmo, a OKXICE pode se ver com uma lista de ativos significativamente menor do que o planejado, comprometendo a liquidez e a atratividade da plataforma.

O que está em jogo para o mercado de tokenização

A tokenização de ativos reais, conhecida pela sigla RWA (Real World Assets), é uma das narrativas mais fortes do mercado cripto. A tese é simples: ao representar ativos tradicionais em blockchain, ganha-se eficiência operacional, acesso 24 horas, liquidação instantânea e custos menores. Títulos do Tesouro americano tokenizados, por exemplo, já movimentam bilhões de dólares.

Ações, porém, são um jogo diferente. Diferentemente de um título de renda fixa, ações envolvem direitos de voto, assembleias, ofertas subsequentes, desdobramentos e uma série de eventos corporativos complexos. A infraestrutura para gerenciar tudo isso em blockchain ainda não foi testada em escala. Como exploramos em análises sobre o avanço da tokenização no mercado cripto, a ponte entre finanças tradicionais e descentralizadas ainda exige construção significativa.

O framework de cinco anos da SEC reconhece implicitamente essa imaturidade. É, por definição, experimental. Mas a resistência das emissoras mostra que a experimentação regulatória encontra limites quando envolve ativos de empresas que não pediram para ser cobaias.

Qual o impacto prático para investidores

Para o investidor brasileiro que acompanha o mercado cripto, a principal lição é de cautela com narrativas. A tokenização de ações é tecnologicamente possível e regulatoriamente viável sob o novo framework da SEC. Mas a viabilidade comercial depende da cooperação das empresas emissoras, e essa cooperação claramente não é garantida.

No curto prazo, a resistência corporativa pode desacelerar o desenvolvimento de produtos de ações tokenizadas e redirecionar o foco da tokenização para ativos onde há menos fricção: títulos de dívida, commodities e fundos. No longo prazo, a questão central é se a SEC ajustará o framework para endereçar as preocupações das emissoras ou se as empresas acabarão aceitando a tokenização à medida que a infraestrutura amadurecer.

Com 47 empresas ainda sem posicionamento público, as próximas semanas serão decisivas para entender se a OKXICE terá massa crítica suficiente para operar de forma competitiva, ou se a iniciativa se tornará um caso de estudo sobre os limites de inovar sem o consentimento de todos os envolvidos.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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