Bank of America perde US$ 104 bi em bonds e fica para trás do JPMorgan
Multa bilionária, queda de lucro e o maior prejuízo contábil do setor bancário americano expõem a aposta errada do BofA na pandemia. Entenda o impacto.
O trimestre que expôs a fragilidade do BofA
O Bank of America, segundo maior banco dos Estados Unidos com valor de mercado de US$ 359 bilhões, entregou ao mercado um trimestre que poucos esperavam. O lucro líquido recuou de US$ 8,3 bilhões para US$ 6,9 bilhões na comparação anual. A receita encolheu 17%, para US$ 30 bilhões. As comissões do banco de investimento caíram 11%.
Os números vieram ligeiramente abaixo do consenso, mas o verdadeiro problema estava em outro lugar. Uma multa de US$ 1,2 bilhão por violações relacionadas ao monitoramento de lavagem de dinheiro e descumprimento de sanções pegou o mercado de surpresa. O impacto direto foi de US$ 0,17 por ação no lucro líquido.
A ação do BofA caiu cerca de 5% após a divulgação dos resultados. No acumulado do ano, o papel recua 6%, enquanto o principal rival, o JPMorgan, sobe 3%. Quem acompanha o setor financeiro americano sabe que essa divergência não é nova, mas está se aprofundando.
A multa que ninguém esperava
O Departamento do Tesouro americano foi direto na acusação: o Bank of America teria “terceirizado uma parte fundamental de seus esforços de conformidade regulatória”, priorizando a proteção de receitas em detrimento do cumprimento de normas contra crimes financeiros.
Na teleconferência com analistas, o CEO Brian Moynihan reconheceu a gravidade da situação. Disse que o banco investiu “bilhões de dólares em tecnologia” e destinou “milhares de funcionários ao combate aos crimes financeiros”. Garantiu que os custos para corrigir os problemas já estão incorporados às despesas operacionais.
O discurso é de quem tenta controlar danos. Mas a multa não foi o maior problema do trimestre. O que realmente tem tirado o sono dos investidores é uma aposta feita lá atrás, durante a pandemia, que continua cobrando seu preço.
US$ 104 bilhões em perdas não realizadas: a herança da pandemia
Durante os anos de juros próximos de zero, o Bank of America fez um investimento massivo em títulos do Tesouro americano e em papéis atrelados a hipotecas. Na época, os yields dos Treasuries giravam ao redor de 2% ao ano. A lógica parecia conservadora: alocar capital em ativos seguros, de renda fixa, enquanto o mundo navegava a incerteza pandêmica.
O problema é que os juros subiram. E subiram muito. Quando as taxas sobem, o valor de mercado de títulos prefixados cai. No terceiro trimestre, as perdas não realizadas do BofA nesse portfólio aumentaram em US$ 22 bilhões, totalizando US$ 104 bilhões. É o maior volume de perdas contábeis em bonds de toda a indústria bancária americana.
Em termos técnicos, são perdas “não realizadas”: se o banco mantiver os títulos até o vencimento, não precisa cristalizar o prejuízo. Mas essa classificação contábil esconde um custo real e significativo. O dinheiro está travado em papéis que rendem 2% ao ano, enquanto o mercado paga mais do que o dobro disso. O ciclo de alta de juros nos Estados Unidos transformou o que era uma posição conservadora em uma armadilha de custo de oportunidade.
BofA vs JPMorgan: a diferença que se mede em bilhões
A comparação com o JPMorgan é inevitável e dolorosa para os acionistas do Bank of America. O JPM reportou perdas não realizadas de US$ 26 bilhões no mesmo trimestre. Um quarto do montante do BofA.
A diferença não é acidental. O JPMorgan, sob a gestão de Jamie Dimon, evitou concentrar seu portfólio em títulos de longo prazo com juros baixos durante a pandemia. Dimon chegou a declarar publicamente que não via sentido em travar capital em yields tão comprimidos. A cautela se provou acertada.
Os números de longo prazo amplificam o contraste. Nos últimos cinco anos, a ação do Bank of America subiu 25% no acumulado, uma média de 5% ao ano. No mesmo período, o JPMorgan valorizou 127%. São dois bancos do mesmo setor, do mesmo país, operando no mesmo ambiente regulatório, mas com resultados radicalmente diferentes.
O BofA argumenta que possui “grande flexibilidade de capital”, apontando para recompras de ações e distribuições de dividendos. Mas o portfólio de crédito com baixo rendimento tem funcionado como uma âncora na rentabilidade, gerando uma underperformance consistente frente ao principal concorrente. Para quem investe em ações do setor bancário americano, a lição é clara: gestão de risco de taxa de juros importa tanto quanto crescimento de receita.
O que isso significa para o investidor
A situação do Bank of America não é uma crise de solvência. O banco continua lucrativo, bem capitalizado e com operações diversificadas. Mas é uma aula sobre como decisões de alocação tomadas em ciclos de juros baixos podem perseguir uma instituição por anos.
O custo de oportunidade de US$ 104 bilhões em títulos subvalorizados não aparece como prejuízo no demonstrativo de resultados. Aparece na comparação com quem fez diferente. Aparece no gap de valorização das ações. E aparece na confiança do mercado, que cobra cada vez mais caro por erros estratégicos de longa duração.
A multa de US$ 1,2 bilhão, por sua vez, levanta questões sobre a governança de compliance em grandes bancos. Em um ambiente regulatório cada vez mais rigoroso, terceirizar funções críticas de conformidade é uma decisão que pode sair muito mais cara do que a economia imediata sugere. O episódio se soma a uma tendência global de endurecimento regulatório sobre instituições financeiras, algo que também vem afetando o mercado de criptomoedas.
Brian Moynihan tem pela frente o desafio de navegar um portfólio pesado de bonds até que esses títulos vençam ou que os juros americanos caiam o suficiente para reduzir as perdas marcadas a mercado. Nenhuma das duas coisas depende exclusivamente dele. E é exatamente por isso que o mercado tem punido o BofA com mais rigor do que seus pares.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


