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Finanças

Ouro supera US$ 4.200 mesmo com juros altos: o que sustenta o rali

Metal precioso avança na semana impulsionado por compras recordes do banco central chinês, mesmo com rendimentos reais elevados nos EUA pressionando o custo de oportunidade.

Ouro supera US$ 4.200 mesmo com juros altos: o que sustenta o rali
Foto: Zlaťáky.cz / Unsplash

O contrato mais líquido do ouro encerrou a semana com valorização de 1,54%, cotado a US$ 4.216,30 por onça-troy na Comex. O avanço aconteceu num cenário que, pela lógica convencional, deveria jogar contra o metal: expectativas de juros mais altos nos Estados Unidos e rendimentos reais elevados nos títulos do Tesouro americano.

A prata acompanhou o movimento, com alta semanal de 1,04%, fechando a US$ 61,04 por onça-troy. Mas é o ouro que concentra a atenção dos investidores, justamente porque seu comportamento recente desafia a cartilha tradicional do mercado.

Por que o ouro sobe quando deveria cair

A relação histórica entre ouro e juros reais é inversa. Quando os rendimentos dos títulos americanos sobem, o custo de oportunidade de manter um ativo que não paga dividendos nem cupom aumenta. Em tese, investidores migram para a renda fixa americana, e o ouro perde atratividade.

Essa lógica funcionou por décadas, mas vem sendo testada nos últimos trimestres. A análise da Sucden Financial resume bem o impasse: o ouro está “dividido entre a incerteza geopolítica e fiscal, de um lado, e o custo de oportunidade decorrente dos elevados rendimentos reais, de outro”.

O ponto de atenção técnico está na zona de suporte de US$ 4.100. Enquanto o metal se mantiver acima desse patamar, as perspectivas de curto prazo seguem construtivas, segundo a mesma análise. A consolidação nessa faixa sugere que os compradores institucionais estão dispostos a absorver qualquer pressão vendedora.

Esse comportamento levanta uma questão central para quem acompanha o cenário macro e de investimentos: existem forças estruturais comprando ouro independentemente do nível de juros.

China compra 23 toneladas de ouro em um único mês

A resposta para o paradoxo do ouro passa, em grande parte, por Pequim. O Banco Popular da China (PBoC) adicionou 740 mil onças, equivalentes a 23 toneladas, às suas reservas em setembro. Dados do Commerzbank mostram que essa foi a maior compra mensal do banco central chinês em três anos.

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Mais relevante que o volume em si é a consistência. Com essa aquisição, o PBoC estendeu para 23 meses consecutivos sua sequência de compras de ouro. Não se trata de um movimento oportunista, mas de uma estratégia deliberada de diversificação de reservas internacionais.

Hoje, apenas três instituições possuem reservas de ouro superiores às do PBoC: o Federal Reserve, o Deutsche Bundesbank e o Fundo Monetário Internacional. A China está, sistematicamente, reduzindo sua exposição ao dólar e ampliando a parcela de ouro em suas reservas, como já discutimos em análises anteriores sobre a desdolarização global.

Demanda de bancos centrais muda a dinâmica do mercado

O peso das compras soberanas no mercado de ouro não pode ser subestimado. Quando bancos centrais compram ouro, fazem isso com horizontes de décadas, não de trimestres. Essa demanda estrutural cria um piso de preço que não existia há dez ou quinze anos.

Segundo dados do World Gold Council, bancos centrais ao redor do mundo adquiriram mais de mil toneladas de ouro por ano nos últimos dois anos consecutivos, um patamar que não se via desde os anos 1960. A diferença é que, naquela época, o sistema monetário era lastreado em ouro. Hoje, as compras refletem uma desconfiança crescente na arquitetura financeira baseada exclusivamente no dólar.

Para o investidor brasileiro, esse cenário ganha uma camada adicional de complexidade. Com o real sob pressão e a Selic em patamares elevados, a alocação em ouro compete diretamente com a renda fixa local. Ainda assim, como proteção patrimonial de longo prazo, o metal cumpre um papel que poucos ativos replicam, especialmente em cenários de estresse fiscal e geopolítico.

O que esperar do ouro com petróleo em alta

Outro fator que pesou sobre os preços durante a semana foi o avanço do petróleo. A alta nos preços da commodity energética alimenta expectativas de inflação mais persistente nos Estados Unidos, o que, por sua vez, reforça a tese de juros elevados por mais tempo.

Esse é o cenário que mais desafia o ouro: inflação alta o suficiente para manter o Fed hawkish, mas não tão descontrolada a ponto de gerar fuga para ativos reais. A zona de US$ 4.100 a US$ 4.200 funciona como um termômetro dessa disputa. Se o metal romper com consistência acima de US$ 4.300, o sinal seria de que a demanda soberana está prevalecendo sobre a pressão dos juros.

Para quem investe, o dado mais importante da semana não foi a cotação em si, mas o volume de compra do PBoC. Ele confirma que a tendência de acumulação soberana segue intacta. E enquanto bancos centrais continuarem comprando ouro nesse ritmo, o piso de preço do metal segue subindo, independentemente do que o Fed decidir sobre juros.

A questão prática para o investidor é de posicionamento: o ouro não é aposta de valorização rápida, mas escudo contra a erosão de confiança no sistema monetário vigente. E, a julgar pelo comportamento de Pequim, essa erosão está longe de acabar.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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