Nvidia bate recorde e vale US$ 5,76 tri: o que sustenta o rali da IA
Nasdaq renovou recorde com Nvidia, Microsoft e Meta em alta. Dados fracos de emprego nos EUA reduziram apostas em juros e abriram espaço para o rali de tecnologia.
A Nvidia encerrou o pregão desta segunda-feira com valor de mercado de US$ 5,76 trilhões, um novo recorde. A alta de 2,1% da fabricante de chips de inteligência artificial foi o principal motor para que o Nasdaq também renovasse sua máxima histórica, aos 27.477 pontos. Foi o segundo dia consecutivo de ganhos expressivos para o índice de tecnologia.
O movimento não aconteceu no vácuo. Na sexta-feira, dados de emprego nos Estados Unidos vieram abaixo do esperado, mostrando desaceleração no mercado de trabalho americano. A leitura imediata do mercado foi clara: menos pressão inflacionária significa menos razão para o Federal Reserve subir juros. As apostas em um aumento na reunião de outubro caíram de 70% para 24% em questão de dias, segundo a ferramenta FedWatch da CME.
Por que o dado de emprego importa tanto para as ações de tecnologia
Empresas de crescimento acelerado, como as de inteligência artificial e semicondutores, são especialmente sensíveis ao custo do dinheiro. Juros mais altos encarecem o financiamento e comprimem os múltiplos de valuation que o mercado aceita pagar por lucros futuros. Quando o cenário de aperto monetário perde força, esse grupo de ações tende a reagir com intensidade desproporcional.
Foi exatamente o que aconteceu. Além da Nvidia, a Microsoft subiu 1,5%, enquanto Meta e Tesla avançaram cerca de 2% cada. O S&P 500 ganhou 0,66% e ficou a apenas 0,3% do seu próprio recorde, registrado em agosto. Dez dos onze setores do índice fecharam em alta.
Como analisamos em matérias anteriores sobre o impacto da política monetária no setor de tecnologia, o canal de transmissão entre juros e valuations de big techs é direto. Cada ponto-base a menos na curva futura de juros abre espaço para revisões de preço-alvo.
Nvidia a US$ 5,76 trilhões: sustentável ou euforia?
O número impressiona pela escala. Para colocar em perspectiva, o valor de mercado da Nvidia hoje supera o PIB de qualquer país da América Latina. A empresa se consolidou como a fornecedora essencial da infraestrutura que sustenta o treinamento e a inferência de modelos de inteligência artificial, de data centers corporativos a aplicações de IA generativa.
Mas a pergunta que o investidor deveria se fazer é se os fundamentos acompanham o preço. A resposta, pelo menos no curto prazo, parece positiva. Analistas compilados pela LSEG projetam que os lucros das empresas do S&P 500 no terceiro trimestre tenham crescido mais de 30% em relação ao mesmo período do ano anterior. Boa parte desse salto vem justamente das empresas ligadas à cadeia de IA.
A temporada de resultados começa na próxima semana, com os grandes bancos americanos abrindo as divulgações. Será o primeiro teste concreto para validar ou desinflar as expectativas embutidas nos preços atuais. Como explicamos na nossa cobertura de finanças e mercado, temporadas de balanço costumam ser catalisadores de volatilidade em ambas as direções.
O efeito cascata: Cerebras, OpenAI e o ecossistema de chips
Um movimento lateral merece atenção. A Cerebras Systems, projetista de chips voltados para IA, saltou 9% após Sam Altman, CEO da OpenAI, afirmar publicamente que a empresa é uma “parceira próxima” com “profundo compromisso em expandir as fronteiras da velocidade”. A declaração sinaliza que a corrida por hardware de IA não se limita à Nvidia. O ecossistema está se expandindo e criando oportunidades para competidores e parceiros.
Outro destaque do pregão foi a PTC, que disparou 33% após a francesa Schneider Electric anunciar a aquisição da empresa de software industrial por US$ 22,6 bilhões em dinheiro. O movimento reforça uma tendência de consolidação no setor de software corporativo, com grandes grupos industriais europeus comprando expertise americana em digitalização.
No setor de logística, a C.H. Robinson fechou acordo para adquirir a RXO por US$ 5,8 bilhões, combinação de ações e caixa. As ações da RXO subiram 22%, enquanto a C.H. Robinson caiu 11%, um padrão clássico de M&A onde o mercado precifica o prêmio pago pela compradora.
Petróleo em queda adiciona combustível ao otimismo
Outro fator que ajudou o humor do mercado foi a queda nos preços do petróleo. O aumento das exportações de petróleo bruto do Oriente Médio, combinado com o compromisso dos países do G7 de elevar a oferta global, pressionou as cotações para baixo. Energia mais barata reduz custos para empresas e consumidores, aliviando a inflação sem necessidade de ação do banco central.
Art Hogan, estrategista-chefe de mercado da B. Riley Wealth, resumiu o sentimento: com o calendário de dados econômicos fraco e os balanços a cerca de uma semana, os investidores procuram qualquer sinal positivo. Preços mais baixos de energia preencheram essa lacuna.
Para quem acompanha o setor de tecnologia e IA, o cenário de curto prazo combina três vetores favoráveis: juros possivelmente estáveis, lucros corporativos robustos e custos de energia em declínio. A questão é se esse alinhamento sobrevive à prova dos balanços que começam na semana que vem.
O que observar nos próximos dias
A temporada de resultados do terceiro trimestre será decisiva. Se os lucros confirmarem a projeção de crescimento de 30%, o rali atual ganha fundamento concreto. Se decepcionarem, os múltiplos esticados de empresas como Nvidia podem se tornar vulneráveis a uma correção. O investidor atento deve observar não apenas os números absolutos, mas as projeções futuras que as empresas apresentarem nas teleconferências.
A reunião do Federal Reserve em outubro também permanece no radar. A probabilidade de alta de juros caiu drasticamente, mas não desapareceu. Qualquer dado de inflação que surpreenda para cima antes da reunião pode reacender o debate e mudar o humor rapidamente.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
