Criptomoedas

Treasuries no maior yield desde 2007 derrubam Bitcoin e altcoins

Yield do Treasury de 10 anos bateu 5,11% e puxou Bitcoin para US$ 83.900. Dogecoin caiu 8%. Entenda o mecanismo que conecta juros americanos ao mercado cripto.

Treasuries no maior yield desde 2007 derrubam Bitcoin e altcoins
Foto: https://kaboompics.com/ / Unsplash

O rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano fechou a quarta-feira em 5,11%, uma alta de 15 pontos-base em um único dia. É o maior patamar desde 2007. O efeito sobre ativos de risco foi imediato: o Bitcoin recuou mais de 2% em 24 horas e passou a ser negociado na faixa de US$ 83.900, depois de ter tocado quase US$ 87.300 no início da sessão.

A movimentação não ficou restrita ao Bitcoin. Dogecoin liderou as perdas entre as principais criptomoedas, com queda de cerca de 8%, negociada logo acima dos 9 centavos de dólar. ZEC, XRP e HYPE recuaram entre 5% e 6%. Ether, SOL e BNB caíram entre 2% e 3%. A TRX foi uma das poucas a se manter estável.

O que aconteceu na quarta-feira não foi um evento isolado. Foi uma sequência de dados macroeconômicos que reforçou uma tese incômoda para quem investe em cripto: os juros nos Estados Unidos podem permanecer altos por mais tempo do que o mercado antecipava.

O que disparou a alta dos yields e o impacto no mercado cripto

A primeira peça do quebra-cabeça foi o petróleo. O Brent subiu mais de 4%, para quase US$ 104 o barril, encerrando uma sequência de seis sessões de queda que vinha aliviando preocupações com inflação. Petróleo mais caro alimenta diretamente a expectativa de que os preços ao consumidor podem voltar a pressionar a economia americana.

Logo depois, a pesquisa flash da S&P Global com empresas americanas mostrou que a atividade econômica está crescendo no ritmo mais forte em mais de cinco anos. O índice composto atingiu 58,4, o maior nível desde julho de 2021. É o tipo de dado que, em condições normais, seria celebrado. Mas no contexto atual, ele sinaliza que a economia ainda está quente demais para justificar cortes de juros.

A queda mais acentuada do Bitcoin na sessão de quarta-feira aconteceu justamente nos minutos seguintes à divulgação dessa pesquisa. Não foi coincidência. Como já explicamos em análises anteriores sobre o mercado cripto, o Bitcoin tem reagido cada vez mais como um ativo macro, sensível a mudanças na curva de juros americana.

Leilão fraco de Treasuries ampliou o sinal de alerta

O ponto que selou o movimento veio no fim do dia. O Tesouro americano realizou um leilão de US$ 70 bilhões em títulos de 5 anos, e a demanda foi fraca. O yield de corte ficou em 5,033%, o maior para esse tipo de leilão desde 2006, e cerca de 3 pontos-base acima de onde os títulos estavam sendo negociados antes da venda.

Na prática, isso significa que os compradores exigiram um prêmio extra para absorver a dívida. Quando o mercado pede mais retorno para financiar o governo americano, o efeito cascata atinge todos os ativos de risco. A lógica é simples: por que manter um ativo que não paga nada, como o Bitcoin, quando títulos soberanos dos EUA oferecem mais de 5% ao ano com risco considerado zero?

Esse mecanismo é o mesmo que já pesou sobre o mercado cripto em ciclos anteriores. A diferença agora é a magnitude. Yields acima de 5% em títulos de 10 anos não eram vistos há quase duas décadas. É um patamar que muda a equação de alocação de capital de fundos institucionais e family offices, que representam uma fatia cada vez mais relevante do volume negociado em mercados financeiros tradicionais e, por extensão, em criptomoedas.

O que os dados de opções revelam sobre o curto prazo

Um detalhe técnico relevante: o Bitcoin agora negocia abaixo de US$ 85 mil, patamar onde Mauricio Di Bartolomeo, cofundador da Ledn, sinalizou a existência de um grande bloco de opções de compra (calls) vinculado ao vencimento de aproximadamente US$ 14 bilhões em contratos na Deribit, previsto para sexta-feira.

Quando o preço fica abaixo do strike principal de um vencimento desse tamanho, o efeito tende a ser de pressão vendedora adicional. Os formadores de mercado que venderam essas calls não precisam mais comprar Bitcoin para fazer hedge, o que retira demanda marginal do livro de ofertas. É o tipo de dinâmica que amplifica movimentos de queda em janelas curtas.

Para quem acompanha o mercado de derivativos cripto, como abordamos em nossa cobertura de derivativos e opções, esse vencimento concentrado pode gerar volatilidade relevante até o fim da semana.

Cripto, juros e a disputa por capital global

O cenário macro que se desenha é desafiador para criptomoedas no curto prazo. A combinação de atividade econômica forte, petróleo em alta e yields nos maiores patamares em quase 20 anos cria um ambiente onde o custo de oportunidade para manter posições em ativos sem rendimento fica proibitivo para uma parcela significativa do capital institucional.

Não se trata apenas de Bitcoin. Altcoins com menor liquidez e maior volatilidade tendem a sofrer mais nesse cenário, como ficou evidente com a queda de 8% do Dogecoin. Ativos que dependem de narrativa e fluxo especulativo são os primeiros a perder capital quando os yields sobem.

A grande questão que o mercado terá de responder nas próximas semanas é se essa alta nos yields reflete um novo equilíbrio estrutural, como muitos economistas começam a argumentar, ou se é uma distorção temporária que será corrigida. Se os títulos americanos continuarem oferecendo retornos reais positivos acima de 2%, o mercado cripto precisará de catalisadores próprios muito fortes para competir pela atenção do capital global.

Enquanto isso, o dado mais relevante a observar é o comportamento do próprio mercado de Treasuries. Se os yields continuarem subindo, mesmo com dados de inflação relativamente estáveis, será um sinal de que o problema é fiscal, e não monetário. Isso mudaria completamente a narrativa, potencialmente reacendendo a tese do Bitcoin como proteção contra descontrole fiscal. Mas esse é um argumento de médio prazo. No curto, quem manda é o yield de 5%.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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