Samsung investe US$ 100 mi em reator nuclear da Kairos para o Google
Braço de engenharia da Samsung fará aporte de US$ 70 mi e dará suporte técnico à Kairos Power, que precisa entregar meio gigawatt ao Google até 2035.
A corrida por energia limpa e abundante para alimentar data centers de inteligência artificial acaba de ganhar um novo capítulo. A Samsung C&T, braço de engenharia e construção do grupo sul-coreano, fechou um acordo de até US$ 100 milhões com a Kairos Power, startup americana que desenvolve reatores nucleares de nova geração. O objetivo é viabilizar a construção de um reator demonstrativo de 50 megawatts destinado a abastecer operações do Google.
Do valor total, US$ 70 milhões virão na forma de investimento direto no capital da Kairos. O restante será entregue como serviços de engenharia. A Samsung C&T não é uma novata no setor: acumula participação na construção de cerca de uma dúzia de reatores nucleares ao redor do mundo, o que a torna uma parceira estratégica para uma startup que precisa cumprir prazos agressivos.
Por que o Google quer reatores nucleares próprios
A demanda por eletricidade das big techs disparou nos últimos dois anos. Treinar e rodar modelos de IA generativa consome quantidades massivas de energia, e as fontes renováveis tradicionais, como solar e eólica, enfrentam limitações de intermitência e escala. O Google assinou seu primeiro acordo com a Kairos no segundo semestre de 2024, prevendo a construção de reatores capazes de gerar cerca de meio gigawatt de eletricidade até 2035.
Para colocar em perspectiva, 500 megawatts são suficientes para alimentar vários data centers de grande porte simultaneamente. É o tipo de capacidade que permite ao Google planejar a expansão de infraestrutura de IA sem depender exclusivamente da rede elétrica convencional. Como discutimos em nossa cobertura sobre o impacto da IA na infraestrutura global, a competição por megawatts está se tornando tão estratégica quanto a competição por chips.
Hermes 2: o reator que nunca foi construído em escala comercial
A Kairos Power está construindo dois reatores em Oak Ridge, no Tennessee. O primeiro, chamado Hermes 1, é um demonstrador de baixa potência que servirá para refinar o design comercial da empresa. O segundo, Hermes 2, será o primeiro reator em escala comercial da startup e deve começar a operar em 2030. Sua produção de 50 megawatts contará como a primeira entrega dentro do contrato com o Google.
O que torna a tecnologia da Kairos diferente é o design. O Hermes 2 será um reator refrigerado por sais de fluoreto em alta temperatura, um conceito teórico discutido há décadas na engenharia nuclear, mas que nunca saiu do papel em escala comercial. Sais de fluoreto têm pontos de ebulição elevados, o que mantém os níveis de pressão internos baixos. Na prática, isso reduz significativamente o risco de explosões por sobrepressão em caso de falha de componentes.
A startup também adota o combustível TRISO, uma tecnologia relativamente nova que encapsula microssementes de urânio em camadas de cerâmica e carbono, que por sua vez são inseridas em esferas do tamanho de bolas de bilhar. Esse arranjo é projetado para impedir derretimentos nucleares, um dos maiores temores associados à energia atômica convencional.
O desafio do prazo e o papel da Samsung
A Kairos recebeu autorização da Comissão Regulatória Nuclear dos Estados Unidos para construir os reatores em novembro de 2024. Com a meta de operação comercial em 2030, a startup tem cerca de cinco anos para entregar seu primeiro reator funcional. No setor nuclear, esse é um cronograma acelerado, mas considerado viável por especialistas.
O problema está no que vem depois. Para cumprir o contrato total com o Google de meio gigawatt até 2035, a Kairos precisará construir reatores adicionais em ritmo ainda mais rápido. É exatamente aí que a experiência da Samsung C&T se torna decisiva. Com histórico comprovado em projetos nucleares de grande escala, a construtora sul-coreana pode ajudar a comprimir cronogramas que tipicamente levam uma década ou mais.
A parceria também sinaliza algo maior: a entrada de conglomerados industriais asiáticos na cadeia de fornecimento de energia para IA ocidental. Como analisamos ao tratar da corrida tecnológica entre gigantes globais, as alianças entre big techs americanas e construtoras asiáticas devem se intensificar à medida que a demanda por infraestrutura cresce.
O que isso significa para o mercado de energia e tecnologia
O investimento da Samsung na Kairos não é um caso isolado. Empresas como Microsoft, Amazon e Meta também têm explorado acordos nucleares para garantir energia confiável para seus centros de dados. A Microsoft, por exemplo, assinou um acordo para reativar a usina de Three Mile Island. A Amazon investiu em projetos de pequenos reatores modulares. O padrão é claro: a IA está puxando o setor nuclear de volta ao centro do debate energético global.
Para investidores e analistas, o ponto de atenção está na velocidade de execução. Reatores nucleares de nova geração ainda não provaram viabilidade comercial. Se a Kairos conseguir entregar o Hermes 2 no prazo, será o primeiro reator de sais de fluoreto a operar comercialmente no mundo. Se atrasar, o Google terá que buscar alternativas ou ajustar seus planos de expansão de IA.
Outro ponto relevante é o efeito cascata sobre a regulação. O fato de a Comissão Regulatória Nuclear americana ter aprovado a construção em tempo relativamente curto sugere que há disposição política para facilitar a expansão nuclear voltada a data centers. Como abordamos em nossa seção de finanças, o fluxo de capital institucional para startups de energia limpa voltadas à IA já ultrapassou US$ 10 bilhões nos últimos 18 meses.
Quem ganha e quem arrisca nessa equação
O Google ganha previsibilidade energética e independência da rede elétrica convencional. A Kairos ganha capital e expertise para executar um projeto sem precedentes. A Samsung ganha acesso a um mercado de construção nuclear que pode movimentar centenas de bilhões de dólares nas próximas décadas.
O risco, como sempre no nuclear, está na execução. Atrasos, estouros de orçamento e barreiras regulatórias são endêmicos no setor. Mas o volume de capital fluindo para essas startups sugere que, desta vez, a urgência por energia para IA pode ser o catalisador que a indústria nuclear esperava há décadas.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
