Criptomoedas

XRP desaba 10% após fracasso do Clarity Act no Senado dos EUA

Senado americano barrou o projeto de regulação cripto por 49 a 50 votos. XRP liderou as perdas entre os principais ativos digitais e ações do setor despencaram.

XRP desaba 10% após fracasso do Clarity Act no Senado dos EUA
Foto: RDNE Stock project / Unsplash

O Senado dos Estados Unidos enterrou, ao menos por agora, o Clarity Act, o projeto de lei que pretendia criar um marco regulatório abrangente para o mercado de criptomoedas no país. A votação processual terminou em 49 a 50, muito abaixo dos 60 votos necessários para que a legislação avançasse ao debate formal. O resultado derrubou o mercado cripto com força desigual, e o XRP foi o grande perdedor.

O token da Ripple recuou quase 10%, negociado a US$ 1,30 nas primeiras horas da sessão asiática de quarta-feira. O ether caiu cerca de 5%, para US$ 2.410, enquanto solana cedeu 5% para pouco acima de US$ 97 e dogecoin perdeu proporção semelhante. O bitcoin recuou perto de 3%, operando na faixa dos US$ 76 mil.

Por que o Clarity Act foi rejeitado no Senado

O projeto acumulava mais de 600 páginas de texto negociado entre as duas alas do Congresso. O ponto de ruptura, no entanto, não foi técnico. Foi político. A cláusula que travou a aprovação dizia respeito a regras éticas que impediriam altos funcionários do governo de manter interesses comerciais em criptoativos.

A senadora democrata Elissa Slotkin, de Michigan, declarou que votou contra porque “as provisões éticas do projeto são simplesmente muito fracas”. A parlamentar citou nominalmente o presidente Donald Trump, seus filhos e membros do gabinete como beneficiários diretos de negócios no setor cripto.

Slotkin também levantou preocupações sobre a capacidade operacional da CFTC (Commodity Futures Trading Commission) para implementar a lei. Segundo ela, a agência não tem equipe suficiente para absorver as novas responsabilidades previstas no texto. Além disso, a senadora apontou lacunas no combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento de terrorismo.

O fato de republicanos terem votado contra o próprio projeto sinaliza que a questão ética transcendeu linhas partidárias. Como analisamos em matérias anteriores sobre o avanço regulatório nos EUA, a polarização política em torno do tema cripto aumentou significativamente nos últimos meses.

Ações cripto sofreram mais que os tokens

O impacto no mercado de ações ligadas ao setor foi ainda mais severo do que nos próprios criptoativos. A Coinbase recuou quase 9%, fechando a US$ 174,42. A Circle, emissora da stablecoin USDC, caiu mais de 9%, para US$ 88,26.

Galaxy Digital perdeu 8% e Gemini cedeu 7%. Bullish e Riot Platforms recuaram 5% cada. A eToro caiu 4%, enquanto Robinhood, MARA Holdings, CleanSpark, IREN e Core Scientific registraram perdas entre 3% e 4%.

A lógica por trás da assimetria é direta: empresas do setor dependem de clareza regulatória para escalar seus negócios nos Estados Unidos. Sem o Clarity Act, a incerteza jurídica que paira sobre exchanges, custodiantes e emissores de stablecoins permanece intacta. Para investidores institucionais, isso reduz a disposição de alocar capital nessas companhias.

Esse cenário reforça a análise que publicamos sobre o peso da regulação nas decisões de investimento em ativos digitais. Sem regras claras, o risco regulatório é precificado como desconto permanente.

O que muda agora para o mercado cripto

Com o Clarity Act fora de pauta, o protagonismo regulatório volta para as agências federais. A SEC (Securities and Exchange Commission) já trabalha em sua proposta de framework chamada Reg Crypto, além de regras para títulos tokenizados. Essa se torna, na prática, a única via disponível para o tipo de segurança jurídica que o setor buscava no Congresso.

A diferença é relevante: uma regulação via agência pode ser alterada, revertida ou contestada judicialmente com muito mais facilidade do que uma lei aprovada pelo Legislativo. Para o mercado, isso significa que qualquer avanço regulatório será mais frágil e mais sujeito a ciclos políticos.

No campo eleitoral, comitês de ação política do setor cripto, como o Fairshake, agora precisam decidir como tratar os senadores que votaram contra o projeto antes das eleições de novembro. Um novo Congresso toma posse em janeiro de 2027, e o tema pode voltar à mesa com composição legislativa diferente.

Fed entra na equação em momento delicado

O timing do revés legislativo é particularmente ruim. O Federal Reserve decide sobre a taxa de juros ainda nesta quarta-feira, com operadores inclinados a precificar uma alta de 0,25 ponto percentual. A combinação de aperto monetário com o colapso da tentativa legislativa cria um ambiente de aversão a risco dupla para o mercado cripto.

O bitcoin já vinha pressionado e operava na região dos US$ 76 mil, nível que não visitava há semanas. Como discutimos em nossa cobertura sobre o comportamento do bitcoin em ciclos de aperto monetário, o ativo tende a sofrer mais quando fatores macro e setoriais convergem negativamente.

BNB e tron foram os mais resilientes entre os grandes tokens, cedendo cerca de 1% cada. Zcash e o token HYPE da Hyperliquid recuaram perto de 4%.

O que o investidor deve observar daqui em diante

Para quem acompanha o mercado de criptoativos, três desdobramentos merecem atenção nas próximas semanas. Primeiro, o andamento do Reg Crypto na SEC, que agora carrega um peso político muito maior. Segundo, a reação dos PACs cripto na temporada eleitoral, o que pode redefinir alianças no Congresso. Terceiro, o comportamento do bitcoin na faixa dos US$ 75 mil a US$ 78 mil, uma região técnica que historicamente funciona como suporte ou acelerador de queda.

O fracasso do Clarity Act não significa o fim da regulação cripto nos Estados Unidos. Significa que ela vai acontecer de forma fragmentada, por agências, e não por legislação unificada. Para o mercado, isso implica um período prolongado de incerteza, com janelas de oportunidade mais curtas e volatilidade estruturalmente mais alta.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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