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Data centers dos EUA podem consumir mais gás que Alemanha e Japão juntos

Corrida pela inteligência artificial está transformando os EUA no maior consumidor de gás natural do planeta. Projeção dobrou em apenas nove meses.

Data centers dos EUA podem consumir mais gás que Alemanha e Japão juntos
Foto: panumas nikhomkhai / Unsplash

A corrida global pela inteligência artificial está cobrando um preço que poucos antecipavam. Até 2035, os data centers americanos devem consumir cerca de 18 bilhões de pés cúbicos de gás natural por dia, volume superior ao que Alemanha e Japão consomem juntos. O dado vem de um relatório da BloombergNEF e representa quase o dobro da projeção feita pela mesma organização apenas nove meses atrás.

A escalada é tão abrupta que os data centers devem se tornar o segundo maior vetor de crescimento na demanda por gás natural nos EUA, atrás apenas das exportações de gás natural liquefeito (LNG). E mesmo considerando que nem todos os projetos anunciados serão concluídos, os números impressionam.

Big techs estão construindo suas próprias usinas a gás

Meta, Microsoft, Google e Amazon já anunciaram planos para construir usinas de gás natural diretamente nos terrenos dos seus data centers, dispensando a rede elétrica convencional. Esses projetos de geração on-site devem consumir entre 2,9 bilhões e 3,4 bilhões de pés cúbicos de gás por dia até 2035. Para efeito de comparação, esse volume é equivalente a tudo o que os data centers americanos consomem hoje, somando geração própria e consumo via rede elétrica.

Mas a geração on-site é apenas uma fração do problema. Segundo a BloombergNEF, os data centers conectados à rede elétrica devem gerar uma demanda adicional de 15 bilhões de pés cúbicos diários de gás natural para o setor elétrico até meados da próxima década. Isso representa cinco vezes mais crescimento de demanda do que todos os outros setores conectados à rede, somados.

Como já analisamos ao tratar da transformação digital em larga escala, a infraestrutura por trás da IA exige investimentos que vão muito além de chips e softwares. A conta de energia é, cada vez mais, o gargalo real.

Preço do gás natural pode disparar e afetar consumidores comuns

A estabilidade nos preços do gás natural nos últimos anos sustentou boa parte do boom de construção de data centers. Mas analistas da Noreva alertam que essa calmaria pode ser ilusória. O impacto combinado do crescimento dos data centers e das exportações de LNG pode provocar uma escalada de preços difícil de absorver.

As big techs, com seus balanços bilionários, provavelmente conseguiriam lidar com gás mais caro. O mesmo não se pode dizer dos consumidores residenciais e industriais que dependem da mesma rede elétrica. Se os preços subirem de forma consistente, a conta de luz de milhões de americanos também sobe.

Esse é um ponto que conecta diretamente tecnologia e finanças. Como discutimos em matérias sobre o impacto macroeconômico de tendências tecnológicas, decisões de infraestrutura de meia dúzia de empresas podem reverberar no bolso de populações inteiras.

O custo ambiental é gigantesco

Segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA), cada pé cúbico de gás natural queimado libera o equivalente a 60 gramas de CO₂ na atmosfera, considerando extração, processamento e distribuição. Com a demanda adicional projetada, os data centers americanos passariam a gerar 1 milhão de toneladas métricas a mais de gases de efeito estufa por dia.

Para colocar em perspectiva, essa emissão adicional diária equivale a cerca de 12% de todas as emissões de gases de efeito estufa dos EUA nos níveis atuais. É um incremento extraordinário vindo de um único setor da economia.

O paradoxo é evidente. As mesmas empresas que investem em metas de carbono zero e publicam relatórios ambientais detalhados estão, ao mesmo tempo, construindo a infraestrutura mais intensiva em combustíveis fósseis da última década. A narrativa de sustentabilidade das big techs enfrenta seu teste de realidade mais difícil.

O que isso significa para o mercado e para o investidor

A explosão de demanda energética dos data centers cria oportunidades e riscos em cascata. Do lado das oportunidades, empresas de gás natural, fornecedores de turbinas e companhias de infraestrutura elétrica tendem a se beneficiar. Do lado dos riscos, o aumento dos custos de energia pode comprimir margens das próprias big techs no longo prazo, especialmente se regulações ambientais mais rígidas entrarem em cena.

Para quem acompanha o setor de criptomoedas, a dinâmica também é relevante. A mineração de Bitcoin já enfrentou pressões semelhantes relacionadas ao consumo energético, e a narrativa que cerca os data centers de IA pode reacender esse debate. Como exploramos em análises sobre o consumo energético do ecossistema cripto, a competição por energia barata está se tornando um fator determinante para múltiplos setores.

O fato de a projeção da BloombergNEF ter praticamente dobrado em nove meses revela algo mais profundo: o mercado ainda está subestimando a velocidade da expansão da IA. Se a tendência de revisões para cima continuar, os números de 2035 podem ser ainda maiores do que os 18 bilhões de pés cúbicos diários projetados agora.

A corrida pela inteligência artificial está redesenhando não apenas o setor de tecnologia, mas a matriz energética de países inteiros. A questão que o mercado precisa responder não é se essa demanda vai crescer, mas quem vai pagar a conta.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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