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Coreia do Sul alerta para riscos de ETFs alavancados de IA

BC sul-coreano aponta que ETFs alavancados vinculados a big techs de IA elevaram a volatilidade no mercado local. Bolsas asiáticas fecharam mistas nesta quinta.

Coreia do Sul alerta para riscos de ETFs alavancados de IA
Foto: Alexander London / Unsplash

O Banco Central da Coreia do Sul publicou nesta quinta-feira (10) um relatório que acende um sinal amarelo para um fenômeno que se espalha por mercados ao redor do mundo: a corrida de investidores de varejo por ETFs alavancados ligados ao setor de inteligência artificial. Segundo a autoridade monetária, o aumento expressivo desses investimentos provocou volatilidade significativa no mercado de ações doméstico.

O alerta veio um dia depois de o índice Kospi ter subido 1,4%. Nesta quinta, o índice devolveu parte dos ganhos e fechou em queda de 0,25%, aos 7.033,92 pontos. Ações de referência no setor de semicondutores, como SK Hynix e Samsung Electronics, recuaram 0,16% e 0,19%, respectivamente.

O pano de fundo é global, mas a intensidade do problema parece particularmente aguda na Coreia do Sul, onde investidores de varejo têm histórico de apostas concentradas em temas de mercado, fenômeno que ficou conhecido como o movimento dos “ants” (formigas) durante a pandemia.

O que são ETFs alavancados e por que preocupam reguladores

ETFs alavancados são fundos negociados em bolsa que utilizam derivativos para amplificar o retorno diário de um índice ou ativo de referência. Um ETF alavancado 2x sobre uma ação de tecnologia, por exemplo, busca entregar o dobro da variação diária daquele papel. Na subida, o ganho é amplificado. Na queda, a perda também.

O problema é que esses produtos não foram desenhados para posições de longo prazo. O efeito de composição diária corrói retornos ao longo do tempo, especialmente em mercados voláteis. Um ativo que sobe 10% e cai 10% no dia seguinte não volta ao ponto de partida em um ETF alavancado. Como já abordamos em análises anteriores sobre mercados financeiros, esse tipo de instrumento funciona como ferramenta tática, não como estratégia de investimento.

Com o boom de inteligência artificial impulsionando ações de semicondutores e big techs nos últimos dois anos, investidores sul-coreanos passaram a concentrar posições nesses ETFs, muitas vezes sem compreender o mecanismo de alavancagem diária. O BC sul-coreano identificou que esse comportamento passou a distorcer a formação de preços no mercado doméstico.

BC sul-coreano sinaliza novas altas de juros

Além do alerta sobre ETFs, o Banco Central da Coreia do Sul reiterou que avaliará o momento e o ritmo de novos aumentos nas taxas de juros. A decisão será guiada por três variáveis: inflação, evolução da economia e condições de estabilidade financeira.

A menção a “estabilidade financeira” não é casual. Quando um banco central destaca esse pilar ao lado de inflação e crescimento, geralmente está sinalizando que excessos especulativos estão no radar da política monetária. É o tipo de linguagem que antecede medidas macroprudenciais, como limites para exposição de varejo a produtos alavancados ou aumento de margens de garantia.

No Japão, o Banco do Japão (BoJ) também reforçou seu tom contracionista. O membro do conselho Kazuyuki Masu afirmou que o BoJ continuará a subir sua taxa básica para evitar que a inflação ultrapasse a meta de 2%. As expectativas do mercado apontam para um novo aumento de juros já na próxima semana, algo que até dois anos atrás seria impensável no país que praticamente inventou os juros zero. O Nikkei, mesmo assim, subiu 0,2%, fechando a 65.270,95 pontos.

Bolsas asiáticas fecham mistas com pressão na China e em Hong Kong

O cenário na região foi de cautela generalizada. Na China continental, o Xangai Composto recuou 0,4%, para 3.934,40 pontos, enquanto o Shenzhen Composto cedeu 0,95%. Em Hong Kong, o Hang Seng caiu 1,3%, para 24.954,47 pontos. Taiwan também fechou no vermelho, com o Taiex perdendo 0,5%.

Na Oceania, a bolsa australiana teve a pior performance do dia entre os principais mercados da região, com o S&P/ASX 200 recuando 1,03%.

O desempenho misto reflete um ambiente em que o entusiasmo com inteligência artificial começa a encontrar resistência por parte de reguladores e bancos centrais. A narrativa de que IA é transformadora para a economia continua intacta, mas os instrumentos financeiros criados para surfar essa onda estão gerando efeitos colaterais que autoridades monetárias não podem ignorar.

O que isso significa para investidores brasileiros

O movimento sul-coreano tem paralelo direto com o que acontece no Brasil. A B3 listou nos últimos meses uma série de ETFs temáticos e BDRs de ETFs internacionais ligados a inteligência artificial, semicondutores e big techs. Embora a maioria não seja alavancada, o princípio de concentração de risco é o mesmo.

Investidores que alocam parcela desproporcional do portfólio em um único tema, por mais promissor que seja, ficam expostos a correções setoriais que podem ser severas. O próprio setor de semicondutores, como discutimos em coberturas recentes, enfrenta questões de excesso de capacidade e tensões geopolíticas que adicionam camadas de risco.

O alerta do BC sul-coreano serve como lembrete: a tese de investimento em IA pode estar correta sem que os instrumentos escolhidos para se expor a ela sejam adequados. A HD Hyundai Heavy Industries, por exemplo, anunciou investimento de US$ 800 milhões em motores de energia e pequenos reatores nucleares para suprir data centers de IA. Apesar do fundamento sólido, suas ações caíram 3,8% no pregão. O mercado nem sempre premia a narrativa no curto prazo.

Para quem investe a partir do Brasil, a principal lição é de disciplina: entender o que se compra, evitar alavancagem em produtos de longo prazo e não confundir uma megatendência com uma aposta segura. São coisas diferentes.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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