Apple perde espaço e Micron lidera entre ações globais
A pressão do custo de memória para IA tirou a Apple das carteiras recomendadas em setembro e colocou a Micron no topo. Entenda o que mudou.
Setembro começou com uma reorganização relevante nas carteiras de ações internacionais. A Apple, que figurava entre as empresas mais indicadas por analistas, saiu das recomendações. No lugar, quem assumiu a liderança foi a Micron, fabricante de chips de memória que se tornou peça-chave na cadeia de suprimentos dos data centers voltados à inteligência artificial.
O movimento não é aleatório. Ele reflete uma mudança estrutural na forma como o mercado avalia quem ganha e quem perde com a expansão da infraestrutura de IA. O custo da memória usada em servidores subiu, separando as empresas que vendem o componente daquelas que precisam comprá-lo em escala. A Apple está no segundo grupo.
Por que a Apple perdeu espaço nas recomendações
A saída da Apple das carteiras recomendadas foi atribuída a um fator específico: a pressão do preço da memória sobre a margem do próximo iPhone. Com o custo da memória de alta largura de banda (HBM) em patamar elevado, a fabricação de dispositivos que dependem desse insumo fica mais cara, comprimindo a rentabilidade.
É uma dinâmica que o mercado vinha observando há meses. Como já analisamos em matérias sobre o avanço das big techs no setor de IA, a demanda por componentes cresceu em ritmo muito superior à capacidade de produção. Para empresas que compram esses componentes, o impacto aparece direto na margem operacional.
Não se trata de uma crise na Apple. A empresa segue com fundamentos sólidos e ecossistema robusto. Mas, no jogo de alocação relativa, analistas preferiram migrar para quem está do lado vendedor dessa equação.
Micron e a tese da memória subofertada
A Micron aparece em seis carteiras recomendadas, todas com a mesma tese central. O mercado de memória segue subofertado, e essa condição deve durar mais do que o ciclo habitual. A razão é simples: a oferta não cresce na velocidade da demanda.
A memória HBM, usada nos aceleradores de inteligência artificial, é vendida a um preço cerca de três vezes superior ao da memória tradicional. Isso melhora o mix de produtos e a rentabilidade da companhia de forma significativa. A capacidade de HBM da Micron para o ano corrente já está comprometida, segundo as avaliações predominantes.
Mesmo após valorização recente, ao menos uma das carteiras aumentou a posição no papel, argumentando que a ação ainda negocia abaixo da média histórica frente aos lucros projetados. O lançamento de novas gerações de chips deve sustentar a demanda nos próximos trimestres.
Quem mais aparece entre as ações globais recomendadas
A Micron lidera, mas o restante do ranking também conta uma história coerente. As posições se concentraram em empresas que fornecem o que a expansão dos data centers consome, deixando de lado elos mais distantes da infraestrutura.
A Alphabet, controladora do Google, aparece sustentada pelo Google Cloud, cuja receita cresceu 82% no segundo trimestre com expansão de margem operacional. A adoção corporativa de inteligência artificial é o motor principal. No mercado de buscas, a participação segue em torno de 90%, mesmo diante do avanço dos modelos de linguagem. Como abordamos em nossa cobertura sobre a corrida da IA entre big techs, o YouTube também ganha relevância em publicidade e assinaturas.
A Amazon entra na lista pela AWS, não pelo varejo. A receita da divisão de nuvem avançou 36,8% no trimestre, com margem operacional acima de 39%. A publicidade digital e o streaming complementam, mas a avaliação predominante é de que o valor da companhia está concentrado nos negócios de maior margem.
A Microsoft segue ancorada no Azure, com crescimento de 43% na receita, o melhor ritmo desde 2022. O capex anunciado para o próximo exercício indica continuidade dos investimentos em infraestrutura de IA. Em contrapartida, o potencial de valorização estimado pelo consenso é o menor entre as seis ações mais indicadas.
Nvidia e a dominância nas GPUs para data centers
A Nvidia mantém participação em torno de 80% no fornecimento de GPUs para data centers. A receita do segmento cresceu 117% no último trimestre, com mais da metade vinda das grandes provedoras de nuvem. A empresa projeta expansão de 70% da receita no próximo ano fiscal.
A margem bruta se manteve em 75% mesmo com pressão de custos, um número que reforça o poder de precificação da companhia. O consenso de mercado trabalha com potencial de valorização próximo de 46%, o maior entre as empresas mais recomendadas. Como discutimos na seção de finanças do portal, a demanda por capacidade de processamento continua superando a oferta disponível.
Petróleo e juros: os fatores macro no radar
Uma surpresa no ranking é a presença de uma petroleira entre as seis ações mais recomendadas. A tese combina desconto da ação frente à própria média dos últimos dois anos, ambiente geopolítico que tende a elevar o prêmio de risco no preço do petróleo e margens de refino em patamar elevado por oferta global restrita.
No ambiente macroeconômico, setembro trouxe uma mudança de humor. O discurso do presidente do Federal Reserve em Jackson Hole, no fim de agosto, reabriu a possibilidade de um novo aumento de juros na decisão do dia 16. O relatório de emprego divulgado na primeira semana do mês reforçou essa leitura.
Agosto havia sido favorável para quem carrega ativo dolarizado. O índice de BDRs subiu 6,04%, o segundo melhor desempenho entre os índices de renda variável da B3 no mês, atrás apenas do índice de ouro. A perspectiva de juros mais altos nos Estados Unidos, contudo, adiciona cautela ao cenário para os próximos meses.
O que isso significa para o investidor
A mensagem das carteiras de setembro é clara: o mercado está precificando a cadeia de valor da inteligência artificial de forma cada vez mais granular. Não basta ser uma big tech. O que importa agora é a posição exata de cada empresa na cadeia, se ela vende ou compra os insumos que alimentam os data centers.
Para o investidor brasileiro que acompanha BDRs ou fundos internacionais, o recado prático é prestar atenção à composição setorial da carteira. A concentração em fornecedores de infraestrutura de IA se intensificou, e a rotação pode continuar nos próximos meses conforme novos dados de demanda por memória e capacidade de processamento forem divulgados.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
