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Nscale busca US$ 3,5 bi antes de IPO e redefine IA na Europa

Startup britânica de infraestrutura de IA, com apenas dois anos de vida, negocia aporte recorde antes de abrir capital. Nvidia e Anthropic sustentam a tese.

Nscale busca US$ 3,5 bi antes de IPO e redefine IA na Europa
Foto: panumas nikhomkhai / Unsplash

Uma startup britânica de infraestrutura de inteligência artificial fundada há apenas dois anos está negociando um financiamento de US$ 3,5 bilhões antes de abrir capital na bolsa. A Nscale, que já levantou mais de US$ 1,2 bilhão em rodadas privadas, pode realizar seu IPO ainda neste mês. O movimento ilustra algo mais amplo do que uma operação isolada: a corrida global por capacidade computacional se tornou o eixo central da economia de IA.

A operação em negociação envolve duas frentes. A primeira é a venda de US$ 1,5 bilhão em notas conversíveis, um tipo de dívida que pode ser transformada em participação acionária no futuro, destinada a um grupo de investidores institucionais. A segunda é um financiamento adicional de US$ 2 bilhões da Nvidia, que já havia participado da rodada Série B da empresa em março deste ano.

A trajetória relâmpago da Nscale no mercado de IA

A velocidade de crescimento da Nscale é, por si só, um dado relevante. A rodada Série A, fechada em dezembro de 2024, captou US$ 155 milhões. Poucos meses depois, a Série B, liderada pelo fundo de investimentos Aker, levantou US$ 1,1 bilhão. A própria empresa classificou o aporte como a maior rodada Série B da história europeia.

Agora, com a possibilidade de um IPO iminente e um financiamento pré-abertura de US$ 3,5 bilhões, a Nscale se posiciona como uma das empresas de infraestrutura de IA mais capitalizadas do continente. Para contextualizar, companhias europeias de tecnologia raramente atingem esse patamar de captação em estágio tão inicial. O cenário de startups de tecnologia na Europa historicamente ficou atrás do Vale do Silício em volume de capital, mas o setor de IA tem mudado essa dinâmica.

O fator que mais chama a atenção dos investidores é a relação comercial com grandes players. A Nscale firmou recentemente um contrato com a Anthropic, desenvolvedora do modelo Claude, avaliado em aproximadamente US$ 45 bilhões. Segundo informações de mercado, a empresa tem comunicado a potenciais investidores uma receita projetada de cerca de US$ 103 bilhões, baseada em contratos de locação de infraestrutura já assinados com clientes.

Receita projetada versus receita real: o que o número de US$ 103 bilhões significa

É fundamental entender a natureza desse número. Os US$ 103 bilhões não representam vendas correntes. Trata-se de uma projeção baseada em contratos de longo prazo firmados com clientes que alugam capacidade computacional da Nscale. Em outras palavras, é receita contratada, não faturada.

Esse tipo de métrica é comum em empresas de infraestrutura que operam com contratos plurianuais, como provedoras de data centers e operadoras de nuvem. A Amazon Web Services e a Microsoft Azure, por exemplo, também reportam valores de backlog contratual que superam em muito a receita trimestral. A diferença é que essas gigantes já possuem décadas de operação e bilhões em receita recorrente comprovada.

Para uma startup de dois anos, a distância entre receita contratada e receita efetivamente reconhecida é um risco que investidores precisam ponderar. No entanto, o envolvimento da Nvidia como investidora e potencial financiadora de US$ 2 bilhões funciona como uma espécie de selo de validação técnica. Como analisamos em matérias anteriores sobre o domínio da Nvidia no mercado de chips de IA, a fabricante de GPUs tem sido seletiva ao aportar capital em empresas de infraestrutura, escolhendo parceiros que ampliam a demanda por seus processadores.

Por que a infraestrutura de IA virou a nova corrida do ouro

O crescimento da Nscale é sintoma de uma transformação estrutural. A capacidade computacional se tornou o que analistas do setor chamam de “moeda competitiva” da era da inteligência artificial. Empresas como OpenAI, Anthropic, Google DeepMind e Meta precisam de volumes cada vez maiores de processamento para treinar e operar seus modelos de linguagem.

Isso criou uma cadeia de valor onde provedores de infraestrutura se tornaram tão estratégicos quanto os próprios desenvolvedores de modelos. A analogia histórica mais próxima é a corrida do ouro na Califórnia: quem mais lucrou não foram os garimpeiros, mas os vendedores de pás e picaretas. No ecossistema de IA, as “pás” são GPUs, data centers e capacidade de nuvem.

O contrato de US$ 45 bilhões com a Anthropic é emblemático desse fenômeno. A desenvolvedora do Claude precisa garantir acesso a poder computacional de longo prazo para competir com a OpenAI, e está disposta a travar compromissos bilionários para isso. O volume de investimentos em inteligência artificial segue em aceleração, com projeções de que os gastos globais com infraestrutura de IA ultrapassem US$ 300 bilhões anuais nos próximos anos.

O que o IPO da Nscale sinaliza para o mercado

Se concretizado ainda neste mês, o IPO da Nscale será um dos primeiros grandes testes de apetite do mercado público por empresas de infraestrutura de IA em 2025. Diferentemente de companhias de software ou de modelos de linguagem, a Nscale opera na camada de hardware e serviços de computação, o que implica margens diferentes e necessidades de capital mais intensivas.

O timing é relevante. O mercado de IPOs de tecnologia vive um momento de recuperação gradual após dois anos de retração. Empresas que conseguem demonstrar contratos robustos e crescimento acelerado têm encontrado janelas favoráveis para abertura de capital. O apoio da Nvidia e o backlog contratual expressivo podem funcionar como argumentos de convencimento para investidores de mercado público.

Para quem acompanha o setor, o caso da Nscale oferece uma lição clara: na economia de IA, quem controla a infraestrutura controla o jogo. A pergunta que resta é se o mercado público vai precificar essa tese com a mesma generosidade que os investidores de venture capital têm demonstrado.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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