Agentes de IA vão fazer compras por você: como Visa, Mastercard e Elo se preparam
Bandeiras de cartão investem em infraestrutura para que robôs de IA façam compras sozinhos. O mercado pode movimentar até US$ 5 trilhões até 2030.
A história dos pagamentos é feita de transições lentas. Foram necessárias décadas para o cartão de crédito aposentar o papel-moeda como protagonista da carteira do consumidor. O chip levou quase dez anos para substituir a tarja magnética em escala global. Agora, um novo ator promete acelerar esse ciclo: os agentes de inteligência artificial.
O conceito é direto. Em vez de o consumidor abrir um navegador, comparar preços em diferentes lojas, preencher dados de pagamento e confirmar a transação, um assistente de IA faz tudo isso de forma autônoma. A compra acontece sem intervenção humana, ou quase sem ela.
As três maiores bandeiras em operação no Brasil, Visa, Mastercard e Elo, já iniciaram movimentos concretos para se posicionar nesse novo ecossistema. A disputa não é apenas por market share, mas pela relevância estrutural em um modelo que pode redefinir toda a cadeia de pagamentos.
O que é o comércio agêntico e por que ele importa agora
Comércio agêntico é o termo que descreve transações comerciais executadas por agentes de IA em nome de um usuário. Diferente de um chatbot que responde perguntas, o agente toma decisões e executa ações: pesquisa, seleciona, negocia e paga.
Segundo estimativas da consultoria McKinsey, o comércio por agentes de IA voltado ao consumidor final pode movimentar entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões globalmente até 2030. Para colocar em perspectiva, o e-commerce global movimentou cerca de US$ 6 trilhões em 2024. Ou seja, agentes autônomos podem representar quase metade do volume total do comércio eletrônico em menos de cinco anos.
O cenário ganha tração porque ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude, que sequer existiam há quatro anos, já transformaram a rotina digital de milhões de pessoas. A curva de adoção de tecnologias baseadas em IA generativa é significativamente mais rápida do que qualquer ciclo anterior do setor de pagamentos. Como já analisamos ao tratar da transformação digital impulsionada pela IA, o ritmo de adoção atual desafia padrões históricos.
Como cada bandeira está se posicionando no Brasil
A Elo, controlada por Banco do Brasil, Bradesco e Caixa Econômica Federal, adotou uma abordagem pragmática. A empresa expandiu para 5 mil clientes um agente de IA desenvolvido em parceria com a Decolar. A ferramenta realiza toda a jornada de compra de passagens aéreas, da pesquisa à transação, integrada a canais como o WhatsApp. O único momento em que o usuário ainda intervém é na confirmação final do pagamento.
O vice-presidente de tecnologia da Elo, Eduardo Merighi, reconhece que a autonomia total, aquela em que o consumidor só percebe a compra quando o produto chega à sua casa, ainda demanda tempo. A barreira não é apenas tecnológica: envolve construção de confiança e adaptação cultural.
Visa e Mastercard realizaram os primeiros testes em tempo real de pagamentos agênticos no Brasil em março deste ano. A Visa trouxe ao país um programa de certificação para emissores e credenciadores, atualizando sistemas já existentes, como APIs de tokenização e autenticação biométrica, em vez de construir uma rede do zero. Em junho, a companhia anunciou parceria com a OpenAI para habilitar comércio agêntico, inicialmente nos Estados Unidos.
A Mastercard concentrou esforços no Agent Pay, infraestrutura desenhada para garantir segurança e autenticação em transações feitas por robôs. A bandeira foi além do consumidor final: o Agent Pay For Machines permite que agentes de IA executem pagamentos corporativos de forma autônoma, respeitando orçamentos pré-definidos. Na semana passada, anunciou também uma solução que adapta sites de lojistas para serem interpretados por agentes de IA.
Por que o Brasil é um mercado estratégico para essa tecnologia
O sucesso do Pix posiciona o Brasil como um dos ambientes mais favoráveis para inovações em pagamentos digitais. O país já demonstrou capacidade de adotar novas infraestruturas de pagamento em velocidade recorde. Em menos de quatro anos, o Pix se tornou o meio de pagamento mais utilizado no país, superando cartões de débito e boleto bancário.
Esse histórico de digitalização acelerada atrai investimento das bandeiras internacionais. Leandro Garcia, diretor-executivo de soluções para pagamentos digitais da Visa, afirmou que a empresa já se prepara tecnologicamente para trazer ao Brasil a solução de comércio agêntico desenvolvida com a OpenAI, embora sem data definida. Como discutimos em análises anteriores sobre o mercado financeiro brasileiro, a combinação de alta bancarização digital e infraestrutura regulatória robusta torna o país um laboratório natural para essas inovações.
Há, porém, um desafio cultural relevante. O varejo levou anos para acostumar o consumidor às etapas do e-commerce: buscar, clicar, autorizar, receber. Delegar todo esse processo a um algoritmo exige um rompimento de paradigma que não acontece da noite para o dia.
Qual é o modelo de negócio por trás do comércio agêntico
Para as bandeiras, o comércio agêntico representa uma evolução do modelo de intermediação que sustenta suas receitas há décadas. Em vez de serem apenas o “plástico no bolso”, querem se firmar como a camada invisível onde as máquinas vão transacionar.
A lógica econômica é simples: se agentes de IA passarem a realizar bilhões de transações, quem controlar a infraestrutura de autenticação e segurança dessas operações captura uma fatia proporcional do valor. É uma aposta de longo prazo que justifica investimentos imediatos, mesmo sem receita operacional relevante no curto prazo.
O diretor digital da Mastercard, Pablo Fourez, projeta que a velocidade de disseminação do comércio agêntico ficará entre os dois extremos históricos: mais rápida que o chip, mais lenta que o ChatGPT. As ferramentas estão evoluindo rapidamente, e o momento de investir, segundo ele, é agora.
Para investidores que acompanham a interseção entre IA e serviços financeiros, o ponto central é: a disputa não é sobre quem terá o melhor agente de IA, mas sobre quem será o trilho por onde as transações autônomas vão correr. E nessa corrida, as bandeiras tradicionais largaram na frente.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
