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Montadoras chinesas apostam em robôs humanoides como nova fonte de lucro

Xpeng captou US$ 900 milhões para sua unidade de robótica. BYD, Chery e outras montadoras chinesas também correm para transformar robôs humanoides em negócio lucrativo.

Montadoras chinesas apostam em robôs humanoides como nova fonte de lucro
Foto: Kindel Media / Unsplash

A corrida pelos robôs humanoides ganhou um novo capítulo. Desta vez, não é a Tesla de Elon Musk que protagoniza a notícia, mas um grupo de montadoras chinesas que decidiu replicar a aposta do Optimus com capital próprio, infraestrutura industrial e ambição de escala global.

A Xpeng, uma das fabricantes de veículos elétricos mais agressivas da China, levantou mais de US$ 900 milhões em uma única rodada para sua divisão de robótica. A captação, liderada pela IDG Capital com participação de Tencent e Alibaba, avaliou a unidade em mais de US$ 6,3 bilhões. Foi descrita como o maior financiamento privado já registrado no setor de “embodied AI” na China, ou seja, sistemas de inteligência artificial integrados diretamente a máquinas físicas.

Por que montadoras de carros estão investindo em robôs

A lógica é econômica. As margens de lucro na venda de veículos elétricos na China estão cada vez mais apertadas. A competição brutal entre dezenas de fabricantes comprimiu preços a ponto de tornar o negócio de automóveis quase insustentável para boa parte do setor. A robótica aparece como uma via alternativa de monetização, aproveitando ativos que essas empresas já possuem: cadeias de produção sofisticadas, engenharia de precisão e capacidade de escalar manufatura.

Michael Dunne, CEO da consultoria Dunne Insights, especializada no mercado automotivo asiático, aponta que a Xpeng é a montadora chinesa que mais de perto acompanha as iniciativas da Tesla. “É a mais focada em autonomia e a primeira a se comprometer de forma significativa com robôs humanoides”, afirmou Dunne. Segundo ele, o fundador da Xpeng, He Xiaopeng, é um bilionário da tecnologia conhecido por sua agilidade. “Ele enxerga margens mínimas em carros no horizonte próximo. Robôs parecem muito mais promissores.”

O comprometimento pessoal é visível. Xiaopeng e o copresidente da empresa, Brian Gu, investiram cerca de US$ 100 milhões do próprio bolso na rodada de captação da unidade de robótica. É um sinal claro de convicção, algo que investidores costumam valorizar quando avaliam risco e comprometimento dos fundadores.

O produto da Xpeng e a vantagem industrial chinesa

A aposta da Xpeng se chama Iron, um robô humanoide com formato realista projetado para uso comercial em larga escala. A proposta é que o Iron não fique restrito a laboratórios ou demonstrações de feira, mas que seja viável para implantação em fábricas, armazéns e operações logísticas, como já detalhamos em nossa cobertura de tendências em tecnologia.

Mas a Xpeng não está sozinha. A BYD, maior fabricante de veículos elétricos do mundo, revelou um robô humanoide chamado Xiao Di. A AiMOGA, braço de robótica da Chery Automobile, começou a preparar um IPO. Outras montadoras como Changan, GAC, Li Auto, SAIC e Seres também estão desenvolvendo projetos no segmento.

A vantagem competitiva dessas empresas é estrutural. “Elas têm todo o hardware necessário para fazer o trabalho”, disse Dunne. “A questão é se conseguem alcançar a Tesla no lado da IA.” Esse é o ponto central do debate: a capacidade mecânica e de manufatura está consolidada, mas a inteligência artificial que permite a um robô aprender tarefas complexas ainda é o diferencial que separa protótipos de produtos comerciais.

A corrida global pelos robôs humanoides comerciais

O movimento chinês acontece dentro de uma tendência global. Nos Estados Unidos, startups como Agility Robotics, Apptronik e Figure disputam o mesmo objetivo: implantação comercial em escala. A evolução da inteligência artificial generativa acelerou esse mercado porque pesquisadores acreditam que as técnicas por trás dos grandes modelos de linguagem podem ensinar robôs físicos a executar praticamente qualquer tarefa.

A Hyundai, dona da Boston Dynamics, planeja levar o robô humanoide Atlas para sua fábrica na Geórgia (EUA) ainda neste ano. A expectativa é que, até 2028, esses robôs executem tarefas como sequenciamento de peças nas linhas de montagem. A montadora coreana firmou parceria com o DeepMind, laboratório de IA do Google, para acelerar o desenvolvimento do Atlas e está inaugurando um centro dedicado a ensinar robôs a mapear movimentos complexos como levantamentos e rotações.

Outra movimentação relevante veio da Mobileye, fornecedora de tecnologia automotiva, que adquiriu a startup de robôs humanoides Mentee Robotics por US$ 900 milhões. Até a Rivian, fabricante americana de pickups elétricas, criou um braço chamado Mind Robotics, embora seus robôs não sigam necessariamente o formato humanoide.

O que está em jogo para o mercado de tecnologia

O volume de capital entrando em robótica humanoide é um indicador de que o setor está saindo da fase de hype para a fase de industrialização. Quando montadoras com receitas bilionárias e cadeias produtivas globais entram em um segmento, o sinal é de que a tecnologia atingiu um ponto de maturidade suficiente para justificar investimento pesado.

Para o investidor que acompanha tecnologia, o cenário é de reconfiguração setorial. Montadoras que hoje dependem de margens apertadas em veículos podem, em cinco anos, gerar parcelas significativas de receita com robótica. Isso muda a tese de investimento de empresas como BYD e Xpeng, que passam a ser avaliadas não apenas como fabricantes de carros, mas como plataformas de hardware inteligente, tema que já abordamos ao discutir como novas tecnologias impactam mercados financeiros.

O risco, como sempre, é de execução. A distância entre um protótipo funcional e um produto comercial escalável é enorme. A Tesla, que apresentou o Optimus em 2022, ainda não conseguiu demonstrar produção em massa. A diferença é que as montadoras chinesas partem com uma vantagem concreta em manufatura e escala que poucos concorrentes ocidentais conseguem replicar.

A pergunta que fica é a mesma que Dunne levantou: o hardware está pronto, mas a inteligência artificial estará à altura? A resposta a essa questão vai definir quem captura os lucros dessa nova indústria e quem apenas queimou capital tentando. O impacto dessa corrida sobre o ecossistema global de tecnologia será sentido por anos.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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