Tecnologia

Apple corta 200 vagas em Siri e Vision Pro: o que está por trás

Apple eliminou mais de 200 posições nas equipes do Vision Pro, Siri e integração de IA. Os cortes revelam uma reorganização profunda na aposta da empresa em inteligência artificial.

Apple corta 200 vagas em Siri e Vision Pro: o que está por trás
Foto: Zetong Li / Unsplash

A Apple eliminou mais de 200 posições distribuídas entre três equipes estratégicas: o time do Vision Pro, o grupo responsável pela Siri e a divisão chamada Intelligent Systems Experience, que cuida da integração de inteligência artificial nos dispositivos da empresa. Os cortes, confirmados pela própria companhia, não são um simples ajuste de quadro. Representam uma reorganização profunda na maneira como a Apple pretende competir na corrida da IA.

Cerca de 100 demissões atingiram diretamente o time do Vision Pro, o headset de realidade mista que a empresa lançou com grande fanfarra, mas que nunca encontrou tração comercial significativa. As outras 100 posições eliminadas estão divididas entre a equipe da Siri e a divisão de sistemas inteligentes. A empresa disse que está buscando “evoluir seus negócios para entregar as melhores experiências aos usuários” e que novas funções serão criadas como parte da mudança.

Vision Pro perde fôlego e equipe encolhe

O Vision Pro foi apresentado como a grande aposta da Apple em uma nova categoria de produto. Custando a partir de 3.499 dólares nos Estados Unidos, o dispositivo sempre enfrentou uma barreira óbvia de adoção: o preço. Mas o problema vai além do valor na etiqueta. O ecossistema de aplicativos permanece limitado, e o uso prático do dispositivo no dia a dia nunca se consolidou entre consumidores ou desenvolvedores.

Cortar metade das demissões justamente dessa equipe sinaliza que a Apple está redimensionando suas expectativas para o produto. Isso não significa necessariamente o fim do Vision Pro. A empresa tem histórico de manter projetos em maturação por anos antes de encontrar o formato certo, como fez com o Apple Watch. Mas indica que os recursos estão sendo redirecionados para áreas que a companhia considera mais urgentes.

Como analisamos em nossa cobertura de tecnologia, a realidade virtual e mista segue sendo um mercado de nicho, com a Meta também enfrentando dificuldades para popularizar seus dispositivos Quest além do público gamer.

Siri e IA: a verdadeira batalha

Os cortes na equipe da Siri e na divisão de integração de IA são ainda mais reveladores. A Apple chegou atrasada à corrida da inteligência artificial generativa. Enquanto Google, Microsoft e OpenAI lançavam produtos baseados em modelos de linguagem avançados ao longo de 2023 e 2024, a Siri permanecia praticamente estagnada, incapaz de competir com o ChatGPT ou o Gemini em funcionalidade básica.

A empresa tentou uma aproximação com a OpenAI, integrando recursos do ChatGPT ao iOS. Mas essa parceria azedou. A Apple está atualmente processando a OpenAI, acusando-a de roubo de propriedade intelectual. O litígio adiciona uma camada de complexidade à estratégia de IA da companhia, que agora precisa desenvolver capacidades próprias com mais urgência.

A reestruturação sugere que a Apple quer consolidar seus esforços em IA sob uma estrutura mais enxuta e focada, eliminando sobreposições entre times que trabalhavam em frentes diferentes. É uma aposta de que menos gente fazendo a coisa certa rende mais do que muitos times dispersos, como detalhamos em análises anteriores sobre as estratégias das big techs em IA.

Custos sobem enquanto a transição se arrasta

Os cortes acontecem em um momento de pressão financeira real para a Apple. A escassez global de memória de alta largura de banda, impulsionada justamente pela demanda de data centers de IA, elevou o custo de produção dos produtos da empresa. A consequência já apareceu no bolso do consumidor: a Apple aumentou os preços de Macs e iPads ao longo do primeiro semestre.

Paralelamente, a companhia lançou um plano de leasing para seus principais produtos de hardware, permitindo que consumidores paguem uma mensalidade em vez de desembolsar o valor cheio. A estratégia é dupla: ampliar a base de clientes e suavizar o impacto do aumento de preços na demanda. É um movimento que lembra o que montadoras de automóveis fazem há décadas, mas é relativamente novo para a Apple em escala tão ampla.

Para quem acompanha o setor de tecnologia e seus impactos nos mercados, a situação da Apple ilustra um dilema enfrentado por todas as big techs: os investimentos em IA são obrigatórios, mas os retornos ainda não são claros. A Microsoft investiu bilhões na OpenAI. O Google reestruturou divisões inteiras em torno do Gemini. A Meta queimou dezenas de bilhões no metaverso antes de pivotar para IA. Cada uma dessas apostas envolve trade-offs reais, como mostramos em nossas análises sobre o impacto financeiro dessas decisões.

O que esses cortes dizem sobre o futuro da Apple

A leitura mais direta dos cortes é que a Apple está abandonando a dispersão para concentrar fogo na IA. O Vision Pro perde recursos enquanto a empresa tenta construir uma infraestrutura própria de inteligência artificial que não dependa de parceiros como a OpenAI.

A grande questão é se a Apple consegue recuperar o tempo perdido. O Google já integra IA generativa em toda sua suíte de produtos. A Microsoft embutiu o Copilot no Windows e no Office. A Apple ainda está no estágio de reorganizar as peças no tabuleiro.

Para investidores e profissionais de tecnologia, o sinal é claro: a Apple reconhece que suas primeiras apostas em IA e realidade mista não entregaram o que prometiam. A reestruturação é uma admissão implícita de que a estratégia anterior estava fragmentada. Se os novos esforços vão funcionar, só o tempo dirá. Mas a direção da mudança, de hardware experimental para software inteligente, é inequívoca.

A empresa que definiu categorias inteiras de produto, do iPhone ao iPad, agora precisa provar que consegue fazer o mesmo com inteligência artificial. E pela primeira vez em muito tempo, não está liderando essa corrida.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Compartilhar
Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
Continue scrollando para a próxima matéria…