Finanças

IPO da Anthropic pode superar US$ 75 bi da SpaceX

Criadora do Claude mira oferta inicial que rivalize com a maior da história. Receita anualizada de US$ 65 bi sustenta a ambição, mas prejuízo de US$ 42 bi levanta questões.

IPO da Anthropic pode superar US$ 75 bi da SpaceX
Foto: StockRadars Co., / Unsplash

A Anthropic, criadora do modelo de inteligência artificial Claude, está preparando uma oferta pública inicial de ações que pode igualar ou superar o recorde histórico estabelecido pela SpaceX. A empresa de foguetes de Elon Musk levantou US$ 75 bilhões em seu IPO, valor que subiu para US$ 86,2 bilhões com o exercício da opção de lote suplementar. Agora, a startup de IA fundada há apenas cinco anos quer disputar esse posto.

Os preparativos avançam com a possível apresentação pública dos documentos de registro ainda neste mês de agosto. Em reuniões recentes lideradas pelo diretor financeiro Krishna Rao, a companhia evitou discutir sua avaliação de mercado com investidores, segundo fontes próximas às negociações. Morgan Stanley, Goldman Sachs e JPMorgan Chase trabalham na estruturação da oferta.

Receita explode, mas prejuízo acompanha

Os números da Anthropic ilustram um fenômeno peculiar da economia da inteligência artificial: crescimento brutal de receita acompanhado por perdas igualmente impressionantes. A receita preliminar do segundo trimestre de 2026 superou US$ 11,5 bilhões, contra US$ 787 milhões no mesmo período do ano anterior. A taxa anualizada de receita atingiu US$ 65 bilhões no fim de julho.

Na outra ponta do balanço, o prejuízo líquido em 2025 chegou a quase US$ 42 bilhões, cerca de cinco vezes mais que os US$ 8,3 bilhões do ano anterior. Embora a empresa tenha registrado lucro operacional ajustado no segundo trimestre de 2026, a linha final do resultado ainda pesa. O treinamento dos chamados modelos de fronteira exige capacidade computacional massiva, e apenas um dos contratos da Anthropic com operadores de data centers pode valer dezenas de bilhões de dólares nos próximos três anos.

Esse padrão não é novo no setor de tecnologia. A Amazon operou no vermelho por anos antes de se tornar uma das empresas mais valiosas do mundo. A diferença é a escala: nenhuma startup queimou tanto capital tão rápido quanto as líderes da corrida por IA generativa.

Avaliação já supera a da OpenAI

Em maio de 2026, a Anthropic captou US$ 65 bilhões em rodada privada com avaliação de US$ 965 bilhões. O número superou a rival OpenAI, avaliada em US$ 852 bilhões quando levantou US$ 122 bilhões em março. A competição entre as duas empresas agora se estende ao mercado de capitais: enquanto a Anthropic acelera seu IPO, a OpenAI empurrou seus planos de listagem para 2027.

A eventual abertura de capital da Anthropic também traz uma discussão de governança corporativa. A empresa avalia adotar ações com superdireitos de voto, que dariam ao CEO Dario Amodei e aos cofundadores controle desproporcional sobre a companhia, mesmo com Amodei detendo apenas cerca de 2% das ações. Essa estrutura dual-class é comum no Vale do Silício. Google, Meta e Snap adotaram modelos semelhantes, priorizando a visão de longo prazo dos fundadores em detrimento da influência dos acionistas minoritários.

Para investidores, a questão central é se o crescimento de receita consegue fechar a lacuna com os custos antes que o caixa se esgote. O IPO seria, nesse sentido, menos uma celebração e mais uma necessidade estratégica de capitalização para sustentar a operação em uma corrida que não dá sinais de desaceleração.

2026 caminha para ser o melhor ano de IPOs da história

A estreia da Anthropic consolidaria 2026 como o ano mais forte da história para ofertas públicas iniciais nos Estados Unidos. Até 19 de agosto, empresas já haviam levantado US$ 160,6 bilhões em IPOs, aproximando-se do recorde de US$ 195,2 bilhões registrado em 2021. O ano já conta com duas das maiores listagens de todos os tempos, incluindo a da fabricante sul-coreana de chips SK Hynix, que captou US$ 26,5 bilhões em sua oferta inicial de ADRs.

O aquecimento do mercado de IPOs reflete uma combinação de fatores. A demanda institucional por exposição ao tema de inteligência artificial permanece elevada. A janela de liquidez aberta pela política monetária mais flexível ao longo de 2025 e início de 2026 criou condições favoráveis. E a corrida competitiva entre empresas de IA cria urgência: quem listar primeiro pode capturar uma fatia maior do apetite dos investidores.

Vale lembrar que o boom de IPOs de 2021 foi seguido por um período prolongado de ajuste nos mercados. Muitas empresas que abriram capital naquele ano negociam hoje abaixo do preço de oferta. A pergunta que o mercado deveria se fazer não é se a Anthropic consegue levantar US$ 75 bilhões, mas se investidores que entrarem no IPO terão retorno proporcional ao risco de uma empresa que ainda queima dezenas de bilhões por ano.

O que isso significa para quem investe

O IPO da Anthropic é, antes de tudo, um termômetro da confiança do mercado na tese de inteligência artificial como classe de ativo. Se a oferta de fato superar a da SpaceX, o sinal é claro: investidores institucionais estão dispostos a pagar um prêmio significativo por crescimento acelerado em IA, mesmo diante de prejuízos bilionários.

Para investidores brasileiros, o acesso direto ao IPO será limitado, como ocorre na maioria das ofertas americanas. Mas os desdobramentos indiretos são relevantes. Empresas fornecedoras de infraestrutura de IA, fabricantes de chips como Nvidia e AMD, e provedores de nuvem como Amazon, Microsoft e Google já se beneficiam dessa dinâmica. Uma listagem bem-sucedida da Anthropic tende a reforçar o fluxo de capital para todo o ecossistema de IA.

O contraponto é o risco de concentração. Quando o mercado direciona capital excessivo para um único tema, as correções tendem a ser mais severas. Em 2000, empresas de internet protagonizaram IPOs recordes antes do estouro da bolha. A analogia não é perfeita, já que as empresas de IA possuem receita real e crescente. Mas a distância entre receita e lucro permanece como o principal fator de risco para quem considerar alocar recursos nesse setor.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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