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Riot fecha acordo de US$ 9,1 bi com a Anthropic: o que muda na mineração

Contrato de 22 anos entre Riot e Anthropic mostra como mineradoras de Bitcoin estão se tornando fornecedoras de infraestrutura para inteligência artificial.

Riot fecha acordo de US$ 9,1 bi com a Anthropic: o que muda na mineração
Foto: panumas nikhomkhai / Unsplash

A Riot Platforms, quarta maior mineradora de Bitcoin do mundo por valor de mercado, fechou um contrato de US$ 9,1 bilhões com a Anthropic, dona dos modelos Claude. O acordo, com prazo de 22 anos até junho de 2048, transforma a mineradora em fornecedora de infraestrutura computacional para uma das empresas mais relevantes do setor de inteligência artificial. A informação foi publicada pela Bloomberg, citando fontes anônimas.

O negócio ainda pode ser estendido por dois períodos adicionais de cinco anos cada, o que elevaria a receita esperada para US$ 16,1 bilhões. Para uma empresa com valor de mercado de US$ 7,4 bilhões, o contrato representa mais do que o dobro de sua capitalização atual, o que ajuda a explicar a reação inicial do mercado: as ações da Riot chegaram a subir 22% antes de se estabilizarem na faixa dos US$ 19,5.

Por que mineradoras de Bitcoin estão virando data centers de IA

A lógica por trás dessa migração é mais simples do que parece. Uma operação de mineração de Bitcoin mantém milhares de máquinas funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana, em galpões com sistemas robustos de refrigeração e acesso a energia de larga escala. A infraestrutura física necessária para treinar e rodar modelos de IA é surpreendentemente parecida.

A diferença principal está no hardware: mineradoras de Bitcoin usam ASICs (chips especializados em cálculos de hash), enquanto operações de IA dependem de GPUs em paralelo. Mas a estrutura ao redor, incluindo racks, sistemas de resfriamento, cabeamento elétrico e contratos de energia, é praticamente intercambiável. Isso faz das mineradoras candidatas naturais para atender a demanda crescente por capacidade computacional no setor de IA.

Esse movimento não é novo. Como já analisamos em matérias sobre a evolução do ecossistema cripto, a convergência entre mineração e infraestrutura de IA começou a ganhar força ainda em 2023. Dois fatores aceleraram essa tendência: o halving do Bitcoin, que cortou pela metade as recompensas por bloco minerado, e o abandono da mineração por GPU pelo Ethereum após sua migração para proof-of-stake.

O caso da Riot não é isolado: outras mineradoras seguem o mesmo caminho

A Riot não é a primeira grande mineradora a diversificar receita com contratos de IA. Em março deste ano, a Mara Holdings vendeu 15.133 bitcoins, equivalentes a cerca de US$ 1,1 bilhão, justamente para expandir suas operações e atender demandas do setor de inteligência artificial.

A lista de mineradoras que operam nos dois segmentos cresce a cada trimestre. Empresas como Iren, Hut 8 e TeraWolf, que hoje estão à frente da Riot no ranking global de mineração, também exploram contratos de fornecimento de infraestrutura para big techs e startups de IA. A corrida por capacidade computacional criou um mercado onde quem já tem energia barata e espaço físico leva vantagem.

Esse cenário muda a tese de investimento das mineradoras. Quem comprava ações da Riot ou da Mara estava, até pouco tempo, apostando quase exclusivamente no preço do Bitcoin. Agora, essas empresas oferecem exposição dupla: ao mercado de criptomoedas e ao crescimento da demanda por infraestrutura de IA. É uma mudança estrutural, não conjuntural.

Anthropic precisa de energia, e as mineradoras têm de sobra

Do lado da Anthropic, o acordo faz sentido estratégico. A empresa lançou recentemente os modelos Claude Mythos 5, Fable 5, Opus 5 e Sonnet 5, que figuram entre os mais avançados do mercado. Treinar e servir esses modelos exige uma quantidade absurda de poder computacional, e a escassez de data centers é hoje um dos maiores gargalos para o crescimento do setor.

Construir data centers do zero leva anos e custa bilhões. Fechar contratos com mineradoras que já possuem a infraestrutura elétrica e física é um atalho. A Riot opera instalações nos Estados Unidos com acesso a energia relativamente barata, o que reduz o custo por hora de GPU, um dos indicadores mais relevantes para empresas de IA.

Como já discutimos em análises sobre o impacto econômico da inteligência artificial, a demanda por capacidade computacional está crescendo em ritmo exponencial. Estimativas de mercado apontam que os gastos globais com infraestrutura de IA devem superar US$ 300 bilhões por ano até o fim desta década. Mineradoras de Bitcoin, ironicamente, estão posicionadas para capturar uma fatia relevante desse mercado.

O que isso significa para o investidor

O contrato entre Riot e Anthropic sinaliza uma tendência que deve se intensificar nos próximos anos. Mineradoras de Bitcoin estão deixando de ser empresas unidimensionais, dependentes exclusivamente do ciclo de preço do BTC, para se tornarem provedoras de infraestrutura computacional com contratos de longo prazo e receita previsível.

Para quem acompanha o mercado de criptomoedas, o dado mais relevante é este: o halving comprimiu as margens da mineração, mas a demanda por energia e infraestrutura física explodiu com a IA. As mineradoras que conseguirem equilibrar as duas operações terão um perfil de risco-retorno fundamentalmente diferente daquele que o mercado conhecia até 2023.

A volatilidade das ações da Riot nesta segunda-feira, subindo 22% pela manhã e devolvendo parte dos ganhos à tarde, mostra que o mercado ainda está calibrando o impacto real desse tipo de contrato. Mas um acordo de 22 anos com potencial de US$ 16,1 bilhões em receita não é ruído de curto prazo. É uma mudança de modelo de negócio.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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