Criptomoedas

Bitcoin testa US$ 65 mil quatro vezes: por que US$ 70 mil é o próximo alvo

Bitcoin recuou para US$ 64 mil após quarta tentativa frustrada de superar US$ 65 mil. Analistas apontam US$ 70 mil como nível que pode redefinir o sentimento do mercado.

Bitcoin testa US$ 65 mil quatro vezes: por que US$ 70 mil é o próximo alvo
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

O bitcoin recuou para a faixa de US$ 64 mil na terça-feira, depois de falhar pela quarta vez consecutiva em se manter acima dos US$ 65 mil. O ativo chegou a bater US$ 65.300 antes de devolver os ganhos durante o pregão asiático. A queda no dia foi de pouco mais de 1%, embora o acumulado da semana ainda mostre leve alta.

O movimento, por si só, não surpreende. Resistências em números redondos costumam gerar esse tipo de rejeição. O que chama atenção, no entanto, é o que está por trás da dinâmica: não há pressão vendedora significativa nos US$ 65 mil. E isso muda completamente a leitura do mercado.

A ausência de vendedores diz mais do que a presença de compradores

Segundo Alex Kuptsikevich, analista-chefe de mercados da FxPro, o bitcoin vem testando a região de US$ 65 mil por quatro sessões seguidas sem que haja qualquer surto de compras à medida que o preço se aproxima do número redondo. Até aí, nada incomum.

O dado mais revelador é que também não há vendas relevantes nessa faixa. Para Kuptsikevich, isso indica um acúmulo de posições vendidas (shorts) bem acima do nível atual, e não uma realização de lucros por parte de quem já está comprado. Em termos práticos, significa que o mercado está se preparando para um movimento mais amplo, não para uma reversão.

Esse cenário coloca os US$ 70 mil como o próximo patamar decisivo. Não apenas por ser outro número redondo com apelo psicológico, mas porque a média móvel de 200 dias está posicionada nessa região. Romper esse nível colocaria o bitcoin acima da zona onde compradores e vendedores travaram uma disputa intensa entre março e abril, o que, segundo o analista, mudaria o sentimento do mercado de forma significativa.

Índice de medo domina o sentimento cripto

Por enquanto, os traders ainda não chegaram lá. O índice de sentimento cripto está em 30, dentro do que se convencionou chamar de “zona de medo”. O indicador permanece nessa faixa desde meados de julho, com mergulhos ocasionais em direção ao medo extremo.

É um contraste interessante com o fluxo de capital institucional. Os ETFs de bitcoin à vista nos Estados Unidos acumularam entradas de US$ 865 milhões em cinco sessões até 7 de agosto, antes de registrarem uma saída provisória de US$ 91 milhões na segunda-feira. Ou seja, o dinheiro institucional estava entrando com força até esta semana, como temos acompanhado na cobertura de criptomoedas do portal.

A divergência entre fluxo de capital e sentimento de mercado não é necessariamente contraditória. Investidores institucionais tendem a se posicionar antes da virada de humor do varejo. Se os ETFs voltarem a registrar entradas consistentes nos próximos dias, o cenário fica mais construtivo para uma tentativa real nos US$ 70 mil.

Altcoins sofrem mais: XRP lidera as perdas da semana

Enquanto o bitcoin oscila em faixa relativamente estreita, as altcoins mostram fraqueza mais acentuada. O ether caiu mais de 2% para US$ 1.878, sendo o pior desempenho entre as principais criptomoedas no dia, embora ainda acumule leve alta em sete dias.

O XRP, porém, é o destaque negativo da semana. O ativo recuou quase 2% para US$ 1,01 e acumula queda de quase 6% nos últimos sete dias, o pior desempenho do grupo por larga margem. Solana cedeu menos de 1% para US$ 76, mas lidera os ganhos semanais com alta de 3%. BNB escorregou para US$ 600 e mantém ganho semanal de 2%.

Na contramão, alguns ativos registraram alta. O HYPE, token da Hyperliquid, subiu quase 2% para US$ 55. Tron teve leve ganho, chegando a 33 centavos, e dogecoin ficou marginalmente positivo a 7 centavos. Esse tipo de rotação entre ativos é típico de mercados laterais, onde o capital gira em busca de oportunidades pontuais sem uma tese direcional clara, algo que já analisamos em contextos de mercado semelhantes.

Macro pressiona: petróleo, treasuries e inflação no radar

O cenário macro adicionou uma camada de complexidade. Os rendimentos dos treasuries de 10 anos dos Estados Unidos subiram seis pontos-base na segunda-feira, para 4,71%, arrastando títulos governamentais da Austrália e da Nova Zelândia. O movimento ocorreu sem negociação em caixa de treasuries durante o horário asiático, por conta de feriado no Japão.

O petróleo Brent se manteve em US$ 87,73 o barril após um salto de 5% na segunda-feira, quando o presidente Donald Trump fez novas exigências ao Irã e reduziu as esperanças de um acordo para reabrir o Estreito de Ormuz. O ouro subiu pela terceira sessão consecutiva acima de US$ 4.400 a onça.

O petróleo mais caro alimenta diretamente os dados de inflação previstos para quarta-feira, às 9h30 no horário de Brasília. É por isso que o rali do petróleo pesa sobre ativos que se beneficiam quando a perspectiva de novos aumentos de juros parece menos provável. Criptomoedas, historicamente, se enquadram nessa categoria, como a correlação entre política monetária e preço do bitcoin tem demonstrado.

O que esperar: acumulação ou distribuição?

O mercado de bitcoin está em um momento de definição técnica. Quatro testes em US$ 65 mil sem rompimento sugerem, à primeira vista, fraqueza. Mas a ausência de vendas agressivas nessa região conta uma história diferente: a de um mercado que acumula posição para um movimento mais amplo.

O dado de inflação dos Estados Unidos na quarta-feira pode ser o catalisador. Um número abaixo do esperado aliviaria a pressão sobre juros e daria combustível para uma tentativa nos US$ 70 mil. Um dado acima do consenso, por outro lado, poderia empurrar os rendimentos dos treasuries ainda mais para cima e pressionar ativos de risco, incluindo criptomoedas.

A média móvel de 200 dias, posicionada próxima dos US$ 70 mil, funciona como uma espécie de linha divisória entre mercado de baixa e mercado de alta no imaginário técnico. Cruzá-la de baixo para cima costuma atrair fluxo comprador adicional e mudar a narrativa. Ficar abaixo dela, em contrapartida, reforça a cautela que o índice de sentimento já reflete.

Para quem acompanha o mercado, o recado é claro: o nível de US$ 65 mil é relevante, mas não é a batalha principal. A verdadeira definição está nos US$ 70 mil. E o macro, mais uma vez, terá a palavra final.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

Compartilhar
Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
Continue scrollando para a próxima matéria…