Intel aposta na IA de ponta para superar a Nvidia
A Intel mira a chamada onda de inferência, que promete ser dez vezes maior que a de treinamento, para recuperar protagonismo no mercado de IA.
Por décadas, a Intel foi sinônimo de computação pessoal. O selo “Intel Inside” era praticamente um certificado de qualidade estampado em milhões de máquinas ao redor do mundo. Mas a explosão da inteligência artificial generativa reescreveu as regras do setor de semicondutores, e quem emergiu como protagonista foi a Nvidia, com suas GPUs dominando o treinamento de grandes modelos de linguagem.
Agora, a Intel tenta virar esse jogo com uma tese clara: a primeira onda da IA foi sobre treinamento centralizado na nuvem. A segunda, focada em inferência e aplicação prática na ponta, será o campo onde a companhia pretende ditar o ritmo. Segundo o novo executivo da Intel para a América Latina, João Bortone, essa próxima fase será “dez vezes maior que a onda de treinamento”.
Em junho, as ações da Intel atingiram máximas históricas, sinalizando que o mercado começa a precificar essa transição estratégica. Mas a questão que importa para quem acompanha o setor de tecnologia é outra: a Intel tem, de fato, capacidade de executar essa visão?
O que é a IA na ponta e por que ela muda o jogo
A lógica é relativamente simples. Na primeira fase da IA, modelos como GPT e LLaMA precisaram de clusters massivos de GPUs para serem treinados. Isso exigiu data centers enormes e consumo energético brutal, um terreno onde a Nvidia se consolidou com folga.
A segunda fase envolve a inferência, ou seja, a execução desses modelos já treinados em dispositivos menores e mais próximos do usuário final. Em vez de enviar dados para a nuvem e esperar uma resposta, o processamento acontece localmente: no notebook, no smartphone, em um equipamento médico, em uma fábrica.
Para a Intel, esse cenário é mais favorável. A companhia domina o mercado de processadores para PCs e servidores convencionais, e suas novas linhas de chips com capacidade de IA embarcada se encaixam justamente nessa demanda. Como mostramos em nossa cobertura de tecnologia, a corrida pela IA na ponta está apenas começando, e vários players querem um pedaço desse mercado.
Bortone descreve um futuro em que “todo mundo vai ter um agente de IA pessoal, cada governo vai ter os seus, cada empresa vai ter os seus”, todos rodando funções específicas com hardwares dedicados. É uma visão de descentralização radical da inteligência artificial.
Co-opetição: a Intel colabora com quem compete
Um dos movimentos mais interessantes da estratégia da Intel é o conceito de “co-opetição”. Em vez de tratar a Nvidia apenas como rival, a companhia firmou parcerias diretas. Em setembro de 2025, a Nvidia investiu US$ 5 bilhões na Intel para codesenvolver produtos para PCs e data centers.
Na prática, a Intel passou a ter acesso à tecnologia gráfica da Nvidia em chips de PC, enquanto fornece processadores para produtos de data center baseados em hardware da parceira. É um arranjo pragmático: em um mercado tão complexo, tentar fazer tudo sozinho pode ser mais arriscado do que colaborar com concorrentes.
Essa postura é relevante porque contrasta com a abordagem histórica da Intel, que durante anos tentou competir em múltiplas frentes ao mesmo tempo, frequentemente sem sucesso. Como analisamos em materiais anteriores sobre o impacto da IA no setor de tecnologia, a verticalização excessiva tem sido um dos maiores erros estratégicos de gigantes do setor.
Analistas do Goldman Sachs, em relatório publicado no final de julho, reconheceram o potencial da Intel de se beneficiar do aumento da demanda por servidores impulsionada pela IA agêntica. Porém, mantiveram classificação neutra para a ação, argumentando que AMD, Nvidia e Broadcom oferecem visibilidade de receita maior e relação risco-retorno mais favorável.
O trunfo energético do Brasil na estratégia global
Outro ponto que merece atenção é o papel que o Brasil pode desempenhar nessa nova fase. Com o consumo de energia dos data centers crescendo de forma exponencial, segundo estudo da Gartner, cerca de 8% da energia consumida nos Estados Unidos até 2030 virá apenas dessas estruturas. O Brasil, com sua matriz energética predominantemente renovável, tem uma vantagem competitiva real.
Bortone enxerga o país como um potencial hub global de processamento de dados, desde que o governo saiba capitalizar essa vantagem. É uma oportunidade concreta, especialmente considerando que grandes provedores de nuvem como AWS, Google Cloud e Microsoft Azure já ampliaram presença no Brasil nos últimos anos.
A operação da Intel na América Latina, sob comando de Bortone desde abril, funciona sem escritórios físicos, priorizando agilidade. O desafio, segundo o executivo, é traduzir as particularidades do mercado brasileiro para a matriz americana. Detalhes como boleto bancário e parcelamento, triviais aqui, são conceitos estranhos para a gestão global.
O que está em jogo para o mercado de semicondutores
O cenário mais amplo é de uma reconfiguração profunda da indústria de semicondutores. A Nvidia dominou a primeira onda com margens brutas superiores a 70% e capitalização de mercado que ultrapassou US$ 3 trilhões. A Intel, que já foi a empresa mais valiosa do setor, ficou para trás.
Mas ondas tecnológicas raramente são dominadas pelo mesmo player do início ao fim. A transição do mainframe para o PC beneficiou a Intel. A transição do PC para o mobile beneficiou a Qualcomm e a ARM. A transição para IA na nuvem beneficiou a Nvidia. A próxima transição, para IA distribuída na ponta, pode abrir espaço para novos vencedores.
O negócio de foundry da Intel, sua plataforma unificada para fabricação de chips, é outra peça central dessa estratégia. Em um mundo onde a TSMC concentra a maior parte da fabricação avançada global, ter uma alternativa americana tem valor geopolítico significativo, algo que discutimos ao abordar a geopolítica dos chips.
A Intel ainda precisa provar que consegue executar. A companhia acumulou anos de atrasos em processos de fabricação e perdeu participação de mercado em praticamente todas as frentes. Mas a tese é coerente: se a IA realmente migrar para a ponta com a velocidade que Bortone projeta, a Intel tem peças no tabuleiro que poucos concorrentes possuem. O mercado, por enquanto, observa com cautela. E com razão.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
