Tecnologia

Tesla fala mais de IA e robôs do que de carros nas reuniões trimestrais

Análise de sete anos de transcrições mostra que Musk fala quase 50% do tempo sobre IA e robótica, enquanto o negócio automotivo encolhe no discurso e nos resultados.

Tesla fala mais de IA e robôs do que de carros nas reuniões trimestrais
Foto: Hyundai Motor Group / Unsplash

A Tesla entregou quase meio milhão de veículos no último trimestre e ainda faz 70% da sua receita vendendo carros. Mas quem ouve Elon Musk nas teleconferências de resultados pode concluir que a empresa fabrica outra coisa. Uma análise de sete anos de transcrições das earnings calls mostra que o CEO já dedica quase metade do seu tempo de fala a temas como inteligência artificial, robótica e condução autônoma.

A mudança não aconteceu da noite para o dia. Mas acelerou de forma significativa nos últimos três anos, justamente enquanto o negócio principal da companhia começou a perder tração diante de concorrentes chineses e montadoras tradicionais que entraram no mercado de elétricos.

De 15% a quase 50%: como a IA dominou o discurso de Musk

A pesquisa, baseada em transcrições de chamadas trimestrais obtidas via S&P Market Intelligence desde 2019, classificou cada frase por tema e contou a frequência. O resultado é revelador. Em 2022, Musk gastava entre 15% e 20% do seu tempo falando sobre inteligência artificial, robotáxis e o software Full Self-Driving. Hoje, esse número beira os 50%.

Na direção oposta, o tempo dedicado a carros e manufatura caiu para menos de um terço. Na teleconferência do terceiro trimestre de 2025, Musk dedicou menos de 20% das suas falas ao negócio automotivo. A inversão é quase perfeita: onde havia carro, agora há robô.

A retórica acompanha uma tese financeira explícita. “Se alguém avalia a Tesla apenas como uma montadora, está usando o framework errado”, disse Musk na call do primeiro trimestre de 2024. “Se alguém não acredita que a Tesla vai resolver a autonomia, não deveria ser investidor da companhia.”

Optimus: de curiosidade a obsessão corporativa

O robô humanoide Optimus foi revelado em 2021. No ano seguinte, ocupava menos de 2% do tempo de fala de Musk nas earnings calls. Nos últimos doze meses, esse percentual saltou para no mínimo 10%, chegando a quase um terço de toda a atenção do CEO na teleconferência do terceiro trimestre de 2025.

Esse salto coincide com o aumento de investimentos da empresa em automação e com a corrida global por robôs humanoides, na qual competem também empresas como a Figure AI e a Boston Dynamics. Como já analisamos ao abordar os movimentos de big techs em inteligência artificial, o setor de robótica virou uma das apostas mais caras e mais incertas do mercado de tecnologia.

O problema, por enquanto, é que nem o Optimus nem os robotáxis geram receita relevante. A Tesla continua sendo, nos números, uma montadora. E uma montadora que enfrenta ventos contrários: aumento de concorrência, perda de participação de mercado na China e margens pressionadas em veículos elétricos.

Os outros executivos ainda falam de carro, mas cada vez menos

A dissonância não é apenas entre discurso e resultado. Ela também aparece dentro da própria diretoria. O diretor financeiro Vaibhav Taneja e o vice-presidente de engenharia Lars Moravy historicamente dedicavam mais de 50% do tempo das calls ao negócio automotivo. Esse percentual caiu para cerca de 30% nas chamadas mais recentes.

Eles seguem Musk, mas com atraso. A explicação mais provável é pragmática: são os executivos responsáveis por reportar números reais, e os números reais ainda vêm de carros. A IA e a robótica são, por enquanto, centros de custo, não de receita.

Ainda assim, quando acompanham o tom de Musk, não medem palavras. “O caminho para a abundância é sempre desafiador e exige apostas ousadas”, afirmou Taneja na call do segundo trimestre deste ano. “Nosso progresso será não linear. O futuro vai ser incrível.”

O que isso significa para quem acompanha tecnologia e mercado

A mudança no discurso de Musk não é cosmética. Ela sinaliza para onde vão os recursos da empresa e, principalmente, para onde vai a atenção do fundador. No histórico da Tesla, atenção de Musk sempre foi o recurso mais escasso e mais determinante.

Para investidores e analistas, o risco é duplo. Se a aposta em IA e robótica funcionar, a Tesla pode de fato se tornar algo muito diferente de uma montadora, com múltiplos de avaliação condizentes. Se não funcionar, a empresa terá negligenciado seu negócio principal durante anos de transformação acelerada no setor automotivo.

Essa tensão entre narrativa e fundamento não é exclusiva da Tesla. Como discutimos em nossa cobertura de finanças, diversas empresas de tecnologia enfrentam o dilema de prometer um futuro de IA enquanto dependem de receitas tradicionais no presente. A diferença é que poucas fazem isso de forma tão explícita quanto Musk.

O dado mais revelador talvez seja o mais simples: o homem que construiu a maior montadora de elétricos do mundo agora passa metade do tempo falando de robôs. O mercado, por enquanto, segue ouvindo. A questão é por quanto tempo a paciência dos acionistas sobrevive a uma narrativa sem receita correspondente. Como já abordamos em análises anteriores sobre o setor de IA, a distância entre promessa e entrega continua sendo o principal fator de risco para valuations inflados por expectativa.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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