Finanças

Amazon dispara 15% e escancara a divisão na bolsa americana

Enquanto a Amazon adicionou US$ 300 bi em valor de mercado com crescimento da AWS, o Nasdaq caiu 3% em julho. O mercado de tech está rachado ao meio.

Amazon dispara 15% e escancara a divisão na bolsa americana
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

O pregão da última sexta-feira em Wall Street deixou uma fotografia reveladora do momento das big techs americanas. De um lado, a Amazon disparou mais de 15% após entregar o maior crescimento de sua divisão de nuvem em mais de quatro anos. Do outro, a Apple tombou 7% e perdeu o posto de empresa mais valiosa do mundo para a Nvidia. O Nasdaq, principal índice de tecnologia, fechou julho com queda de 3,04%, acumulando o segundo mês consecutivo de perdas.

Não se trata de uma crise generalizada no setor. O que está acontecendo é mais sutil e, para quem investe, mais importante de entender: o mercado está separando as empresas de tecnologia entre aquelas que já estão monetizando inteligência artificial e aquelas que ainda estão na fase de promessa.

A AWS como divisor de águas para a Amazon

A reação do mercado aos resultados da Amazon foi inequívoca. A alta de 15% adicionou cerca de US$ 300 bilhões em valor de mercado em uma única sessão. O gatilho foi o desempenho da Amazon Web Services, que registrou o maior ritmo de crescimento em mais de quatro anos.

O dado mais relevante, no entanto, foi a postura dos investidores diante do aumento de 10% nos gastos de capital planejados, que agora somam US$ 220 bilhões. Em qualquer outro momento, um salto dessa magnitude nos investimentos seria recebido com desconfiança. Desta vez, o mercado interpretou como sinal positivo. A leitura foi de que a demanda por infraestrutura de IA está crescendo rápido o suficiente para justificar o investimento.

A AWS detém entre 28% e 31% do mercado global de computação em nuvem, segundo estimativas de mercado. Essa fatia não é apenas sobre armazenamento de dados. A divisão se tornou o centro da oferta de inteligência artificial da companhia, fornecendo a infraestrutura que outras empresas precisam para treinar e rodar modelos de IA. Como já analisamos em nossa cobertura de mercado financeiro, a corrida por infraestrutura de IA está definindo os vencedores e perdedores desta fase do ciclo tecnológico.

Apple na direção contrária: receita forte, perspectiva fraca

O caso da Apple ilustra o outro lado dessa equação. Os números do trimestre vieram acima do esperado, com destaque para um avanço de 22% nas vendas do iPhone. Em circunstâncias normais, isso bastaria para sustentar a ação. Mas a companhia sinalizou um cenário mais fraco pela frente, citando “restrições de fornecimento” como obstáculo.

A queda de mais de 7% custou à Apple o título de empresa mais valiosa do mundo, posto que agora pertence à Nvidia. A mensagem do mercado é clara: resultados passados estão importando menos do que a capacidade de capturar receita futura com IA. A Nvidia, que fornece os chips que alimentam toda essa revolução, se beneficia diretamente. A Apple, cujos esforços em IA ainda estão em fase inicial de impacto nas receitas, ficou para trás.

Esse movimento reflete uma tendência mais ampla no setor de tecnologia: investidores estão precificando capacidade de execução em IA, não apenas tamanho ou receita corrente.

Nasdaq em queda, Dow Jones em alta: o que explica a divergência

Os números de julho contam uma história de dois mercados. O Dow Jones fechou o mês com alta de 0,31%. O S&P 500 ficou praticamente estável, com queda marginal de 0,05%. Já o Nasdaq recuou 3,04%, no segundo mês consecutivo de perdas.

A divergência se explica pela composição dos índices. O Dow Jones, com peso maior em empresas industriais e financeiras, se beneficiou de um ambiente de demanda resiliente. O Nasdaq, concentrado em tecnologia, sofreu com a reavaliação dos custos bilionários que as big techs estão assumindo para competir em IA.

O mercado está fazendo uma pergunta legítima: quanto desse investimento em IA vai virar receita real? A Amazon deu uma resposta nesta semana. Outras empresas ainda precisam fazer o mesmo. Enquanto não houver clareza, a pressão sobre o índice tende a continuar.

Petróleo adiciona volatilidade ao cenário

Além da rotação dentro da tecnologia, o pregão de sexta-feira também foi marcado pela pressão do petróleo. O Brent fechou o dia em alta de 1,21%, a US$ 87,93 o barril. No mês, a commodity disparou 23,5%, impulsionada pela retomada de tensões entre Estados Unidos e Irã e pela ameaça de bloqueio marítimo dos houthis do Iêmen à Arábia Saudita.

A Guarda Revolucionária do Irã informou ter interceptado dois navios-tanque que tentavam cruzar o Estreito de Ormuz, passagem por onde transita cerca de 20% do petróleo consumido no mundo. A escalada geopolítica adiciona uma camada de risco aos mercados que vai além da questão tecnológica.

Para investidores, a alta do petróleo pressiona inflação e, por consequência, as expectativas de juros. Isso torna o ambiente mais hostil para ações de crescimento, categoria onde se encaixam a maioria das big techs. Como discutimos em análises anteriores sobre o cenário macro, a combinação de juros elevados com incerteza geopolítica tende a favorecer empresas com geração de caixa comprovada.

O que isso significa para quem investe

O mês de julho deixou uma lição para o segundo semestre. O setor de tecnologia não está caindo como bloco. Está se fragmentando. Empresas que demonstram capacidade de monetizar IA, como Amazon e Nvidia, estão sendo premiadas. As que ainda dependem de narrativa ou enfrentam gargalos operacionais, como a Apple neste momento, estão sendo punidas.

A divergência entre Dow Jones e Nasdaq sugere que o mercado americano não está em crise generalizada, mas em processo de seleção. Para o investidor brasileiro, que muitas vezes acessa o mercado americano via ETFs concentrados em tecnologia, a composição da carteira importa mais do que nunca. Comprar “tecnologia” como categoria genérica pode significar carregar posições em empresas que o mercado está ativamente desvalorizando.

O segundo semestre será definido pela capacidade das big techs de provar que os bilhões investidos em IA geram retorno. Os resultados da Amazon mostraram um caminho. O restante do setor precisa fazer o mesmo.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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