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Coreia do Sul fecha US$ 950 bi em acordos de IA com Samsung e SK

Samsung e SK Group firmaram acordos de US$ 950 bi com gigantes americanas de IA. Os pactos revelam uma corrida global por chips de memória que mal começou.

Coreia do Sul fecha US$ 950 bi em acordos de IA com Samsung e SK
Foto: Tima Miroshnichenko / Unsplash

A cifra é difícil de processar: US$ 950 bilhões. Esse é o valor combinado dos acordos de inteligência artificial anunciados pelo governo da Coreia do Sul envolvendo Samsung Electronics, SK Group e as principais empresas de tecnologia dos Estados Unidos. Os pactos foram revelados após uma cúpula sobre IA organizada pelo presidente sul-coreano Lee Jae Myung em São Francisco, numa demonstração de força industrial que reposiciona Seul no centro da disputa global por infraestrutura de inteligência artificial.

Do total, US$ 750 bilhões correspondem a acordos da SK Group, incluindo uma parceria entre SK Hynix e Nvidia avaliada em mais de US$ 500 bilhões. A Samsung, por sua vez, assinou um memorando de entendimento com a Broadcom que pode alcançar US$ 200 bilhões em chips de memória, serviços de fundição e soluções de encapsulamento avançado. Não se trata de promessas vagas. São compromissos de fornecimento de longo prazo num mercado onde a demanda por capacidade computacional já supera a oferta disponível.

Por que a memória virou o gargalo da revolução de IA

A narrativa dominante sobre inteligência artificial costuma girar em torno de GPUs e poder de processamento. Mas quem acompanha a cadeia de suprimentos sabe que o verdadeiro gargalo está se deslocando para a memória. Treinar modelos de linguagem cada vez maiores exige volumes colossais de memória de alta largura de banda, conhecida pela sigla HBM. E apenas duas empresas no mundo fabricam esse componente em escala relevante: SK Hynix e Samsung.

O presidente da SK Group, Chey Tae-won, foi direto ao ponto durante a cúpula. Segundo ele, os clientes de IA estão buscando quantidades de memória muito superiores ao que se projetava há poucos meses. Chey relatou que a própria Nvidia revisou suas estimativas de demanda para os próximos cinco anos e que esses números podem se mostrar conservadores. “Não ficaria surpreso se, na próxima vez que eu encontrar Jensen Huang, ele me disser que esses números ficaram muito baixos”, afirmou o executivo.

A lógica é simples. Cada nova geração de modelos de IA, sejam os da OpenAI, Anthropic ou Google, demanda exponencialmente mais memória e capacidade de processamento. É uma dinâmica que transforma o setor de semicondutores num dos epicentros de investimento global.

O que cada acordo prevê na prática

A parceria entre SK Hynix e Nvidia envolve fornecimento garantido de memória HBM de última geração e desenvolvimento conjunto de chips HBM4, a próxima evolução dessa tecnologia. Além disso, a SK Telecom planeja construir um data center de 2 gigawatts equipado com chips Vera Rubin da Nvidia e memória HBM4 da SK Hynix. A previsão de operação é 2027.

Já a Samsung firmou com a Broadcom um acordo para desenvolver o acelerador de IA de próxima geração da empresa americana, utilizando a tecnologia HBM da Samsung. O pacote inclui ainda acesso a processos de fundição sub-2-nanômetros, uma fronteira tecnológica que pouquíssimas fábricas no mundo conseguem alcançar. Para a Samsung, que vinha perdendo terreno para a TSMC no segmento de fundição avançada, o acordo com a Broadcom representa uma chance concreta de reconquistar relevância.

O que chama atenção é a amplitude dos interlocutores americanos envolvidos. O presidente Lee se reuniu separadamente com Jensen Huang (Nvidia), Sam Altman (OpenAI), Dario Amodei (Anthropic) e Hock Tan (Broadcom). A mensagem é clara: a Coreia do Sul quer ser o fornecedor indispensável de toda a cadeia de IA ocidental.

Anthropic e OpenAI correm atrás de chips próprios

Um detalhe revelado durante a cúpula merece atenção especial. Segundo Chey, a Anthropic está desenvolvendo seu próprio “poder de computação”, possivelmente projetando chips customizados. A informação é consistente com reportagens recentes de que o laboratório de IA está explorando a possibilidade de reduzir sua dependência de fornecedores externos. Um porta-voz da Anthropic confirmou que a empresa “está sempre explorando opções” e recorre a “uma variedade de chips para uma abordagem diversificada”.

A OpenAI, por sua vez, teria pedido diretamente à SK para fornecer chips à companhia. É um movimento que ilustra como a corrida por infraestrutura de IA está forçando até os laboratórios de pesquisa a negociarem diretamente com fabricantes de semicondutores, algo impensável há dois anos.

Em maio, a Anthropic levantou recursos com uma avaliação pós-investimento de US$ 965 bilhões, citando Samsung, SK Hynix e Micron como parceiras fundamentais no fornecimento de chips de memória e armazenamento. Os valuations das empresas de IA e os volumes de investimento em infraestrutura estão convergindo para um mesmo patamar: centenas de bilhões de dólares.

A estratégia industrial da Coreia do Sul vai além dos acordos

Os pactos anunciados em São Francisco não existem no vácuo. No mês anterior, o presidente Lee havia revelado três grandes projetos industriais liderados por Samsung e SK Hynix, incluindo clusters de produção de chips, ecossistemas de IA física e centros de dados. O valor total dessa estratégia estatal ultrapassa US$ 576 bilhões.

Outro movimento relevante: Lee organizou uma reunião no Vale do Silício entre o Serviço Nacional de Previdência da Coreia do Sul, o terceiro maior fundo de previdência do mundo, e empresas de venture capital americanas. O objetivo é canalizar capital institucional sul-coreano para startups do ecossistema de IA, criando um ciclo de retroalimentação entre investimento e fornecimento de tecnologia.

Para quem investe em tecnologia, o recado é direto: a cadeia de suprimentos de IA está se consolidando em torno de poucos fornecedores de componentes críticos. Samsung e SK Hynix controlam a maior parte da produção global de memória HBM, e a demanda está crescendo mais rápido do que a capacidade de expansão dessas fábricas. Esse descompasso entre oferta e demanda tende a beneficiar as empresas que dominam esses elos da cadeia por vários anos.

A corrida por inteligência artificial não é apenas uma disputa de software. É, cada vez mais, uma disputa de átomos: silício, memória, energia elétrica e infraestrutura física. Os US$ 950 bilhões anunciados em São Francisco são o maior indicativo até agora de que essa corrida está apenas acelerando.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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