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Hut 8 e IREN fecham US$ 12 bi em contratos de IA: o que muda

Mineradoras de bitcoin que migraram para data centers de IA fecharam contratos bilionários e derrubaram a tese de desaceleração na demanda por computação.

Hut 8 e IREN fecham US$ 12 bi em contratos de IA: o que muda
Foto: panumas nikhomkhai / Unsplash

A narrativa de que a demanda por infraestrutura de inteligência artificial estaria perdendo fôlego durou pouco. Na segunda-feira, as ações de empresas que migraram da mineração de bitcoin para data centers de IA dispararam após dois anúncios que, somados, representam mais de US$ 12,6 bilhões em novos contratos.

A Hut 8 subiu até 17% ao revelar um contrato de locação de 15 anos no valor de US$ 9,8 bilhões para a segunda fase do seu campus de data centers Beacon Point, no Texas. A IREN avançou até 19% com US$ 2,8 bilhões em contratos plurianuais de serviços em nuvem com desenvolvedores de IA. O efeito cascata arrastou todo o setor para cima.

O que está por trás dos contratos bilionários da Hut 8 e IREN

O acordo da Hut 8 foi firmado com o mesmo cliente de grau de investimento que alugou a primeira fase do Beacon Point. Com a nova etapa, o inquilino dobra sua presença para 704 megawatts e comercializa toda a capacidade de 1 gigawatt do campus. Um contrato de 15 anos dessa magnitude sinaliza compromisso de longo prazo, algo que o mercado interpretou como validação da tese de que a demanda por computação de alta performance não é passageira.

Já a IREN elevou sua meta de receita anualizada de nuvem de IA para mais de US$ 4 bilhões até o fim do ano, com cerca de 85% desse valor já sob contrato. Diferentemente de promessas vagas, trata-se de receita contratada, o que reduz significativamente o risco de execução. A empresa, que nasceu como mineradora de bitcoin na Austrália, hoje opera como provedora de serviços de computação em nuvem voltados para treinamento e inferência de modelos de IA.

A onda de valorização não se limitou às protagonistas. A Cipher Mining subiu 11%, a TeraWulf avançou 6,4%, a Riot Platforms ganhou 5% e a MARA Holdings saltou 9%. O ETF CoinShares Bitcoin Miners, que reúne empresas do setor, fechou em alta de 8,5%.

A tese de desaceleração que durou semanas

Nas semanas anteriores, o setor de infraestrutura de IA havia tropeçado. Dois fatores alimentaram o ceticismo. Primeiro, empresas chinesas lançaram modelos de IA de código aberto que aparentavam exigir menos poder computacional do que os rivais ocidentais, levantando dúvidas sobre a necessidade de tanto investimento em data centers. Como analisamos em nossa cobertura de tecnologia, o avanço de modelos mais eficientes é uma variável que o mercado ainda está aprendendo a precificar.

Segundo, surgiram relatos de que a Meta, controladora do Facebook, estaria considerando criar um serviço de nuvem para alugar capacidade de computação de IA. A perspectiva de uma big tech entrando diretamente como concorrente dos operadores independentes de data centers pressionou as cotações.

Os contratos da Hut 8 e da IREN funcionaram como um contraponto concreto a essas preocupações. A mensagem implícita é direta: mesmo que modelos fiquem mais eficientes e que big techs ampliem sua oferta, a demanda bruta por capacidade computacional continua crescendo a ponto de justificar compromissos bilionários de longo prazo.

De mineradoras de bitcoin a potências de infraestrutura

A transição de mineradoras de bitcoin para provedoras de infraestrutura de IA não é exatamente nova, mas está ganhando escala. A lógica é relativamente simples: essas empresas já possuem acesso a energia de baixo custo, instalações refrigeradas e expertise em operações de computação intensiva. Os mesmos ativos que serviam para minerar bitcoin agora rodam GPUs para treinamento de modelos de linguagem.

O que mudou nos últimos meses, como detalhamos em análises sobre o setor de criptomoedas, é a magnitude dos contratos. Até pouco tempo, as receitas de IA dessas empresas eram marginais em relação à mineração. Agora, em casos como o da IREN, a vertical de nuvem de IA já é o principal motor de receita. A Hut 8, por sua vez, aposta em um modelo de locação de longo prazo que garante previsibilidade de caixa por 15 anos.

Para investidores, a implicação é relevante. Essas companhias deixam de ser avaliadas apenas pelo preço do bitcoin e passam a ser precificadas como empresas de infraestrutura digital, com múltiplos mais próximos de players como Equinix e Digital Realty do que de mineradoras tradicionais.

O que isso sinaliza para o mercado de IA

A corrida por capacidade computacional de IA está longe de um ponto de saturação. Segundo estimativas do setor, a demanda global por energia dedicada a data centers de IA deve mais que dobrar até 2027. Contratos como os anunciados na segunda-feira sugerem que os grandes compradores de computação, como empresas de tecnologia e startups de IA, estão dispostos a travar preços e capacidade por prazos longos, sinal de que esperam necessidades crescentes.

Para o mercado financeiro, a movimentação reforça uma tese que vinha sendo questionada: a infraestrutura de IA segue sendo um dos vetores de investimento mais robustos da atual geração tecnológica. O ponto de atenção, como discutimos em nossa seção de finanças, é a concentração. Poucas empresas estão conseguindo fechar contratos dessa magnitude, o que pode criar uma dinâmica de “vencedor leva tudo” no segmento.

A alta das ações na segunda-feira não é apenas uma reação a boas notícias pontuais. É o mercado reavaliando se a correção recente do setor foi exagerada. Com US$ 12,6 bilhões em contratos novos em um único dia, a resposta parece clara.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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