Criptomoedas

Bitcoin estagna a US$ 64 mil entre petróleo e crise da IA

Bitcoin oscila pouco a US$ 64.200 enquanto petróleo dispara 4% por tensões geopolíticas e mercado digere impacto de modelo chinês de IA sobre ações de chips.

Bitcoin estagna a US$ 64 mil entre petróleo e crise da IA
Foto: DS stories / Unsplash

O Bitcoin começou a semana praticamente parado. A maior criptomoeda do mercado operava a US$ 64.200 na segunda-feira, com variação próxima de zero no dia e acúmulo de 3% na semana. O volume negociado girava em torno de US$ 18 bilhões. O Ethereum, por sua vez, se destacava entre os principais ativos digitais com alta de 5% em sete dias, negociado a US$ 1.860.

A aparente calmaria no preço do Bitcoin, porém, esconde uma disputa de forças relevantes nos bastidores. De um lado, o petróleo Brent disparou até 4%, alcançando US$ 91,42 o barril, maior cotação em um mês, após escalada nos confrontos entre Estados Unidos e Irã. Do outro, o mercado de tecnologia ainda lambia as feridas de uma liquidação em ações de semicondutores provocada pelo lançamento de um modelo de inteligência artificial chinês.

Petróleo em alta reacende o fantasma inflacionário

A alta do petróleo é o sinal mais barulhento dos mercados nesta semana. O avanço de 4% no Brent veio após ataques entre EUA e Irã se expandirem para além de alvos militares, levando o conflito a sua segunda semana de confrontos abertos.

Esse movimento reabre uma preocupação que parecia estar se dissipando. Os dados de inflação mais brandos publicados nos Estados Unidos ao longo do mês tinham dado alívio ao mercado. Agora, um barril de petróleo acima de US$ 91 recoloca a pressão inflacionária no centro do debate, justamente quando investidores apostavam que o Federal Reserve poderia manter os juros estáveis sem grandes sustos.

Para ativos de risco como o Bitcoin, a lógica é direta: inflação persistente reduz o espaço para cortes de juros e torna a renda fixa mais atrativa em termos relativos. Como já discutimos em análises anteriores sobre o mercado cripto, o ciclo de juros americano segue como um dos vetores mais determinantes para o preço das criptomoedas em 2025.

Modelo chinês de IA derrubou ações de chips e arrastou o cripto

A segunda força que pressiona o Bitcoin veio de um lugar inesperado: a inteligência artificial. Na sexta-feira, a startup chinesa Moonshot AI lançou o Kimi K3, um modelo de código aberto que assumiu a liderança em um benchmark amplamente acompanhado de programação. O resultado imediato foi uma liquidação em ações de semicondutores, setor que sustenta boa parte da narrativa de valorização em torno da IA.

A preocupação do mercado é simples. Se modelos de IA de alta performance podem ser produzidos de forma mais barata e aberta, a demanda por chips avançados pode não crescer no ritmo que os preços atuais das ações de empresas como Nvidia e AMD embutem. Esse questionamento já provocou ondas de volatilidade no setor de tecnologia ao longo do ano.

O impacto no cripto não é acidental. Ao longo do mês, o Bitcoin manteve correlação elevada com ações de tecnologia e, especificamente, com papéis de semicondutores. Quando o Nasdaq cai por conta de uma reavaliação do setor de IA, o Bitcoin tende a ir junto.

O efeito reverberou na Ásia na segunda-feira. O índice Kospi da Coreia do Sul caiu 3,5% na reabertura após feriado, enquanto futuros do Nasdaq 100 se estabilizavam com leve alta de 0,5%.

As duas forças se anulam, mas a semana promete definição

O cenário atual cria uma espécie de cabo de guerra para o Bitcoin. O petróleo em alta é inflacionário, portanto negativo para ativos de risco. O questionamento sobre a tese de IA pressiona justamente as ações de tecnologia com as quais o Bitcoin está correlacionado.

As forças, por enquanto, se cancelam. Mas a semana pode trazer uma definição. Não há dados macroeconômicos relevantes nos Estados Unidos nos próximos dias, o que desloca o foco para os balanços corporativos. A Alphabet (dona do Google) reporta resultados na terça-feira, a Tesla na quarta e a Intel na quinta.

São exatamente os nomes que podem responder à pergunta central: o ritmo de investimento das big techs em infraestrutura de IA continua ou está desacelerando? Os resultados vão determinar se o selloff de sexta foi um ajuste pontual ou o início de uma reprecificação mais profunda do setor.

Esse ponto é especialmente relevante para empresas de mineração de Bitcoin que estão pivotando parte de sua infraestrutura para atender demanda de computação em IA. Como já exploramos em matérias sobre a convergência entre mineração e inteligência artificial, essa tese depende diretamente do apetite das big techs por capacidade computacional.

Altcoins em compasso de espera e volumes em recuperação

Entre as demais criptomoedas, o cenário foi de estabilidade quase total. O XRP operava a US$ 1,09, o Solana a US$ 76, o BNB recuava levemente para US$ 565 e o Dogecoin seguia estável perto de US$ 0,07. A exceção negativa foi o HYPE, token da Hyperliquid, que acumulava queda de 10% na semana, a US$ 60, sem catalisador específico além do tom de aversão a risco generalizado.

Um dado positivo vem do lado estrutural do mercado. O volume de negociação em exchanges centralizadas subiu pela primeira vez em cinco meses em junho. O volume spot avançou 15,3%, chegando a US$ 1,11 trilhão, enquanto o volume de contratos perpétuos de ativos do mundo real (RWA) atingiu o recorde de US$ 311 bilhões.

A recuperação de volumes é um indicador relevante de que, apesar da lateralização do preço, a participação no mercado não está secando. Historicamente, períodos de consolidação com volume crescente tendem a preceder movimentos direcionais mais amplos.

A próxima semana, portanto, tem todos os ingredientes para tirar o Bitcoin dessa zona de equilíbrio frágil. A direção vai depender menos de dados econômicos e mais de como o mercado processa a nova realidade geopolítica e a sustentabilidade da narrativa de IA que sustentou boa parte do rali de ativos de risco no primeiro semestre.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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