Meta e IA: por que subestimar o capex bilionário pode ser um erro
Ação da Meta cai na contramão do S&P 500, mas gestora com R$ 700 mi sob gestão vê upside ignorado pelo mercado na infraestrutura de IA da empresa.
A Meta acumula queda nos últimos 12 meses enquanto o S&P 500 segue em direção oposta. O motivo é conhecido: o mercado olha para os bilhões despejados em infraestrutura de inteligência artificial e enxerga risco. A depreciação crescente comprime o lucro por ação no curto prazo e torna a ação, pela métrica mais imediata, mais cara.
Mas existe um outro lado dessa conta. Uma gestora brasileira focada em ações internacionais, com cerca de R$ 700 milhões sob gestão e a Meta no portfólio há uma década, argumenta que o mercado está cometendo um erro clássico: precificar o custo sem precificar o ativo que está sendo construído.
O argumento central é simples. Se parte relevante do capex está criando uma infraestrutura de IA monetizável, a conta deveria incluir novas receitas que ainda não entraram nas projeções da maioria dos analistas. E é justamente aí que a assimetria aparece.
O que dá à Meta vantagem competitiva em IA
A tese parte de três diferenciais estruturais que a Meta possui e que poucas empresas no planeta conseguem replicar simultaneamente.
O primeiro é distribuição. A companhia tem 3,6 bilhões de usuários pessoa física, 250 milhões de empresas e 10 milhões de anunciantes ativos. Qualquer produto de IA desenvolvido internamente já nasce com uma base de distribuição que rivais precisariam de anos para construir. Como discutimos em nossa cobertura de tecnologia, esse tipo de vantagem de escala é difícil de replicar mesmo para concorrentes bem capitalizados.
O segundo diferencial são os dados proprietários. Bilhões de interações diárias em WhatsApp, Instagram, Facebook e Threads alimentam modelos de IA com um volume e uma diversidade de dados que dinheiro, sozinho, não compra. Esse é um fosso competitivo real.
O terceiro ponto é geração de caixa. A Meta continua lucrativa o suficiente para sustentar investimentos pesados em IA sem precisar recorrer a dívida ou diluição. Isso atrai talentos de engenharia e permite ciclos de investimento mais longos, algo que está transformando o mercado financeiro global.
De onde podem vir as novas receitas de IA
O ceticismo do mercado com o capex da Meta foca no custo. Mas o que importa para o investidor de longo prazo são as avenidas de monetização que a infraestrutura de IA abre.
A mais óbvia é a melhoria na eficiência de anúncios. Modelos de IA mais sofisticados aprimoram três etapas do funil: a escolha do público-alvo, a criação das peças publicitárias e a taxa de conversão. Cada ponto percentual de melhoria nesses indicadores se traduz em bilhões de receita adicional, considerando que a Meta faturou mais de US$ 130 bilhões com publicidade no último ano fiscal.
Além dos anúncios, a gestora aponta duas frentes adicionais. A primeira é o desenvolvimento de aplicativos e serviços nativos de IA, produtos que podem gerar receita própria à medida que a tecnologia amadurece. A segunda é a criação de agentes de IA para as 250 milhões de empresas da base, automatizando processos de vendas, atendimento e operações.
Existe ainda um piso de segurança na tese. Mesmo no cenário em que nenhuma dessas iniciativas se materialize como esperado, a Meta poderia monetizar sua capacidade computacional como serviço de nuvem, alugando parte da infraestrutura instalada. Seria, na prática, transformar capex em receita recorrente pelo modelo de cloud computing.
O mercado de anúncios tem limite de crescimento?
Uma dúvida legítima sobre a tese é se o mercado global de propaganda ainda tem espaço para crescer. Nos últimos anos, os gastos com publicidade digital já se expandiram de forma significativa em relação ao PIB mundial.
O argumento dos defensores da Meta é direto: enquanto os anúncios forem mensuráveis e rentáveis, não há teto natural. A diferença em relação ao passado é estrutural. Antes, marcas faziam campanhas de branding na esperança de que o investimento se convertesse em vendas. Hoje, plataformas como a Meta permitem medir o retorno de cada real investido em tempo real.
Esse ponto é relevante porque desacopla o crescimento da publicidade digital da economia como um todo. Mesmo em cenários de desaceleração econômica, anunciantes tendem a manter ou aumentar gastos em canais que comprovadamente geram conversão, algo que exploramos ao analisar quem ganha com a nova corrida tecnológica.
A armadilha do curto prazo e as lições de Microsoft e Mastercard
O primeiro semestre foi descrito pela gestora como monotemático. Investidores ficaram presos a narrativas de curto prazo e revisões de lucro. Tudo que parecia beneficiário de IA subiu, e tudo que foi percebido como prejudicado caiu. Uma simplificação excessiva, na visão da casa.
Um exemplo citado é a SAP, que recuou 37% no semestre. Para a gestora, o mercado exagerou no pessimismo ao classificar a empresa como perdedora na era da IA, ignorando seus fundamentos e posição no mercado corporativo.
Dois casos ilustram bem a dinâmica. Nos últimos cinco anos, tanto Microsoft quanto Mastercard entregaram crescimento de lucro por ação superior a 100%. Mas as ações de ambas valorizaram apenas 38% no mesmo período. Ou seja, os fundamentos superaram em muito o desempenho dos papéis. Quando isso acontece, a história mostra que os preços tendem a convergir para os lucros, e não o contrário.
No caso da Meta, a lógica é análoga. Se o investidor olha apenas para o EPS de curto prazo, a depreciação crescente dos investimentos em IA torna a ação mais cara. Mas se a infraestrutura que está sendo montada gerar receitas incrementais nos próximos três a cinco anos, o valuation atual pode estar subestimando o potencial da companhia de forma significativa.
A gestora mantém, além da Meta, posições em outras empresas ligadas à cadeia de IA, com a TSMC como maior posição, seguida por Alphabet. O portfólio é composto por 17% em semicondutores, 16% em serviços financeiros, 15% em software e cloud e 14% em aeroespacial. Uma alocação que reflete a convicção de que a IA não é uma bolha passageira, mas uma camada de infraestrutura que vai reorganizar setores inteiros da economia.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.