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IBM desaba 25% na bolsa: o que a crise revela sobre o futuro do software

Maior queda da história da IBM expõe como os gastos corporativos estão migrando para infraestrutura de IA, deixando empresas de software tradicionais para trás.

IBM desaba 25% na bolsa: o que a crise revela sobre o futuro do software
Foto: panumas nikhomkhai / Unsplash

A IBM registrou a maior queda diária de sua história centenária. As ações despencaram 25% após a companhia divulgar resultados preliminares abaixo das expectativas do mercado. A receita ficou em US$ 17,2 bilhões, contra o consenso de US$ 17,9 bilhões entre analistas. Não é apenas um trimestre ruim. É um sinal estrutural sobre para onde o dinheiro corporativo está indo.

O CEO Arvind Krishna foi direto em carta aos investidores: a empresa falhou. Não se adaptou com velocidade suficiente e grandes contratos não foram fechados nos prazos previstos. A admissão é rara para uma companhia do porte da IBM e revela uma pressão que vai além de um ciclo pontual.

Para onde o dinheiro corporativo está migrando

O problema central não é operacional. É de alocação de capital. Os clientes corporativos da IBM estão redirecionando orçamentos de TI para infraestrutura de inteligência artificial. Isso significa comprar GPUs, chips de memória, capacidade de armazenamento e contratos com hyperscalers, os grandes provedores de nuvem para IA.

A IBM não figura entre os principais beneficiários em nenhuma dessas categorias. Enquanto empresas como Nvidia dominam o mercado de chips para IA e provedores como AWS, Azure e Google Cloud concentram os contratos de nuvem, a IBM ficou espremida no meio. Seus serviços de software, que vinham sendo o pilar da estratégia de reposicionamento, passaram a competir diretamente com agentes de IA desenvolvidos por Anthropic e OpenAI.

A divisão de infraestrutura da IBM teve queda de 7% nas vendas no trimestre. É um número que confirma a tendência: clientes estão priorizando gastos defensivos em hardware e infraestrutura de IA, antecipando novos aumentos de preço nesses componentes. Krishna admitiu que a empresa esperava algum impacto de problemas na cadeia de fornecedores, mas não previu essa migração acelerada de gastos.

O efeito cascata sobre todo o setor de software

O tombo da IBM não deve ser um caso isolado. Analistas da Bloomberg Intelligence apontam que os gastos discricionários com TI estão piorando e que essa será a narrativa dominante na temporada de resultados das empresas de software. Como discutimos em nossa cobertura do setor de tecnologia, a redistribuição dos orçamentos corporativos em favor da infraestrutura de IA já vinha sendo sinalizada por diversas companhias.

O raciocínio é simples. Quando o CFO de uma grande corporação precisa decidir entre renovar um contrato de software tradicional ou investir em capacidade de processamento para rodar modelos de linguagem, a segunda opção vem ganhando. Não porque o software antigo seja inútil, mas porque a pressão por adotar IA é existencial para muitos setores.

Isso cria um problema de curto prazo para empresas que dependem de receita recorrente com licenciamento e serviços de software. A IBM gastou bilhões adquirindo a Red Hat e a HashiCorp exatamente para se posicionar nesse modelo. A Red Hat até cresceu 11% no trimestre, mas não o suficiente para compensar a queda nas outras divisões.

A IBM já se reinventou antes, mas o desafio agora é diferente

Fundada em 1911, a IBM tem uma longa história de reinvenções. Nos anos 1990, sob o comando de Lou Gerstner Jr., a companhia fez uma transição bem-sucedida do mercado de PCs para serviços de consultoria corporativa. Gerstner depois registrou a experiência no livro “Quem disse que os elefantes não dançam?”, que virou referência em gestão de turnarounds.

Mas o contexto atual é diferente. Na virada dos anos 1990, a IBM estava saindo de um mercado comoditizado (PCs) para um de alto valor agregado (consultoria e serviços). Agora, ela precisa competir em um mercado onde os vencedores já estão definidos, ao menos no curto prazo. Nvidia domina chips de IA. Microsoft, Google e Amazon dominam a nuvem. OpenAI e Anthropic dominam os modelos de linguagem. A IBM aposta em computação quântica e novos serviços de software, mas essas são jogadas de prazo mais longo.

Como analisamos em nossa seção de finanças, empresas que ficam no meio do caminho durante transições tecnológicas costumam sofrer compressão de múltiplos prolongada. O mercado não pune apenas o resultado ruim do trimestre, mas reprecia o potencial futuro da companhia.

O que isso significa para quem acompanha o setor

A queda da IBM é, acima de tudo, um termômetro. Mostra que a migração de gastos corporativos para infraestrutura de IA não é mais uma projeção de analistas otimistas. Está acontecendo nos balanços, trimestre a trimestre.

Para investidores que acompanham o setor de tecnologia, o sinal é claro: empresas de software tradicional que não conseguirem demonstrar valor direto na cadeia de IA enfrentarão pressão crescente. Os orçamentos de TI não estão diminuindo, estão sendo realocados. E nessa realocação, o dinheiro está fluindo para as camadas de infraestrutura, como hardware, chips e nuvem, e não para serviços intermediários.

Krishna encerrou sua carta dizendo que está convicto da força do portfólio e da transformação estratégica da IBM. A questão é se o mercado vai dar tempo para essa convicção se provar. Com 115 anos de história, a IBM já mostrou resiliência excepcional. Mas como observamos em análises anteriores sobre big techs, a velocidade da atual transição tecnológica não tem paralelo. O elefante precisa aprender a dançar num ritmo que nunca existiu antes.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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