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Nova York barra data centers e desafia corrida da IA nos EUA

Nova York suspendeu a aprovação de novos data centers acima de 50 MW. A decisão confronta a política federal e levanta dúvidas sobre o ritmo da expansão de IA.

Nova York barra data centers e desafia corrida da IA nos EUA
Foto: panumas nikhomkhai / Unsplash

O estado de Nova York se tornou o primeiro dos Estados Unidos a suspender a construção de novos data centers. A governadora Kathy Hochul assinou uma ordem executiva que barra temporariamente a emissão de novas licenças para projetos com capacidade igual ou superior a 50 megawatts. Mais de uma dúzia de empreendimentos podem ser afetados pela medida.

A decisão é um marco regulatório num momento em que a expansão da infraestrutura de inteligência artificial se tornou prioridade estratégica para gigantes de tecnologia e para o próprio governo federal. A moratória coloca Nova York em rota de colisão com a administração Trump, que tem incentivado ativamente a construção de novos data centers no país.

O que motivou a suspensão dos data centers em Nova York

A governadora foi direta na justificativa. “O progresso não pode chegar com uma conta de luz mais cara, abastecimento de água comprometido ou poluição sonora”, disse Hochul durante coletiva no Brooklyn. A ordem determina que o Departamento de Conservação Ambiental do estado não emita mais licenças para projetos que ainda não tenham concluído o processo de aprovação.

A moratória deve durar aproximadamente um ano, tempo estimado para que o estado finalize um processo de revisão ambiental específico para data centers. O gabinete da governadora também estuda exigir que essas instalações contribuam para um fundo de manutenção da rede elétrica estadual e pretende impedir que centros de dados de larga escala recebam benefícios fiscais.

A escala dos projetos atuais é parte central do problema. Segundo dados da BloombergNEF, quase um quarto dos novos data centers construídos até 2030 deve superar 500 megawatts de capacidade, um salto considerável diante da média dos últimos anos, que ficou abaixo de 100 MW. A demanda crescente por computação de IA é o principal motor dessa expansão.

Sentimento público e pressão legislativa

A ordem executiva não surgiu no vácuo. Na legislatura estadual de Nova York, propostas ainda mais restritivas já tramitam. Um projeto de lei aprovado no mês passado propõe pausar por um ano a construção de data centers acima de 20 megawatts. Outro, ainda em comissão, sugere uma moratória de três anos.

O cenário reflete uma mudança de percepção pública. Há poucos anos, estados disputavam projetos de data centers como motor de desenvolvimento econômico. Agora, o tom é outro. Pesquisa recente mostrou que dois terços dos entrevistados estão preocupados com o impacto dessas instalações no preço da energia elétrica. Outro levantamento revelou que as pessoas prefeririam ter um armazém da Amazon na vizinhança a um data center.

Essa insatisfação se conecta a um desconforto mais amplo com a inteligência artificial. Estudo do Pew Research Center aponta que apenas 10% dos americanos se dizem mais empolgados do que preocupados com o uso de IA no cotidiano. Menos de um quarto acredita que a tecnologia trará benefícios econômicos relevantes. A desconfiança em relação à capacidade do governo de regular a IA de forma responsável é igualmente alta: menos de um terço dos entrevistados manifesta confiança nesse ponto.

Confronto com a política federal de incentivo à IA

A decisão de Nova York cria um atrito evidente com Washington. A administração Trump tem atuado para acelerar a instalação de data centers, não freá-la. No mês passado, a Comissão Federal de Regulação Energética (FERC), liderada por um indicado de Trump, orientou operadores de rede a criarem “faixas rápidas” para agilizar a conexão de data centers à infraestrutura elétrica.

O choque de orientações ilustra um dilema que vai além de Nova York. A corrida global pela infraestrutura de IA envolve trilhões de dólares em investimento, como grandes empresas de tecnologia têm anunciado. Mas a capacidade das redes elétricas existentes de absorver essa demanda é limitada. Cada novo data center de larga escala consome energia equivalente a uma cidade de médio porte, pressiona o abastecimento de água usado nos sistemas de refrigeração e ocupa áreas agrícolas.

Outros estados já sinalizaram interesse em medidas semelhantes. No Maine, a legislatura aprovou um projeto que pausaria novas construções até novembro de 2027, mas a governadora Janet Mills vetou a proposta. No Congresso, o senador Bernie Sanders apresentou uma proposta de moratória nacional, embora sem tração política significativa até o momento. Em dezembro, mais de 230 organizações pediram uma pausa nacional na construção de novos data centers.

O que está em jogo para o setor de tecnologia

Para as big techs, Nova York representa um mercado estratégico. O estado concentra parte relevante da infraestrutura financeira e corporativa dos EUA, o que torna a proximidade geográfica dos data centers um fator de latência e desempenho. Restrições locais podem redirecionar investimentos para estados com regulação mais permissiva, algo que já acontece com projetos migrando para regiões do interior do país.

A questão energética é central. A expansão acelerada da inteligência artificial multiplicou a demanda por capacidade computacional, e cada novo modelo de linguagem ou sistema de inferência exige mais eletricidade. O problema se agrava quando os data centers recorrem a fontes não renováveis para suprir picos de consumo, contradizendo compromissos climáticos assumidos pelas próprias empresas de tecnologia.

A moratória de Nova York não resolve o dilema, mas estabelece um precedente regulatório concreto. O sinal é claro: a expansão da infraestrutura de IA não será ilimitada se o custo ambiental e social recair sobre comunidades locais. O desafio, a partir de agora, é encontrar um modelo de revisão ambiental que seja robusto sem paralisar o desenvolvimento tecnológico por tempo indefinido. As próximas decisões estaduais e federais sobre o tema devem definir o ritmo real da corrida pela IA nos Estados Unidos.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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